Project Gutenberg's A Lenda da Meia-Noite, by Manuel Joaquim Pinheiro Chagas

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Title: A Lenda da Meia-Noite

Author: Manuel Joaquim Pinheiro Chagas

Release Date: November 7, 2007 [EBook #23400]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A LENDA DA MEIA-NOITE ***




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     *Nota de editor:* Devido  quantidade de erros tipogrficos
     existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto 
     verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com
     o original. No final deste livro encontrar a lista de erros
     corrigidos.

     Rita Farinha (Nov. 2007)






COLLECO ANTONIO MARIA PEREIRA


M. PINHEIRO CHAGAS

A LENDA DA MEIA-NOITE


2.^a edio


LISBOA
Parceria A. M. PEREIRA--Livraria editora
_Rua Augusta, 50, 52 e 54_
1906





LISBOA
Officinas typographica e de encadernao
MOVIDAS A VAPOR
_Rua dos Correeiros, 70 e 72, 1.^o_
1906




A LENDA DA MEIA-NOITE


N'um dos sitios mais pittorescos da Beira-Baixa, n'essa montanha vestida
de verdura, onde se recosta Alpedrinha, e que domina o verdejante valle
do Fundo, ergue-se uma casa ampla e antiga, de cuja varanda, extensa
varanda de madeira, em cujos beiraes vem as andorinhas fazer os seus
ninhos, se descortina a extensa paisagem, onde alvejam Val de Prazeres e
outras villas e aldeias que matizam, com as suas casas brancas, o verde
do arvoredo, e que tem como panno de fundo a imponente massa da serra da
Estrella, coroada com as suas neves eternas.

A casa no tem formosuras architectonicas, nem aspecto de palacio; 
apenas um edificio vasto, cercado de dependencias rusticas, tendo
defronte do porto as cavallarias, casas de habitao dos criados,
etc., que, desenrolando se em semi circulo, fecham um terreiro que d ao
edificio campestre uma especie de pateo de entrada. A parte mais
caracteristica da residencia  a extensa varanda de madeira, to usada
na provincia, onde nas tardes de estio se respira a virao da serra,
onde nas manhs de inverno se toma alegremente a restea do sol.

Fica isolada a habitao que a largos traos descrevemos. Pegada com a
fachada principal est o muro, onde se abre o porto da quinta. Esta 
assombreada pelo magnifico arvoredo, que via, com incrivel vigor,
n'esse torro privilegiado conhecido na provincia pelo nome de cova da
Beira. Para um lado a pouca distancia fica Alpedrinha, a pittoresca
villa com as suas casas penduradas entre verduras da encosta da
montanha, para outro lado a estrada desce at ao Fundo. Por toda a
parte verdura, arvores, aguas, o ar purissimo das serras, os rumores
mysteriosos das solides.  encantadora a situao d'aquelle formoso
eremiterio.

No outono e no inverno a paisagem toma uns tons mais carregados e
lugubres. A montanha assume um certo ar de grandeza. Nos soutos espessos
dos castanheiros passa o furaco silvando com furia; a trovoada vae-se
repercutindo de echo em echo pelas concavidades dos valles, e os
relampagos illuminam, com a sua luz sinistra, o arvoredo que se estorce
nos braos doidos do vendaval. Nos amplos sales d'esses edificios
isolados ouvem-se rumores sinistros, e sons mysteriosos, e o vento,
fazendo ranger os pilares da varanda, enta a musica triste das lendas
populares.

 exactamente no outono que ns conduzimos o leitor  casa da Fragosa,
como por l se chama ao sitio em que ella fica. Os viscondes da Fragosa,
que alli moram, tinham convidado alguns amigos seus para irem caar nas
suas terras, de frma que estavam reunidas bastantes pessoas no grande
salo da residencia, junto da brazeira, no momento em que convidamos o
leitor para entrar tambem e aproveitar o calor benefico do lume.

 j noite; a tarde estivera sobre-maneira ventosa e fria, de frma que
os convidados, reunidos na varanda, para assistirem a um d'esses
esplendidos occasos do sol, que so to frequentes no outono, tiveram
que retirar e fechar-se em casa, deixando o vento gemer l fra,
estorcendo os ramos do arvoredo. Accendeu-se a brazeira, e,
esquecendo-se o frio e o vento, entrou-se n'uma palestra to animada,
como se se estivesse n'uma sala de Lisboa, a dois passos do Theatro
Italiano, e sentindo-se, a rodarem nas ruas, as carruagens da cidade.

O salo era vasto e simples, mobilado  antiga. Nas paredes alguns
velhos quadros sombrios; pesadas cadeiras, de ps torneados, forradas de
coiro lavrado, dispostas em circulo, em torno de uma mesa de pau santo,
ornava apenas um canto da sala immensa. N'esse canto, onde se agrupavam
a familia e os convidados, havia uma profusa illuminao. O resto da
sala ficava perdido na sombra. De vez em quando surgiam d'esse fundo
escuro os criados que vinham fazer algum servio. O toque da campainha
no parecia que os chamava, parecia que os evocava. Saam de subito da
penumbra, como se surgissem do cho. O aspecto da casa era, portanto, o
mais legendario que podia imaginar-se.

A conversao prolongra-se ainda depois do ch! Um medico, que residia
em Alpedrinha, para onde viera, no exercer a clinica, mas tratar da sua
propria saude, arruinada, em proveito da saude dos outros, homem de
espirito fino e amavel, fra quem sustentra principalmente a palestra,
ajudado por um sr. Lucio Valena, escriptor de certa aura, e caador
intrepido, e por uma filha dos viscondes, gentil menina, sympathica,
alegre e desembaraada, que, apesar de ter vivido sempre em
Castello-Branco, e de ter ido apenas uma ou duas vezes a Lisboa, no
tinha nenhum dos acanhamentos tradicionaes das provincianas de romance.

A pouco e pouco, porm, esmorecera a conversao: pausas cada vez mais
amiudadas cortavam a palestra, e o medico j tirra o relogio para vr
se no am sendo horas de retirada. Mas o visconde da Fragosa estava
agarrado, com o commendador Madureira, e alguns visinhos de campo, a um
impertinente _boston_, e em vista d'isso ninguem ousava ser o primeiro a
tocar a recolher.

N'estes silencios ouvia-se distinctamente o rugir do vento na serra, e
os seus gemidos e silvos nos corredores da casa.

--Meu Deus! que tristeza de noite! disse de subito uma joven senhora, de
notavel formosura, extraordinariamente pallida, mas com umas opulentas
tranas negras, e uns olhos negros tambem, grandes, rasgados, que lhe
illuminavam com estranho fulgor o rosto de alabastro. O vento geme com
uns sons to lugubres, que nos parece ouvir as queixas dos phantasmas. 
uma noite de lenda allem!

--Para isso, acudiu o doutor Macedo, falta a chuva, a trovoada, a neve e
muitos outros accessorios germanicos. O vento s no basta.

--V. ex.^a gosta de lendas, sr.^a D. Isaura? perguntou inclinando-se
para ella um elegante moo do Fundo, em quem pareciam ter produzido uma
impresso profunda os olhos negros e a romantica pallidez da filha do
commendador Madureira.

--Se gosto de lendas! respondeu a pallida menina. Ah! de certo,
adoro-as, mas gosto de as lr em Lisboa, no meu gabinete e  luz do sol.

--Sem _mise-en-scene_ no prestam, observou com toda a gravidade o
doutor Macedo.

--A que chama _mise-en-scene_, doutor? perguntou Isaura.

--O Lucio que lh'o explique, minha senhora; no quero invadir os seus
dominios.

--Oh! meu Deus, acudiu o escriptor, no  difficil de adivinhar. O
doutor entende que as lendas devem ser lidas e apreciadas  noite, no
meio do silencio geral, quando se est ssinho, n'um velho castello de
Anna Radcliffe, cheio de alapes e de subterraneos, quando o vento geme
lugubremente nos corredores, e faz oscillar a luz da vela que illumina a
nossa solitaria vigilia. Creio que o doutor, acudiu Lucio voltando-se
rindo para elle, dispensa que a vela esteja n'um craneo, em vez de estar
n'um castial, e que haja um cemiterio por baixo da janella.

--Dispenso... dispenso... acudiu o doutor com a mesma imperturbavel
gravidade, quero dizer... no julgo indispensaveis esses accessorios,
mas no posso negar que augmentavam de um modo notabilissimo o effeito
phantastico da narrativa legendaria.

--Meu Deus! exclamou a pallida Isaura. Fazem-me morrer de susto com
essas historias pavorosas. Hoje com toda a certeza no durmo. Que ida!
 necessario que no tenham a minima dse de sensibilidade para assim
estarem zombeteando a respeito de coisas, que me produziriam uma
impresso tamanha, que os meus nervos de certo no resistiriam. Estou j
toda tremula!

--Mas, minha senhora, exclamou o doutor Macedo, as lendas so como os
ananazes. Ha os nascidos ao ar livre, na sua terra propria, e ha-os
desabrochados artificialmente com o calor da estufa. N'um velho solar
provinciano, ao som lugubre do vento nos corredores, n'uma noite de
inverno sulcada de relampagos, nasce a lenda to naturalmente como o
ananaz no Brazil. N'uma sala de Lisboa, forrada de espelhos, ornada de
macios sophs, entre os rumores meridianos da rua, a luz clara e alegre
do sol, a lenda no pde ter mais sabor do que um ananaz de estufa.

--Jesus, meu Deus, exclamou D. Isaura, percebo isso perfeitamente, e bem
sei que o phantastico s pde produzir toda a impresso de que 
susceptivel no scenario que o doutor descreve: mas  que levado a esse
ponto, o phantastico produziria no meu espirito um funesto effeito.
Matava-me ou enlouquecia-me! Ah! tornou ella, eu adoro o ideal, mas o
ideal pde tambem partir as cordas da minha alma.

--Tomo o partido de Isaura, disse no sem alguma ironia a filha dos
viscondes de Fragosa, linda menina de cabellos castanhos claros e olhos
azues, de um azul to vivo que produziam s vezes a sensao de olhos
negros, como se fossem aquelles reflexos azulados da aza negra do corvo;
tomo o partido de Isaura. Os senhores esto fallando ahi como creaturas
vulgares incapazes de sentirem profundamente as grandes commoes. Para
as almas privilegiadas os grandes prazeres da imaginao muitas vezes
so tambem o martyrio. So as Ophelias, as Marias de Noronha, as
creaturas ideaes cujos corpos so apenas, como o da irm do bispo Myriel
nos _Misrables_, de Victor Hugo, pretextos para conservarem no mundo
almas de anjos.

--E cuidas que no ha na terra esses entes, cujas expresses mais
sublimes foram encontradas por tres grandes poetas que acabas de citar,
Garrett, Shakespeare e Victor Hugo? acudiu vivamente o enthusiasta de
Isaura, que sentira o leve epigramma, que o seu idolo no comprehendra.

--No cuido tal, Henrique. A prova de que os ha  que Isaura  um
d'esses entes.

--Por quem s, Leonor... acudiu Isaura com uns certos ares de modestia,
que ainda mais desesperaram o seu apaixonado.

-- assim, tornou Leonor. Tu, Isaura, sentes que se partiriam as cordas
da tua alma, se quizesses lr  noite n'um quarto de uma velha casa
provinciana uma historia de phantasmas. Morrias se te achasses ssinha 
noite n'uma sala de lugubre aspecto. Porque? Porque tens a imaginao
exaltada, a sensibilidade nervosa das Ophelias e das Marias de Noronha!

--E no admirava, acudiu Henrique Osorio que assim se chamava o moo do
Fundo, no admirava, sr.^a D. Isaura, que v. ex.^a tivesse medo de
estar ssinha n'um castello de Anna Radcliffe. Nem todas podem ter a
imaginao calma, o prosaico bom senso, a fria intrepidez de Leonor. A
marqueza da Lusacia, de que falla Victor Hugo n'um dos seus poemas,
preferia perder a soberania do seu marquezado a ir passar a noite
ssinha, como o ordenava o costume tradicional, no castello de seus
avs...

--Logo encontrou quem a acompanhasse, interrompeu Leonor ironicamente.

--E no seria s ella.

--Isaura, ouviste? acudiu Leonor rindo com tal ou qual amargura, se
quizeres passar alguma noite n'um castello legendario, como a marqueza
da Lusacia, j tens trovador que te acompanhe, ao bater da meia-noite, e
que te cante:

    Si tu veux, faisons un rve,
    Montons sur deux palefrois,
    Tu m'emmnes, je t'enlve.
    L'oiseau chante dans les bois.

Isaura sorriu-se sem comprehender bem a lucta que em torno d'ella se
travava; Henrique Osorio calou-se. Leonor, um pouco arrependida de ter
mostrado um tal ou qual azedume, voltou-se para sua me que resonava
recostada na sua poltrona, e, chamando-a, disse-lhe algumas palavras em
voz baixa, convidando-a a que lembrasse a seu pae que eram horas de pr
um termo ao _boston_. O doutor levra a mo aos labios para cumprimir um
bocejo, e Lucio Valena, sorrindo-se, contemplava a esplendida formosura
de Isaura, e sses olhos que Deus fizera to formosos, e que no
reflectiam comtudo seno as preoccupaes pueris da mulher da moda, e da
lisbonense frivola.

No meio d'este silencio ouviu-se o vento bramir com mais fora, para
depois gemer com mais tristeza, parecendo que se estabelecia um dialogo
entre os espiritos atmosphericos, e que aos rugidos ameaadores de um
demonio respondiam as queixas plangentes de um ente fraco e debil.

De subito ouviu-se ao longe, ao longe, vibrar uma badalada no sino de S.
Martinho de Alpedrinha.

O vento soprava d'aquelle lado, e trazia nas suas azas as lugubres
vibraes do bronze.

Ouviu-se em profundo silencio uma, duas, tres... doze badaladas.

--Meia-noite! disse naturalmente o doutor, quebrando o silencio em que
todos estavam, porque todos tinham estado contando as horas.

Mas a voz do doutor tambem tomra involuntariamente como que uma
sinistra entoao.

D. Isaura soltou um grito.

--Jesus! disse ella.

--Que tem, minha senhora? perguntou Henrique sollicito e afflicto.

--Meu Deus! exclamou Isaura,  que me aterraram com as suas loucas
historias,  que me puzeram n'um estado incrivel de sobre-excitao
nervosa. Meia-noite! v? Meia-noite  a hora dos phantasmas,  a hora
das apparies! E esta sala  to lugubre, e este silencio  to
agoireiro!

--Minha senhora, exclamou o doutor Macedo alegremente, v. ex.^a suppe
por acaso que ns sejamos phantasmas, e que estejamos quasi a
dissipar-nos em fumo como quaesquer entes mal-creados do mundo
sobrenatural? V. ex.^a est no meio d'um batalho de gente viva capaz de
affrontar dois subterraneos de Anna Radcliffe, tres conventos de Lewis,
reforados ainda pelos mil e um phantasmas de Alexandre Dumas.

--Oh! tornou Isaura toda tremula, mas  que a meia-noite soou de um modo
to lugubre... E ns a esta hora ainda a p...

--V. ex.^a deita-se mais cedo em Lisboa? perguntou o doutor.

--No, mas...

--Mas  que a meia-noite s aterra os que lhe do mportancia.  uma
hora covarde e manhosa, que, se v a alegria do baile, as salas
illuminadas, as danas caprichosas e revoluteadoras, entra pacatamente
como outra hora qualquer, at com mais risos e mais alegrias, accendendo
mais o fogo das walsas, cumprimentando para todos os lados amavelmente.
Se v o estudioso debruado sobre os livros, indifferente e sereno,
entra timidamente, nos bicos dos ps, e abafa at as suas proprias
vibraes; se encontra n'um sero de familia a conversao alegre, o
bule de ch em cima da mesa, as cartas do _boston_ para um lado, um
livro para outro, bate  porta discretamente, e annuncia que  tempo de
se recolher cada qual para o seu leito. Ora agora, se encontra gente que
espera com susto, que est prompta a desmaiar apenas ouvir a primeira
badalada que a annuncia, ento eil-a que toma uns ares pavorosos,
engrossa a voz, faz entrada solemne, espalha em torno de si o terror e o
assombro. Fra com semelhante fanfarro!  necessario darmos-lhe uma
lio mestra! Peo a palavra para um requerimento.

--Hein? disse l da mesa do jogo o visconde da Fragosa, que aspirava 
deputao.

--Est concedida, visconde? disse o doutor, rindo.

--Mas que diz voc? tornou o visconde muito espantado dos risos com que
os interlocutores do Macedo acolhiam a sua ida.

--Bem! Passo adiante. Requeiro que para todos os effeitos seja abolida a
meia-noite.

--Approvado por unanimidade e mais um que  o visconde, tornou, rindo,
Lucio Valena. Agora queira o sr. deputado apresentar uma proposta
indicando o modo pratico de se levar a effeito essa medida importante.

--Proponho, tornou o doutor com gravidade comica, que de manh em
diante affrontemos a meia-noite rosto a rosto, e lhe toramos o pescoo.

--Mas o meio? o meio? o meio pratico? bradaram Lucio e Leonor.

--O meio  o seguinte: O mau tempo ameaa prolongar-se, e ns ou no
podemos caar, ou no podemos prolongar a caa por todo o dia, sob pena
de estoirarmos ahi de frio por essa serra. Portanto  noite estamos
frescos e descanados, e podemos protrahir o sero. Proponho que
organisemos um _Decameron_ para zombarmos da meia-noite, como os
narradores de Bocaccio zombaram da peste de Florena. Cada um de ns,
que se sentir para isso com foras, se compromette a compr uma historia
phantastica, uma lenda, um conto maravilhoso que ser lido aqui ao bater
da meia-noite. D'essa frma affrontamos face a face a terrivel inimiga
do repouso da sr.^a D. Isaura, e, se ella ainda ousar fazer uso dos seus
sortilegios, comnosco se ha de haver!

--Apoiado! apoiado! bradaram todos menos D. Isaura, que soltou um grito,
exclamando:

--Isso  horrivel!

--No, minha senhora,  uma receita,  um remedio heroico,  um banho
russo. Vou-lhe combater os seus nervos.

--Mate-me, doutor!

--Qual historia, minha senhora! Mato a meia-noite! Ver como depressa a
moda acceita a minha ida. D'aqui a pouco tempo no se falla em Lisboa
n'outra coisa, e a _lenda da meia-noite_ ser o anti-espasmodico mais
empregado.

A ida de que effectivamente em Lisboa d'ahi a pouco tempo se no
fallaria n'outra coisa foi o que decidiu D. Isaura. Ao mesmo tempo
terminra a partida do voltarete, e um dos jogadores, homem j de
cabellos grisalhos, vivo, espirituoso, illustrado, que no tempo do
romantismo commettera alguns peccados litterarios, exclamou alegremente:

--Acceitam-me para companheiro! Eu ainda sirvo para uma montaria aos
lobos, vamos a vr se tambem presto para uma montaria  meia-noite.

-- acceito com mil vontades, sr. Roberto Soares. Eu j o conheo como
robusto campeo, e assento-lhe praa com enthusiasmo. Agora cabe-me
designar o servio. Henrique Osorio, voc  quem rompe o fogo.

Henrique inclinou-se em silencio relanceando um ardente olhar  pallida
Isaura.

--Meia-noite e meia-hora! disse o doutor tirando o relogio. Saudemos,
meus senhores, a ultima meia-noite que passa, e vamo-nos deitar. Todos
se riram, e um borborinho alegre encheu d'ahi a pouco os corredores da
habitao. Ainda por algum tempo se sentiu o rumor de portas que se
abriam e fechavam, de passos que se perdiam ao longe, de vozes que se
despediam. Depois caiu tudo em silencio, e s se pde ouvir o vento que
continuou toda a noite a gemer lugubremente as suas monotonas queixas.

       *       *       *       *       *

A previso do doutor realisou-se. O tempo continuou mau, e aggravou-se
ainda com a chuva que principiava a cair em torrentes. A noite seguinte
passou-se alegremente. Quando, porm, um relogio de parede, que fra
posto na sala, indicou onze e meia, Isaura fez-se ainda mais pallida do
que era, e houve no auditorio uns taes ou quaes signaes de commoo.

--A postos, meus senhores! exclamou o doutor alegremente. Firmeza,
companheiros! Do alto d'aquelle relogio trinta minutos vos contemplam.

Houve de novo _entrain_, risos e enthusiasmo. N'isto o sino de S.
Martinho deu a primeira badalada da meia-noite. Soava ainda mais
lugubremente do que na vespera. Solta no meio dos loucos rumores do
vendaval, a vibrao do bronze parecia uma nota perdida de agonia e de
desespero.

--Henrique! disse o doutor. Vamos! Ests um pouco pallido?  a commoo
do auctor e no a da meia-noite, juro-o aos deuses immortaes. V!
inflexo lugubre, voz cavernosa, gesto sombrio!

Henrique desenrolou um manuscripto, e, no meio da atteno geral, leu o
seguinte:

       *       *       *       *       *




JULIETA

CONTO PHANTASTICO


I


Eram onze horas da noite, e estava-se tomando ch em casa do meu amigo
Frederico B * * *, em Bemfica. Havia uma roda d'intimos; a conversa
estava animada e o meu amigo, a quem a alegria e o _entrain_ dos
convidados deixavam mais liberdade no cumprimento dos seus deveres de
dono da casa, aproveitava-se d'isso para contemplar extasiado sua linda
mulher, com quem casra havia pouco tempo, e que do seu lado lhe sorria
tambem com a meiguice e ternura da mulher que ama devras.

A conversa animra-se tanto, que se ia transformando em algazarra.

Discutia-se acaloradamente a questo da existencia das almas do outro
mundo, com grande desprazer d'um jornalista que por fora queria
conduzir ao bom caminho aquelles discutidores extraviados, propondo que
se tratasse da bondade do ministerio, deixando de parte essas tolices,
que no serviam para nada. Mas ninguem lhe prestava atteno, o que fez
com que elle desesperado fosse lr pela centesima vez um artigo seu
publicado n'um jornal que estava em cima de uma das mezas da sala. Essa
produco do seu engenho, que o jornalista relia com tanto enthusiasmo
merecia indubitavelmente to paterna sollicitude, porque elle e o
revisor da imprensa tinham sido os seus unicos leitores. Mas o auctor
tantas vezes o tinha lido, e tal admirao professava pelo seu proprio
talento, que podra dizer, sem receio de ser taxado de mentiroso--_que
o seu artigo tinha feito tal impresso, que lhe constava ter havido uma
pessoa que o relia a miudo, e sempre com enthusiasmo crescente, honra de
que se podiam gabar poucos artigos politicos da imprensa portugueza_.

--Concluamos, bradava entretanto um medico materialista por dever de
profisso, onde collocam os senhores esse agente mysterioso a que do o
nome de espirito, teimando em appellidar assim pomposamente o mechanismo
material, que a morte paralysa? Quando esse relojoeiro sombrio, que se
chama tempo, quebra com mo despiedosa as rodas complicadas do nosso
systema vital, onde se refugia esse ente inutil, esse ser impalpavel a
que os senhores espiritualistas querem dar as redeas do governo d'este
barro quebradio, que constitue o homem? E durante a vida quaes so os
laos invisiveis, que prendem o escravo ao senhor, o corpo material e
fragil  alma etherea e immortal? Tremendo absurdo, utopia talvez
respeitavel, sublime tolice pela qual se tem sacrificado innumeras
geraes! Ah! mas sobretudo,  doido devras quem imagina que essa
inveno impossivel, resultado das aspiraes da humanidade para a
existencia eterna, possa vir aos cemiterios animar os restos putrefactos
dos reis da creao; quem tal suppe, no sentiu nunca debaixo do
escalpello anatomico o cadaver inerte e despresivel, nem pde avaliar
com a vista infallivel da sciencia o nada immenso das vaidades humanas!

--Fra com o materialista, bradou um rapaz enthusiasta; sabes tu, meu
caro doutor, que a primeira vaidade humana cujo nada immenso tu devias
avaliar,  a vaidade da sciencia? Que sabes tu, presumposo Hippocrates,
que tens de recuar vencido perante o primeiro obstaculosinho, que a
natureza caprichosa queira oppr  vista infallivel, como tu dizes, do
saber dos homens? E s tu que andas perdido no meio da confuso dos
systemas medicos a procurar no labyrintho scientifico o fio conductor
que te est sempre a escapar das mos, s tu que pretendes entrar com
passo firme no insondavel labyrintho da eternidade?... Espera, continuou
elle vendo entrar um mancebo muito pallido, que foi apertar a mo de
Frederico, e comprimentar a dona da casa, queres-te convencer? Pois ahi
tens tu um homem vivo, que teve relaes directas com um phantasma.

--Roberto, assenta-te ahi, e conta-nos immediatamente a historia do teu
espectro, se v. ex.^{as} no se oppem a isso ainda assim, continuou
elle, voltando-se para as senhoras presentes, que tinham escutado a
discusso metaphysica, com ligeiros signaes de aborrecimento.

Propr a senhoras uma historia de phantasmas  despertar-lhes a
atteno,  fazer-lhes passar nas veias o estremecimento do enthusiasmo.
No sei porque, esses entes frageis, pallidos ou rosados, de olhos
negros ou azues, alegres ou melancolicos, esses entes femininos
encantadores e timidos adoram tudo o que os faz tremer, e recreiam-se
sobre tudo com essas historias terriveis, em que o leitor estupefacto
encontra um punhal ao voltar de cada pagina, um ladro  esquina de cada
periodo, um phantasma pelo menos em cada capitulo.

Por isso a parte feminina da assembla acolheu a proposta com
enthusiasmo: e a mim e aos outros homens, que estavam presentes, no
desagradou a ida de ouvir uma historia terrivel, em _petit comit_, no
pino da meia noite, tendo de voltar depois para casa por aquelles
caminhos desertos dos arredores de Lisboa; a mim sobretudo, que tinha de
passar pelas casas arruinadas de Campolide, sorria a ida de ir com a
imaginao povoada de phantasmas, que poderia distribuir  vontade pelos
recantos d'essa paisagem to magestosa, quando a lua envolve os paredes
solitarios na branca mortalha da sua luz, em quanto ao longe se desenha
sobranceiro entre os campos verdejantes o perfil grandioso do aqueducto
sombrio.

Roberto, devemos dizel-o para honra sua, no se fez rogado, comprimentou
silenciosamente a assembla, e comeou pouco mais ou menos n'estes
termos:


II


Cantava-se em Lisboa pela segunda ou terceira vez o _Baile de
mascaras_. Era uma noite de delirio no theatro de S. Carlos. Franschini,
o cantor sublime, fazia tremer de enthusiasmo a plata inteira, e a voz
portentosa de madame Lotti despenhava sobre o publico palpitante
torrentes de melodia e de sentimento. O personagem de Amelia,
interpretado como ento o foi, deixava de ser um typo creado pela
imaginao do poeta para se transformar, animado pelo Prometheo do
genio, n'um ente real, cujos sentimentos traduzidos em suspiros de
harmonia, iam arrancar os soluos dos peitos dos espectadores.

Era o poema da paixo, com todas as suas peripecias, mas da paixo
verdadeira, da paixo que geme e rasga os seios da alma, da paixo que
verte lagrimas, de cujas feridas brota o sangue, e no d'essa paixo
ficticia, cuja expresso convencional anima s a mascara, que a artista
desafivella apenas desce o panno.

Eu, perdido n'um canto da plata, escutava, como escuto sempre quando
vou ao theatro lyrico. N'isso devo confessar-lhes que tenho idas um
pouco originaes. O panno, que sbe lentamente no principio da opera,
descerra para os outros espectadores meia duzia de taboas rodeadas por
bastidores de lona, onde uns poucos de artistas vo cantar umas poucas
de arias para divertimento do publico. Para mim  como que uma janella
encantada que se abre por onde eu me arrojo para os espaos azues do
ideal. Os outros analysam com toda a paciencia a instrumentao e o
canto, investigam se foram executadas as leis do contraponto, e depois
de satisfeitos applaudem compassadamente para no rasgarem as luvas,
voltam-se bocejando, e comprimentam a senhora condessa de * * *, ou a
senhora baroneza de * * *, cuja chronica escandalosa vo contar
immediatamente ao seu visinho da esquerda.

Mas eu no. A minha alma, que illumina o fogo do enthusiasmo, no pde
ficar na terra, quando sente passar no espao o sopro da harmonia, da
casta filha do co. Desapparece o theatro, desapparecem os espectadores,
desapparece a fico. Arrastada no manto de fogo do ideal, a minha alma
sente, enleva-se, palpita, geme, pranteia, solua com Macbeth o grito do
remorso, suspira com Desdmona a cano da saudade, gorgeia com Helena o
hymno da desposada, escuta com Rosina a meiga serenata, slta com
Lucrecia o rugido da envenenadora, e volta depois  terra, deixando-me
ficar pallido, extasiado, porque entrevi em sonhos a deslumbrante
claridade de um mundo desconhecido.

Tinha comeado o segundo acto, e eu seguia cheia de um vago terror a
scena lugubre do principio. As notas da aria de Amelia soavam-me aos
ouvidos como dobres de finados, e quando a Lotti soltou aquelle grito de
pavor, que vibrava sonoro e plangente pelo theatro, fazendo estremecer
os espectadores, eu levantei-me pallido, convulso, e senti correr-me
pela raiz dos cabellos o halito de fogo de uma mysteriosa commoo.

O meu visinho olhou para mim espantado; sentei-me, deixei cahir a cabea
entre as mos, e scismei.

-- ideal, dizia eu, quando poderei finalmente sorver a longos tragos o
teu nectar precioso na cinzelada taa da phantasia?

 virgem dos meus sonhos,  anjo das azas de ouro, quando poder a
minha alma, abraando-se comtigo nas regies celestes, aspirar a plenos
pulmes a balsamica aragem da poesia?... O que s tu, ente mysterioso,
que assim bafejas o espirito dos grandes poetas, e lhes vaes murmurar,
em noites de inspirao, os segredos sublimes que o vulgo profano
admira, mas no comprehende?

Oh! quaes sero as vises d'estes homens portentosos, e nas suas noites
de febre, de delirio e de insomnia, em que mysticos amores te enlaas tu
com elles,  ideal sublime,  ideal inspirador? E emtanto ns, os
desherdados, bebemos com um riso alvar a agua insipida e lodosa dos
prazeres do mundo, e caminhamos n'esta planicie monotona da vida,
olhando com terror para o Sinai chammejante, onde campeiam, cercados da
divina aureola, os harmoniosos prophetas, os validos da inspirao!

No posso; falta-me o ar no recinto estreito da vida social; a prosa
d'este mundo opprime-me o corao. A minha alma est sequiosa de amor, e
este apparece-me sempre escoltado pelas conveniencias, trazendo sobre o
rosto formoso a mascara ridicula dos interesses materiaes, ou a mascara
odiosa do capricho sensual. Amor! amor! mas um amor como o teu,  casta
e pura Amelia, como o teu,  Julieta,  noiva gentil de Romeu e da
sepultura, quero um d'esses amores sublimes, e, se elle no se encontra
na terra, surge dos tumulos,  pallida virgem por quem eu anhelo, e
mostra-me ao menos n'um relampago as mysteriosas alegrias da
eternidade!

N'isto levantei a cabea, e os meus olhos involuntariamente fixaram-se
n'um camarote, que ficava pouco distante do logar que eu occupava na
plata. Uma senhora de belleza maravilhosa estava ssinha n'esse
camarote, e encarava-me com uma atteno extraordinaria. No sei porque
gelou-se-me o sangue nas veias, e fiquei extatico a contemplar aquella
esplendida formosura.

Raras vezes tenho encontrado um rosto assim! A correco das linhas, a
pureza dos contornos, a magestade do perfil deixavam na sombra os mais
perfeitos modelos da antiga estatuaria. Praxteles quebraria desesperado
as estatuas e o cinzel, se lhe fosse dado contemplar as inflexes
suaves, a perfeio das frmas d'aquella viva esculptura.

Se algum defeito se lhe poderia notar, era a rigidez marmorea da
physionomia. Via-se que nem tristezas nem alegrias seriam capazes de
alterar a regularidade do semblante, que s parecia ter vida nos olhos,
que eram lindos a mais no ser, e d'onde emanavam raios magneticos e
deslumbrantes, que enlouqueciam quem se atrevesse a encaral-os. Aquelle
rosto assemelhava-se a uma urna de marmore, em cima da qual se tivesse
collocado uma lampada de luz fascinadora. Era um fragmento de glo
dourado levemente pelos reflexos de um vulco, mas essa physionomia
tinha um no sei que de mysterioso e sombrio, que me impressionou
profundamente.

Olhei para o relogio. Os ponteiros marcavam no mostrador meia-noite em
ponto.

No theatro os conjurados cantavam o cro das gargalhadas, e repetiam
rindo o estribilho:

    Ah! ch baccano-sul caso strano
    Andr dimani per la citt!


III


Sem poder explicar a mim mesmo a fascinao irresistivel, que me
impellia to imperiosamente  contemplao d'aquelle formoso semblante,
nunca mais desviei a vista do camarote. E ella, oh! ella olhava-me com
uma meiguice de enlouquecer.

Estava toda vestida de negro, e isso ainda mais contribuia para fazer
realar a alvura da sua tez. Trajava elegantissimamente, mas com uma
singeleza, que me encantou, a mim, que procuro quasi sempre o bom gosto
na simplicidade.

S ella occupava o camarote! Ssinha! Quem poderia ser? To nova, to
formosa, e s! Oh! meu Deus! seria ella uma d'essas mulheres sem pudor,
que arrastam por toda a parte o manto de seda da ignominia, que foram
apanhar da lama, onde deixaram em troca o candido vo da innocencia?
Impossivel! O seu porte modesto, a simplicidade do seu trajo eram um
protesto vivo contra o descaro, e orgulhoso cynismo d'essas Messalinas
venaes.

Mas s! Quem sabe? Talvez a pessoa que a acompanhava, estivesse
escondida na sombra do camarote; talvez tivesse sado. Tudo podia ser,
mas a suspeita  que no podia manchar nem por momentos a luz serena
d'aquelle rosto angelical.

E eu olhava-a deslumbrado; e uma transformao estranha se operava em
mim. Parecia-me que as luzes do theatro iam esmorecendo a pouco e pouco
at se reduzirem  claridade sinistra das lampadas sepulchraes, o palco
e a plata confundiam-se n'um vasto cemiterio, onde o vento da noite
fazia ondular a copa dos cyprestes, por entre cujos ramos passavam os
raios da lua, da pallida scismadora, da solitaria amiga das sepulturas.

E ella, ella, a formosa desconhecida, vinha dizer-me com o seu olhar to
triste:

--Queres o meu amor,  pobre escravo d'um corpo material,  doido, que
aspiras ao infinito sem pensares que tens os ps embaraados na immunda
vasa d'esse oceano de desespero, que se chama a vida? Oh! no queiras
conhecer os segredos dos tumulos, porque tu, meu louro poeta, voltavas
ao mundo de cabellos brancos, se tocasses um s minuto com os labios na
taa inebriante dos amores da eternidade!

--Oh! que me importa a vida, respondia eu na allucinao febril, se em
troca d'esses dias de prosa me posso arrojar um instante s aos espaos
infintos das sublimes commoes! A minha alma  como a aguia, que se
arroja s regies das nuvens, affrontando a tempestade, e cae depois na
terra fulminada pelo raio, que altiva foi provocar. Que me importa a mim
a morte, a condemnao eterna, se podr sorver nos teus labios
voluptuosidades desconhecidas, e lr nos teus olhos o poema sublime do
amor, que eu phantasio?

A viso desapparecia; mas no palco a voz seductora d'Oscar, o elegante
pagem, vinha murmurar-me aos ouvidos:

    Pieno d'amor
    Mi balza il cor;
    Ma pur discreto
    Serba il segreto.

E no olhar da minha formosa desconhecida lia-se em letras de fogo a
mesma confisso inebriante:

    Pieno d'amor
    Mi balza il cor.


IV


Tinha acabado a opera. Levantei-me e sa.

Fiz um esforo sobre mim, no querendo olhar para o camarote fatal. A
pessoa que o occupra durante a noite produzira em mim uma impresso tal
que cheguei a ter medo... medo da influencia pasmosa que ella a tomando
sobre o meu pobre corao.

Oh! fatalidade! Quando cheguei ao corredor, o primeiro vulto, que passou
por diante de mim, foi o vulto elegante e nobre da gentil desconhecida.
Ia s!

Tive como que uma vertigem, quando ella, ao passar, me lanou um d'esses
olhares que endoidecem o homem de raso mais fria, que lanam no inferno
o mais virtuoso santo do paraizo.

No tive foras para luctar contra a fascinao irresistivel d'esse
olhar. Se elle tinha sobre mim a influencia magnetica do olhar de Jos
Balsamo sobre a pobre Lorenza ideada por Alexandre Dumas! Debalde a
pobre italiana se torcia desesperada debaixo d'aquelle jugo oppressor,
debalde oppunha toda a fora da sua vontade e do seu odio  tenacidade
diabolica do terrivel magnetisador, debalde resistia com todo o ardor da
sua devoo, com todo o vigor da sua alma virginal quelle poder
incomprehensivel, mas horrendamente verdadeiro; tinha de recuar diante
d'esse olhar, como diante d'uma espada chammejante, at car oppressa e
desesperada aos ps de Jos Balsamo. Ento esse corpo quebrado pela
resistencia, reclinava-se nos braos da voluptuosidade, e a voz que ia
terrivel a bradar: Odeio-te, terminava supplicante a balbuciar:
Adoro-te.

Ao vl-a, disse eu commigo mesmo: No quero, no quero ceder a esse
imperio inexplicavel. E minutos depois, surprehendia-me a seguil-a
apressadamente pelas ruas de Lisboa.

Ha occasies em que nos vmos obrigados a acreditar em foras
sobrenaturaes que nos attrahem e nos repellem,  quando a nossa vontade
se aniquila, e quando as leis da nossa organisao so violentamente
revogadas por um despotismo estranho.

Submetto esta reflexo  considerao dos illustres materialistas que me
escutam!


V


A desculpa que eu dei a mim mesmo, quando apesar de todos os meus
protestos me surprehendi a seguir a senhora de negro, foi a desculpa da
curiosidade.

Com effeito, dizia eu commigo, tirando philosophicamente baforadas de
fumo do charuto que acabra de accender no momento em que passou por
diante de mim a formosa desconhecida; o que ha mais natural? Encontro
uma linda mulher em S. Carlos, linda como poucas, e original a mais no
poder ser. Vejo-a no camarote ssinha, e torno a vl-a, sando a p, e
ainda s. No tenho nada que fazer, e por conseguinte sigo-a. 
naturalismo.

E a voz da consciencia murmurava-me ao ouvido:

-- o brilho da chamma tentadora,  doida borboleta,  o olhar
fascinador da serpente,  ave descuidosa.

--Ora adeus, respondia a voz da minha apparente philosophia, prejuizo,
superstio, fanatismo, como dizia o tenente Boutraix de um dos romances
de Carlos Nodier. Vou offerecer-lhe o meu brao.

A senhora que eu seguia caminhava lentamente a quinze passos adiante de
mim, quando muito. Passava ella ento defronte da egreja dos Martyres.
Puz o chapu ao lado com modos conquistadores, colloquei o charuto ao
canto da bocca, e accelerei o passo.

Apesar d'isso, e apesar da minha bella no alterar por frma alguma o
seu andamento, no diminuia, pelo menos sensivelmente, a distancia que
nos separava. O vulto elegante da senhora de negro, ao passar por diante
dos candieiros de gaz, revelava-se em toda a sua riqueza de frmas, em
toda a magestade do seu porte airoso. Havia uma suprema distinco no
seu modo de andar, mas apesar d'isso havia um no sei qu de mysterioso
n'aquelle mover de estatua, lento e inteiriado, que fazia uma impresso
pouco agradavel.

Chegmos assim  rua Nova do Carmo; ella voltou para baixo; eu segui-a.

A distancia conservava-se a mesma. Mas, como ia diminuindo o numero das
pessoas que caminhavam para aquelles sitios, saindo, como ns, de S.
Carlos, eu tomei uma resoluo definitiva, e comecei a dar grandes
passadas para apanhar finalmente aquella mulher que me fugia
incessantemente como esse caador das lendas do norte, que foge sempre,
sem perder um palmo de terreno, mas sem poder tambem desapparecer,  sua
matilha infernal.

Nem assim pude diminuir a distancia que me separava d'esse vulto
extraordinario.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um s echo nas ruas solitarias.

Chegmos ao Rocio. Eu comeava a estar suado. Despi, sem affrouxar o
passo, o paletot que me incommodava, e pul-o aos hombros.

Depois dei a andar com dobrada rapidez.

A senhora de negro caminhou pelo Rocio na direco do Passeio.

Chegmos ao largo de Cames.

Nem uma pollegada diminuira a distancia que mediava entre ns.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um s echo nas ruas solitarias.

Eu apertava as mos na cabea, porque sentia uma torrente de fogo a
inundar-me o cerebro, e a raso a abandonar-me.

A noite era sombria, e no estado em que estava pareceu-me sinistro
devras o aspecto d'essa massa do Passeio Publico, envolto n'um manto de
trevas.

A quinze passos adiante de mim caminhava sempre elegante e distincto o
vulto negro da minha gentil desconhecida.

Perdi a cabea e deitei a correr, litteralmente a correr, atraz d'ella.
A bulha da corrida produzia um som lugubre, e fazia-me estremecer de vez
em quando. O suor escorria-me em fio pela cara abaixo.

Saimos da rua Oriental do Passeio, entrmos na calada do Salitre,
chegmos  esquina da travessa do Moreira, e eu no conquistra um palmo
de terreno.

E o vulto parecia escorregar magestoso e sombrio, sem que a bulha dos
seus passos acordasse um s echo nas ruas solitarias.

Quando ali chegmos, a desconhecida entrou resolutamente na travessa, e
eu parei. Sentia o corao palpitar-me com violencia, e... tive medo,
confesso o.

Era to extraordinario o que me estava succedendo, que este sentimento,
devem confessal-o, era um pouco desculpavel.

Comtudo venci a timidez passageira, e entrei resolutamente n'essa rua
to deserta.

Quando a minha desconhecida chegou ao p de uma casa isolada no meio da
travessa, parou, voltou-se para mim, e bradou com uma voz
melodiosissima:

--manh  meia-noite, debaixo d'esta janella.

Eu estaquei attonito de surpreza.


VI


Descrever-lhes a lucta que se travou no meu espirito, quando voltando
para casa me fui sentar  mesa de trabalho, e comecei a reflectir fria e
pausadamente na aventura nocturna, seria contar-lhes a historia longa e
fastidiosa do combate da raso com as minhas tendencias para o
sobrenatural.

Dir-lhes-hei, resumindo, que sem attender a outra coisa que no fosse a
seduco inexplicavel, que me attraa para esse ente incomprehensivel,
fui no dia seguinte  meia-noite ao _rendez-vous_ aprazado.

Soava no sei em que relogio a ultima badalada da meia-noite, quando se
abriu a janella, e appareceu ante os meus olhos deslumbrados o formoso
rosto da gentil desconhecida.

Balbuciei phrases sem sentido, mas a lingua pegou-se-me ao co da bocca,
e no pude dizer uma palavra que se entendesse.

--Porque me seguiu hontem? perguntou ella com uma voz melodiosa e
triste, como o gemer da brisa nos cyprestes.

--Porque a amo.

--Sabe quem eu sou?

--Que me importa! Quem vae perguntar ao anjo que nos afaga em sonho o
nome com que o distinguem nas phalanges celestiaes?

--E ama-me?

--Mais do que a vida!

--S?!

Que poder incrivel tinha aquella mulher sobre mim? No sei; sei que lhe
respondi com o olhar inflammado:

--Mais do que Deus!

--No estranha o mysterio em que me envolvo?

--No sei. Este amor  uma paixo fatal. Virgem ou devassa, candida ou
profanada, anjo ou demonio, amo-a cegamente, sem me importar com o
passado nem com o futuro, desejando s ter o presente meu, s meu. Este
amor  para mim um vinho que embriaga, e se no fundo da taa encontrar
veneno, que importa? morrerei abenoando as horas da embriaguez. Isto 
uma loucura, bem sei, mas se podesse conhecer a atonia moral em que o
meu espirito tem existido! Se soubesse como eu anhelo por estas
commoes extraordinarias, que devoram n'um minuto a existencia de um
homem! J v quo pouco exigente eu sou; no me negue um raio d'essa
aureola d'amor que lhe circunda a fronte. Essa luz tenuissima
transformal-a-hei em chamma esplendida, que ha de illuminar as trevas do
meu viver prosaico.

--Acceito o seu amor, se essas palavras no o exagaram. No queira
penetrar no mysterio que me envolve. Quando fr necessario, eu mesma o
rasgarei, e confie em mim, ha de encontrar-me digna do seu amor.
Entretanto creia e espere. Adeus.

--J?

--No me posso demorar nem um minuto.

--Oh! mas diga-me uma palavra consoladora. Este amor immenso no
encontrou echo no seu corao?

--Amo-o.

--Mas com um amor semelhante ao meu, inebriante, immenso?

--Immenso... como a eternidade.

E fechou a janella, deixando-me ficar extatico e cada vez mais espantado
da estranheza dos seus modos.


VII


Assim continuou todas as noites aquelle amor excentrico. Todas as noites
eu tomava a firme resoluo de no tornar l, e sempre as badaladas da
meia-noite me surprehendiam na travessa do Moreira, por baixo da janella
fatal.

No tempo em que me succedeu esta aventura, tratavam meus paes do meu
casamento com uma menina rica, que no desgostava de mim, e por quem eu,
no sentindo amor, no sentia tambem antipathia.

Era ella uma menina capaz de inspirar uma affeio fraternal, mas nunca
uma paixo a um espirito arrebatado como este meu.

Era bonita, mas um typo vulgar, horrivelmente vulgar. A pobre menina no
tinha culpa d'isso. Demais a mais era o que se podia chamar um acerto:
dote soffrivel, excellentes qualidades de mulher e de dona de casa.

Creio que juntava a isso tudo o fazer marmelada perfeitamente. No sendo
muito guloso, no era eu o mais proprio para poder apreciar dignamente
esta prenda, que a distinguia.

Nunca mais appareci em casa d'ella, desde a noite de S. Carlos. Um dia
passei occasionalmente por l, e vi-a com os olhos vermelhos de chorar.
Comprimentei-a, ella correspondeu me tristemente, e retirou-se da
janella.

--Ora adeus, disse eu comigo mesmo, foi deitar assucar nos marmelos.
Talvez ali esteja um corao! accrescentei eu no monologo mental. No
creio, continuei, o corao desarranja as cassarolas, e incommoda-a no
varrer da casa.

Foram estas idas falsas que me perderam, meus senhores; idas d'um
espirito extravagante que procurou sempre em regies inaccessiveis a
felicidade, que nunca pude encontrar, e que talvez caminhasse ao meu
lado sem eu dar por isso.

O meu espirito talvez fosse como o Rouvire de uma comedia de Feuillet,
que, depois de ter percorrido o mundo em todos os sentidos, fica
espantado de encontrar a felicidade sentada ao canto da lareira de uma
familia burgueza n'uma aldeola do seu paiz natal.


VIII


Chamava-se Julieta a heroina do meu romance de amor. At o nome era de
fazer enlouquecer um enthusiasta como eu.

Essa aureola de poesia e de encanto com que Shakespeare circumdou a
fronte da pallida italiana, parecia atravez das edades vir doirar com um
reflexo luminoso a fronte gentil da Julieta, que eu adorava.

Foi a unica informao a seu respeito que d'ella obtive. Tudo o mais
ficava para mim envolvido n'um mysterio que eu no tentava penetrar.

Uma noite a nossa conversao foi tomando a pouco e pouco um caracter
mais ardente e languido. Palavras de amor entrecortadas, suspiros
involuntarios vindo interromper o dialogo, longos silencios durante os
quaes eu sentia o palpitar apressado do meu corao, em quanto via a
imagem seductora de Julieta desenhar-se na janella illuminada
caprichosamente pelo fulgor da lua, tudo isto despertava em mim uma
voluptuosidade deliciosa, mas que me magoava.

Uma vez, em quanto ella ficava perdida n'essa vaga contemplao da lua e
da noite perfumada, eu involuntariamente approximei-me da parede da
casa, e ajudando-me com as grades da janella do pavimento das lojas,
pude trepar at ao parapeito da janella, e de repente, sem que ella
parecesse reparar na ousadia do meu procedimento, imprimi-lhe nos labios
um beijo de fogo.

Os labios d'ella estavam frios como os de uma estatua.

Olhou para mim com olhar meigo e recuou.

Entrei no quarto e cahi-lhe aos ps, balbuciando:

--Julieta, amo-te!

E cobri-lhe as mos de beijos devoradores.

Ella olhava para mim com uma expresso indefinivel. No podia dizer se
era ternura, se ardor, se frieza, o que esse olhar continha; sei smente
que quanto mais ella me encarava, mais eu me sentia enlouquecer.

--Vem, meu amante, murmurou Julieta passando-me o brao  roda do
pescoo, e arrastando-me com meiguice para uma porta entre-aberta, vem!
sobre o lilaz florido do meu jardim embalsamado descanta o rouxinol as
suas trovas de amores!  tudo mysterio n'esta hora encantadora! Vem!

Abriu-se a porta e ns entramos n'um jardim esplendido.


IX


Era na hora mysteriosa em que das urnas das flres se expandem na
atmosphera thesouros de aroma e de languidez, e em que o homem absorto
julga escutar vagamente na esplendida immensidade a longiqua harmonia
das espheras.

Na hora em que o rouxinol espalha sobre a terra as perolas do seu canto,
e em que a natureza escuta embevecida o hymno mavioso do seu interprete
sublime.

Porque n'essa hora dormem as paixes terrenas, e o mundo parece
envolver-se por momentos no manto da sua virgindade, afim que Deus possa
reconhecer a sua feitura, desfigurada pelo agitar convulso do verme
pretencioso que se chama o homem.

E o Omnipotente immovel no throno da sua grandeza, rev-se silencioso no
espelho da Creao.

Oh! como a lua desenrola graciosamente o seu manto luminoso sobre as
alamedas desertas do esplendido jardim! Como os seus raios se baloiam
mollemente no bero fluctuante da folhagem! Como se miram descuidosos no
crystal das fontes!

E as estatuas primorosas dos deuses do paganismo, parecem espreitar
complacentes os mysterios da voluptuosidade que se vo abrigar nos
caramanches floridos! E emtanto as acacias que lhes assombreiam os
vultos immoveis, inundam com a chuva perfumada das flres vermelhas as
pregas ondeantes da sua roupagem marmorea!

E eu e Julieta caminhavamos silenciosos por entre os alegretes, e a voz
do rouxinol da balseira despertava no meu corao um rouxinol
desconhecido que me fallava de amor e de ternura.

Inclinei-me para ella e beijei-a! E parecia-me que sentia ao tocar-lhe
nos labios as azas brancas do anjo da pureza que davam quella fronte
limpida um resplendor celestial.

Por um sentimento involuntario troquei o meu annel pelo annel de
Julieta.

Julguei que Deus santificava o nosso amor, e nos contemplava com
indulgencia!


X


Mas quando ergui os olhos, erriaram-se-me os cabellos de terror, e
correu-me pelas veias um calafrio. Fugiu-me a luz dos olhos, e o sangue
refluiu ao corao.

Desappareceram os floridos canteiros, emmudeceu o rouxinol suave,
sumiram-se as estatuas, fugiram as acacias.

Estendem-se a perder de vista as ruas sombrias de um cemiterio, de um
lado e de outro avultam as pedras brancas das sepulturas.

O vento da noite faz ondear os cyprestes funerarios, e o pallido claro
da lua vem beijar melancolico as cruzes tumulares.

O grito sinistro do mocho s de vez em quando perturba a paz dos mortos;
por entre a relva dos sepulchros fulgura a lugubre phosphorescencia dos
cemiterios.

 tudo silencio em roda, mas ao longe comea a sentir-se um vago rumor,
que parece o longiquo ruido de um exercito marchando.

E uma aragem de terror parece esvoaar por entre os tumulos, dando vida
s loisas e voz ao cyprestal.

Lugubres clares abraam as cruzes das campas, e as figuras de pedra que
guardam, sentinellas inanimadas, o somno dos finados, agitam-se
convulsamente ao sopro de fogo d'aquella procella desconhecida.

A sineta da ermida vibrou no meio do silencio; tres vezes echoou na
immensidade aquelle som terrivel.

E eu senti os cabellos erriarem-se-me, e um suor gelado me inundava a
testa.

Ento um cro de vozes cavas e profundas entoou lugubremente o _Dies
irae_, o hymno da colera de Deus.

E logo uma longa procisso de phantasmas brancos comeou a desfilar por
diante de mim n'um silencio aterrador.

Depois deram-se as mos e formaram em torno de mim uma dana de
espectros.

E eu sentia os cabellos erriarem-se-me, e um suor gelado me inundava a
testa.

Depois um dos vultos brancos destacou-se do grupo e avanou para mim.

E eu quiz recuar, mas os ps estavam pregados no terreno, e uma fora
invencivel me domava.

O passo do phantasma no produzia ruido algum, mas eu sentia-o vibrar no
fundo do corao.

Vinha envolto no longo manto sepulchral, e ornava-lhe a fronte a
grinalda virginal das rosas brancas.

Reconheci as pallidas feies de Julieta, da minha noiva de ha pouco.

--Vae consumar-se o lugubre noivado, disse-me ella sorrindo; vem, meu
pallido amante, vem inebriar-te com as mysticas voluptuosidades das
sepulturas.

O mocho cantar o nosso epithalamio, e no cruzeiro do cemiterio sero as
danas dos finados o nosso baile nupcial.

Olha para a mysteriosa alcova, como nos sorri de dentro da loisa
entreaberta a alva mortalha do nosso leito de noivado!

E eu olhei e vi abrir-se a garganta pavorosa de um sepulchro, e senti
que a mo de Julieta me arrastava invencivelmente.

Echoavam nas lugubres alamedas as gargalhadas dos finados, o mocho
soltava o seu grito funebre, e a lua entornava sobre as campas a sua luz
to pallida.

E eu senti os cabellos erriarem-se-me de terror, e um suor gelado me
inundava a testa.

No pude resistir, passou-me uma nuvem de sangue por diante dos olhos e
cahi desmaiado!


XI


Roberto parou um momento como se se sentisse opprimir pela recordao
terrivel d'essa noite.

--Pouco mais lhes posso dizer, meus senhores, sei apenas que no dia
seguinte acordei no meu leito, e que estive sriamente doente. Apenas me
restabeleci corri  travessa do Moreira.

Da casa de Julieta nem signaes! Tudo desapparecera.

Julguei que fra victima de uma allucinao, mas ainda hoje se me
representam tanto ao vivo as scenas, a que assisti, que no posso
admittir a possibilidade d'essa hypothese.

D'ahi por diante nunca mais tive felicidade! Em pouco tempo gosei e
padeci muito. As fibras da minha alma sujeitas a uma fortissima tenso
quebraram-se, e hoje vivo n'uma incrivel atonia.

A senhora, com quem minha familia me queria vr casado, desposou um
homem menos imaginoso do que eu, que a estremece, e a quem ella estima.
Tem dois filhos, que so a alegria da casa e o enlevo dos paes.

A minha imaginao desregrada deixou-me isolado no mundo.

Roberto calou-se. Todos ns ficamos silenciosos, impressionados por essa
lugubre historia. Mas Frederico abraando sua mulher, e dando-lhe um
beijo na testa, disse para Roberto:

--As aspiraes da alma tm um limite, que no podem ultrapassar. No co
da felicidade ha espheras inaccessiveis onde a natureza humana desmaia,
prostrada pela vertigem. Na familia, meu amigo, resume-se a suprema
ventura.  prosaica unicamente para os que a no comprehendem. N'esses
amores ideaes chega o homem a pontos, em que para me servir das phrases
do sceptico Musset:

    O le vertige prend, o l'air devient le feu,
    Et l'homme doit mourir o commence le Dieu.

       *       *       *       *       *

Quando Henrique Osorio acabou de lr o seu improvisado romance,
applaudiram-n'o fervorosamente os seus indulgentes ouvintes. S Isaura
bocejava de um modo notavel.

Henrique mordeu os labios um pouco raivoso, e, inclinando-se para ella,
disse-lhe ironicamente:

--A nossa ida foi soberba, minha senhora; se no cura dos terrores, que
sentem as pessoas nervosas, ao menos concilia-lhes o somno que affugenta
os phantasmas.

--Ah! no, sr. Henrique Osorio, respondeu Isaura; a sua ida acho-a cada
vez peior. Vejam se  admissivel fallar-se aqui em cemiterios  uma hora
da noite. Eu, se estou assim mais tranquilla  porque a Leonor me
prometteu que dormia no meu quarto.

-- contra os regulamentos, bradou o doutor Macedo. A sr.^a D. Isaura
est illudindo a receita.

--Meu Deus, doutor! exclamou Leonor alegremente. Os regulamentos
cumprem-se assim de um modo feroz. No v que eu vou passar a noite com
uma mulher pallida? Depois de ouvir o romance de Henrique, deve
confessar que  necessario ser-se heroina!

-- verdade, exclamou Isaura, o sr. Osorio tratou bem as pallidas! No
seu entender mulher pallida s pde ser mulher desenterrada. Muito
agradecida.

--Mas, minha senhora... balbuciou Henrique.

--Aquillo so reminiscencias de Lisboa, Isaura, exclamou Leonor, rindo.
Quiz-se vingar de alguma pallida que o magoou.

--s maldosa, Leonor, murmurou Henrique ao ouvido da sua amiga de
infancia.

-- para te ensinar a fazer declaraes mais habeis, disse-lhe Leonor
tambem ao ouvido. Isaura levantra-se para ir ter com seu pae.

--Ento o meu romance  uma declarao? tornou Henrique.

--O teu romance  uma loucura. Ests engraado com as tuas idealisaes
constantes. Queres mulheres sobre-naturaes, entes phantasticos, damas
brancas de Avenel! Se achas que  lisongeiro para uma mulher perder a
sua realidade para agradar ao homem que diz amal-a, morrer primeiro para
ser depois desposada por elle em frma espectral, como no _Noivado do
Sepulchro_, de Soares de Passos...

E a maliciosa rapariga recitou, zombeteando:

    E ao som dos pios do cantor funerio,
    E  luz da lua de sinistro alvor,
    Junto ao cruzeiro sepulchral mysterio
    Foi celebrado de infeliz amor!

--Ento, menina! exclamou Isaura, l de longe. Olha que eu no vou
ssinha para o quarto.

--Ahi vou, querida, ahi vou!

E Leonor, deitando a Henrique um olhar malicioso, foi ter com a sua
amiga.

--Ento, sr. Roberto Soares, disse o doutor Macedo emquanto pegava no
castial para se dirigir para o seu quarto, porque, n'essa noite de
temporal, nem os visinhos tinham podido recolher a suas casas; ento,
sr. Roberto Soares, a sua composio caminha? Olhe que  manh a sua
vez.

--Que lhe hei de eu fazer? C me vou apressando, tanto quanto posso.
Metti-me em boa, no ha duvida. J no estou para estas folias. O viver
da provincia enferruja. manh os rapazes vo rir-se de mim.

--Veremos isso! redarguiu Henrique Osorio, sorrindo amigavelmente. Eu
preparo uma pateada.

Roberto Soares affastou-se, rindo, e o doutor Macedo, accendendo um
charuto, disse para Henrique Osorio:

--Sabe o que lhe digo, Henrique? Voc  uma creana. Anda todo enlevado
na pallidez e nos terrores nervosos de Isaura, que  uma tola com
bonitos olhos, e no repara que ha por estas serranias uma rapariga, uma
perola, que se fina por voc.

--Por mim?! Quem me faz essa honra? exclamou Henrique, fazendo se
crado.

--Quem tem olhos para vr, veja; quem tem ouvidos para ouvir, oia; e
quem tem somno para dormir, durma; respondeu gravemente o doutor Macedo.
Boas noites.

E partiu, deixando ficar Henrique pasmado. Este demorou-se por alguns
instantes a ouvir o temporal que rugia com violencia, e a contemplar com
tristeza o sitio onde estivera sentada Isaura. Depois, soltando um
suspiro, sau da sala.

       *       *       *       *       *

Devo dizer que no dia seguinte as impresses foram muito menos profundas
que na vespera. A noite estava mais socegada; cara-se pela manh.
Estivera bonito o dia, cortado apenas por alguns chuveiros. Comtudo,
quando deu a meia-noite, correu um frmito por todos os ouvintes.
Estabeleceu-se um profundo silencio, mas a figura amavel de Roberto
Soares no era para inspirar terrores legendarios, e foi no meio de uma
atteno tranquilla, at um pouco risonha, que o jornalista aposentado
comeou a sua leitura.




A VISO DO PRECIPICIO


I


O meu romance annuncia-se de um modo terrivel. Comea por uma
tempestade. Estou obrigado moralmente a apresentar alapes,
subterraneos, e donzellas perseguidas. Se no invento por ahi uns quatro
assassinios, estou perdido no conceito de certos leitores!

Tenham paciencia os amadores das _Nodoas de sangue_ e dos _Amantes
infelizes ou as victimas de uma paixo_, mas d'esta vez ho de
contentar-se com um romance bem morigerado, cujos heroes, todos elles
pessoas honestas, no ho de incommodar, em quanto durar o enredo, nem
as partes de policia, nem os regedores de parochia, nem os jovens
advogados, nem as columnas dos jornaes destinadas pelos noticiaristas
aos acontecimentos tragicos do paiz.

Feita esta declarao, vou introduzir os meus leitores... n'um lagar de
azeite, por uma noite tempestuosa de dezembro, quando o vendaval aoita
rijamente os pinheiraes frementes, e os relampagos illuminam com pallido
fulgor as campinas inundadas pelas chuvas copiosas de uma noite de
invernia.

Recresce o temporal. As levadas de agua, engrossadas com as chuvas,
resvalam pelos penedos, despenham se, espadanam, fazem scintillar  luz
do raio doidejantes borbotes de espuma, e arrastam na carreira
vertiginosa as arvores desarreigadas pela fora irresistivel do furaco!
N'estas noites, o aspecto ridente dos campos, que a primavera orna com
todas as galas da vegetao, transforma-se completamente. Parece-nos
impossivel que o regato, que havia pouco se espreguiava voluptuosamente
sobre as campinas esmaltadas, seja agora a torrente impetuosa que
arranca, n'um accesso de furor, as arvores que se miravam descuidosas na
sua limpida corrente.

A mim agrada-me o quadro medonho das furias da invernia! Contemplo com
delicias a physionomia terrivelmente phantastica das planicies e dos
bosques, onde paira, batendo as azas chammejantes, o sinistro archanjo
da tempestade!

So estes os episodios grandiosos do poema da natureza! So estas as
paginas sublimes do livro da creao!

Era uma quinta solitaria nos arredores de Santarem; a casa dos morgados
campeiava orgulhosa e insulada no meio dos campos cultivados, e l mais
ao longe alvejavam as modestas casinhas do logarejo que se debruava
curiosamente sobre as aguas do riacho, mirando n'esse espelho
crystallino o seu humilde aspecto, e contemplando depois,  socapa as
pompas quasi feudaes do solar dos descendentes d'algum valento das
Indias.

Como os gloriosos representantes d'essa familia aristocratica, deixando
a quinta s, esto comendo em Lisboa os seus rendimentos, escusamos de
lhes bater  porta, e, se vos parece, vamos immediatamente ao lagar de
azeite, que no fica muito longe.

A entrada  franca, e a vista da fornalha, sobre a qual est collocada a
caldeira, e onde arde um mlho de lenha, produzindo um bom fogo, claro e
crepitante, tenta devras o pobre homem, que, todo ensopado, contempla o
lume da fogueira, to consolador e attrahente em noites de frio e chuva.

Entrmos em boa occasio; o lagar est em plena actividade. Os clares
indecisos da lareira illuminam um quadro pittoresco e original. Aqui o
_engenho de agua_ gira produzindo um som monotono, que, no meio dos
rugidos da tempestade, similha o resmungar de velha feiticeira por entre
os cros dos archanjos rebeldes em noite de congresso infernal, e,
girando sem cessar, tritura conscienciosamente a azeitona submettida 
sua implacavel presso. Alm as _varas_, subindo e descendo com toda a
regularidade, obrigam a azeitona, j triturada e estendida nas _ceiras_,
a distillar o seu oleo precioso. Mas no se resumem n'estes os trabalhos
do lagar. Quem reconhecer o azeite n'esse liquido negro que vae
acolher-se silenciosamente na enorme vasilha de barro, a que nos lagares
se d o nome de _tarefa_? Trata-se de o purificar; vamos s ablues. O
liquido negro  assaltado repentinamente por um diluvio de agua a
ferver, proveniente da caldeira, que opra a decomposio com toda a
rapidez. Pelo _inferno_, communicao subterranea que conduz a um vallo
distante, escoa-se a agua negra, que vae terminar ao longe a sua
existencia ignorada, e o azeite, livre finalmente da macula original,
apparece em toda a sua limpidez, em todo o seu brilho, em todo o seu
esplendor.

No centro da casa terrea, o sr. Manuel dos Reis, mestre-lagareiro, chefe
das operaes, e supremo dictador n'esta solemne occasio, vigia
attentamente as multiplicadas operaes do lagar, em quanto o sr. Joo
Moedor (assim chamado por causa das importantes funces que ali
exercia), contempla satisfeito o andamento do _engenho de agua_,
confiado aos seus cuidados.

Os adjunctos d'estes dois chefes, sentados  roda da fogueira, alguns
camponezes de fra, que tinham vindo para o cavaco, e que a tempestade
tinha accommettido, os quaes em p encostados ao cajado ficavam no
segundo plano, e dois rapazes de Lisboa a quem a cortezia alde tinha
concedido o logar de honra, eram as restantes figuras d'este quadro.

Os dois lisbonenses merecem uma descripo especial.

Chamava-se o primeiro Jos Augusto de Albuquerque. Alto e elegante,
pallido, d'esta pallidez ardente, que  quasi sempre symptoma de uma
imaginao exaltada, revelava no fulgor desusado dos olhos,
scintillantes como dois diamantes negros, o ardor d'aquella organisao
sympathica, que devia ser ou a de um grande poeta, ou a de um grande
doido, se estas duas idas no so synonymas, segundo a opinio de muita
gente. As olheiras fortemente accentuadas, e que pareciam crestadas pela
ardente irradiao das pupillas, acabavam de dar a esta physionomia um
cunho original, romantico emfim, _tranchons le mont_, porque devo
confessar que o meu heroe tem todas as apparencias de um typo de
romance, apesar de ser to verdadeiro como... o oramento portuguez.

O companheiro de Jos Augusto formava com elle um perfeito contraste. Se
as centelhas de intelligencia, que se escapavam dos olhos negros de Jos
Augusto, revelavam uma organisao em que o espirito predominava, em que
_l'me_ dominava _la bte_, para me servir da classificao de Xavier de
Maistre, a luz fria e sem expresso, que brilhava nos olhos azues do seu
companheiro, dava a conhecer a beatifica indifferena do adorador da
materia. N'um a estatua delicada e quasi feminil denunciava a fina
constituio de uma natureza naturalmente aristocratica; no outro a
obesidade das frmas dava ida do Sancho Pana de Cervantes, ainda que a
alta estatura mostrasse que esta nova edio do governador da Barataria
era feita n'outro formato. N'aquelle os movimentos altivos da cabea, o
modo enthusiastico com que atirava para traz as ondas lustrosas da sua
negra cabelleira, indicavam bem as aspiraes elevadas de um corao a
trasbordar de poesia e de generosidade; n'este os gestos pacatos, e as
suissas loiras que flanqueavam serenamente uma cara de lua cheia,
mostravam o genio bonacheiro do homem que no pensa seno no modo de
conservar sempre, em bom estado, a sua economia animal, satisfazendo as
reclamaes incessantes de um estomago insaciavel.

O primeiro era, como disse, Jos Augusto de Albuquerque, rapaz com
alguns vintens, que viajava para se divertir. O segundo era o sr. John
Williams, inglez ingenuo e bem morigerado, que aguentava uma boa dse de
garrafas de vinho sem vacillar, que bebia exactamente o que ganhava n'um
escriptorio de negociante, e que, apaixonado por viagens, como todo o
bom inglez deve ser, tinha pedido licena de um mez para acompanhar o
seu amigo Jos Augusto n'uma excurso  Extremadura.

No momento em que entrmos, reinava um profundo silencio. L fra os
rios, que a chuva fazia ferver em cacho, resaltavam sobre os rochedos
com um estampido formidavel; as rajadas da ventania, batendo com furor
de encontro  porta, faziam-n'a ranger, e abriam-n'a de vez em quando,
arrojando torrentes de chuva para dentro do lagar. A voz da procella ora
se assimilhava aos rugidos blasphemos do anjo das trevas, ora, plangente
e soturna, imitava os gemidos das almas penadas, que vagueiam na terra
pedindo aos vivos oraes. O trovo, ribombando no espao, dominava, de
vez em quando, com a sua voz magestosa, o pavoroso ruido da tempestade.

Havia harmonias sublimes n'aquella desharmonia apparente; era selvatica
mas grandiosa a immensa orchestra do temporal.

--Santa Barbara nos acuda, murmurou devotamente o sr. Manuel dos Reis,
tirando o seu barrete azul, j bastante azeitado, no momento em que um
trovo formidavel fazia benzer todos os circumstantes--S. Jeronymo te
afaste, ruim trovoada, de todo o povoado onde haja almas christs.

--Amen, resmungou em cro a companha alde.

--E temos a chuva pegada, que no ha que esperar seno uma noite de
agua. O vento puxa por ella que  um regalo, tornou o mestre-lagareiro,
quando o terror produzido pelo trovo se dissipou um pouco mais. Ah! meu
fidalgo, v. s.^a querer metter-se a caminho por uma noite d'estas 
mesmo tentar a Deus!

--Deixal-o, tornou o interpellado, que era o nosso amigo Jos Augusto de
Albuquerque, sabe voc, sr. Manuel dos Reis, que eu gsto de noites
assim? Que diabo! quando atravesso a galope a clareira de um bosque
inundado pela chuva, e que vejo,  luz do relampago, as arvores nuas de
folhas estenderem-me os braos descarnados, e formarem em torno de mim,
guiadas pelo furaco, danas phantasticas e extravagantes, imagino vr
as danas da meia-noite, travadas pelos espectros nos cruzeiros dos
cemiterios, e, lembrando-me dos contos lindissimos que a minha ama me
contava quando eu era pequeno, chego a acreditar na sua realidade, e
acho prazer n'aquillo. Ento que quer?

--Arreda!--bradou o Joo Moedor, coando a cabea e fazendo ao mesmo
tempo um gesto de susto, sempre v. ex.^a diz coisas que fazem arripiar
os cabellos  gente. Gostar v. s.^a de vr danar as aventesmas as suas
danas malditas, como o meu compadre viu com os seus proprios olhos na
noite de S. Bartholomeu, em que anda o diabo solto, como vocemec ha de
saber. Safa! Era capaz de seguir o phantasma do Aude at ao seu
esconderijo infernal.

--O phantasma do Aude! O que  isso, o que  isso,  sr.
Joo?--perguntou Jos Augusto com a maior curiosidade.

--Historias da vida, meu fidalgo, retrocou o sr. Manuel dos Reis,  este
diabo do Joo Moedor que no sabe fazer outra coisa seno contar contos
da carochinha. Bom estavas tu, meu rapaz, para mestre-lagareiro! Andas
com a cabea a raso de juros a pensar l n'essas _maniversias_,
deixavas ir o azeite pelo _inferno_ abaixo, e nunca eras capaz de pr o
_espicho_ a tempo e a horas. Sempre ests um massador!

--E  verdade, sr Manuel dos Reis. Este Joo Moedor no faz seno moer
a paciencia  gente, tornou um camponez que estava ao p da porta,
encostado com toda a denguice ao seu varapau.

Todos se riram do _calembourg_ aldeo, e o sr. Joo Moedor esteve algum
tempo sem poder fallar no meio dos motejos e das risadas da turba
campesina. Finalmente:

--Leva rumor!--bradou elle. Com que ento, s Z do Moinho, acha voc
que eu mo a paciencia  gente, hein! Voc no acredita n'estas coisas,
apesar de eu ter visto muita vez sua tia andar por cima da folha, e
correr por cima das latadas para ir ter com seu compadre _Berzabum_! E
ainda no estou muito certo se no  voc, s cara de no sei que diga,
que anda a horas mortas a cumprir o seu fado, feito burro, por esse
mundo de Christo, como fazia seu av que foi lobis-homem, segundo diz a
gente antiga c da terra.

A victoria ficou d'esta vez ao novo campeador. Os motejos dirigiram-se
todos para o sr. Z do Moinho, que quiz replicar enfurecido, mas que se
viu obrigado a metter a viola no sacco, e a ficar de cabea baixa a um
canto. O triumphador havia pouco era agora humilhado. _Sic transit
gloria mundi_!

--Conte l a historia,  sr. Joo, que aqui tem voc um ouvinte que no
 capaz de duvidar da veracidade das suas palavras--tornou Jos Augusto
com a curiosidade a revelar-se-lhe nas feies.

--Tem v. s.^a muita raso, meu fidalgo, retrocou o Joo Moedor com modos
de triumpho, e com perdo de vocemec, sr Manuel dos Reis, sempre lhe
direi que a historia do phantasma do Aude no  conto da carochinha. Em
noites assim de temporal, quando o rio engrossado pela cheia, ceifa os
pinheiros mais taludos como eu ceifaria uma espiga de trigo no tempo da
monda, no  c o rapaz que se atreve a passar ao p do Aude, sem se
benzer quatro vezes, e sem fechar os olhos para no vr a melancolica D.
Branca. E no  s a mim que isso acontece; o mais pimpo do sitio
tremia, como varas verdes, se se visse obrigado a passar a estas horas
por aquelle sitio amaldioado, a no ser o _Come-bichos_, que vendeu a
alma ao diabo. Deus me perde se minto; mas o maldito tem mesmo cara de
condemnado. E conheo eu alguns que se fazem muito valentes quando esto
bem acompanhados, e que no eram capazes de passar ssinhos por ao p do
Aude, nem que lhes dessem todos os thesouros encantados do imperador da
Moirama.

Esta ultima alluso ia evidentemente com sobre-escripto para o Z do
Moinho; a resposta d'este (se por acaso elle tencionava responder), foi
abafada pelas acclamaes dos restantes, que applaudiram o orador,
bradando em cro:

--Tem raso!  uma heresia duvidar d'estas coisas! O Joo fallou bem.
Tem uma linguinha de oiro, este moedor!

O distincto orador comprimentou modestamente os seus amigos politicos
pela ovao que fizeram ao seu estiradissimo discurso, e que impacientou
apenas o Z do Moinho, que era da opposio, Jos Augusto de
Albuquerque, que estava desejoso de conhecer a lenda, e o leitor, que
talvez nem esteja para a ouvir.

--Vamos  historia, vamos  historia, bradou Jos Augusto, todos lhe
prestamos atteno, e acreditamos em tudo quanto voc disser, como os
mahometanos na misso do seu propheta.

Ninguem comprehendeu a comparao: por conseguinte todos ficaram fazendo
uma elevadissima ida da erudio de Jos Augusto. Joo Moedor piscou os
olhos, e bradou com enthusiasmo:

--Fallou que nem um livro. Pois ento j que tanto aperta, l vae a
historia.

Todos se chegaram uns para os outros, e Joo Moedor comeou no meio de
um silencio solemne a sua narrao.

Chegado a este ponto, Roberto Soares interrompeu-se, e, levantando os
oculos, disse para os seus ouvintes:

--No me responsabiliso pela verdade do modo de dizer. Jos Augusto, que
tinha o desagradavel sestro de fazer estylo, quando me contou a
historia, transfigurou completamente a expresso do narrador da aldeia.
Comtudo asseverava-me elle que o estylo do camponez tinha uma certa
elevao.

--Siga, siga, acudiu o doutor Macedo. Jos Augusto  o seu Jedediah
Cleishbotham, j vmos. Era moda no seu tempo, como as epigraphes.

Roberto Soares riu-se e continuou da seguinte maneira:

Ha de haver um par de annos, muito antes do terremoto, e talvez antes
que tivessem nascido os paes dos nossos bisavs, governavam os moiros a
maior parte da nossa terra abenoada. Segundo eu ouvi contar ao nosso
padre prior, que Deus haja, dava-se e recebia-se muita lanada antes que
a bandeira de Christo fluctuasse triumphante nas ameias das fortalezas.
Cada palmo de terra conquistado aos ces dos sarracenos era regado por
muito sangue, e muitos cadaveres dos nossos antepassados adubaram a
terra, antes que os seus descendentes podessem fazer em paz a semeadura
e a colheita. Era mau tempo aquelle. Mas Deus e Santiago eram por ns, e
os esquadres cerrados dos cavalleiros de Christo levaram sempre de
vencida as hostes aguerridas dos perros amaldioados.

Como dizia o padre prior, os pergaminhos d'esses fidalgos, que por ahi
andam to orgulhosos da sua inutilidade, foram sellados com o sangue de
seus antepassados nos campos de batalha, em que se comprou bem cara a
independencia portugueza. Deshonrado seria para todo o sempre o fidalgo
portuguez que no envergasse as armas ao sair da infancia, e no
luctasse incessante a favor dos opprimidos at cair no campo da batalha
amortalhado na sua armadura de ferro. Repousem em paz nas campas os
ossos d'esses valentes.

--O Joo Moedor sempre tem uma cachimonia de truz, resmungou  parte o
Manuel dos Reis; onde elle vae buscar tudo isto!

--O que elle ,  um papagaio, murmurou o Z do Moinho, no faz mais do
que repetir tim tim por tim tim o que ouviu ao nosso antigo padre prior.

--N'esse tempo, continuou o Joo Moedor sem reparar na interrupo,
viviam aqui n'este sitio dois fidalgos velhos, que, depois de terem
ganho muitas cicatrizes, e creado muitos cabellos brancos no seu luctar
incessante contra o poder da Moirama, tinham vindo descanar na paz dos
seus castellos das lides gloriosas em que haviam dispendido a sua
existencia inteira. No porque lhes faltassem valor e bons desejos; mas
a edade tudo gasta, e os corpos alquebrados dos bons cavalleiros j
vergavam ao peso da armadura, e a voz implacavel da velhice advertiu-os
que cedessem o logar a novos e mais vigorosos campees. Penduraram na
sala de armas dos seus castellos as valentes espadas, e, sentados ao
canto da lareira, esqueciam o peso dos annos com as gratas recordaes
das suas faanhas d'outr'ora.

Ao mais velho dos dois; Inigo Paes, concedra o co um filho; Raymundo
se chamava elle. Era a delicia do bom velho rever no esbelto mancebo a
risonha imagem da sua mocidade. Vendo-o crescer em annos, em vigor e em
destreza, consolava-se o valente cavalleiro, esperando que Raymundo no
deshonraria, nas fileiras portuguezas, o nome venerando que elle proprio
tinha conquistado. Esperava com anciedade que seu filho completasse os
dezoito annos para lhe cingir a espada, afivellar-lhe o arnez, e
dizer-lhe, apontando lhe o campo da batalha: Vae,  esse o caminho da
gloria

E tinha raso em se gloriar de ter um filho assim. Ninguem meneava com
mais garbo e destreza um cavallo fogoso, ninguem manejava com mais vigor
o pesado montante, ninguem mostrava mais ardor guerreiro, quando o pae,
sentado no salo do castello, contava aos rapazes, anciosos de
aventuras, os feitos de armas dos velhos campeadores. E se Raymundo dava
esperanas de ser um rude lidador, nem por isso deixava de ser o mais
gentil mancebo d'estas cercanias. Alto e elegante, se os seus olhos
negros quizessem fallar de amor, no havia dama que se no rendesse, nem
corao feminino que escutasse insensivel os seus protestos enamorados.
Mais de uma altiva castell apparecia na varanda do seu solar para vr o
elegante Raymundo correr a cavallo por essas campinas. Mas que
importavam ao filho de Inigo Paes todas as castells do mundo se tinha o
corao j preso, e se Branca, a ingenua Branca, lhe conquistra o
affecto, e accendera nos seus olhos a chamma ardente do primeiro amor?

Branca era filha do companheiro de armas de Inigo Paes; grande
desconsolao tivera elle, vendo-se viuvo em edade avanada, sem ter um
filho a quem podesse transmittir a sua herana de gloria. Muitas vezes,
ao vr a filha a doidejar na varzea, como gentil borboleta esvoaando
por entre flres, se lhe enrugava a fronte, e duas lagrimas de tristeza
deslisavam pelas faces crestadas do velho soldado. Mas a sombra ligeira,
que lhe annuviava o gesto, dissipava-se promptamente com as caricias
affaveis da gentil donzella. Quem poderia resistir  influencia
d'aquelle anjo de candura, loiro e rosado, como as imagens seductoras
dos cherubins que cercam a Virgem Nossa Senhora na pintura do altar-mr
da freguezia!

Branca e Raymundo conheciam-se e amavam-se desde creanas. Juntos tinham
crescido, juntos tinham doidejado n'estas campinas, e, sem que nunca a
palavra _amor_ fosse pronunciada, tinham apesar d'isso consagrado um ao
outro um affecto que a edade fra desenvolvendo. E era um par galante a
mais no poder ser. Quando Branca, fatigada de correr atraz de uma
borboleta, vinha, com as faces vermelhas como duas rosas, os olhos a
brilharem de alegria infantil e as loiras tranas fluctuando em ondas
doiradas sobre os seus hombros de neve, refugiar-se nos braos de
Raymundo, e encostar o rosto encantador nas faces levemente morenas do
gentil fidalguinho, todos os que os viam paravam extasiados, e faziam
votos pela felicidade d'aquelles anjos de innocencia e de candura.

Chegou finalmente o dia em que Raymundo completava dezoito annos, e em
que, para no desmentir as gloriosas tradies da sua raa, devia cingir
a espada, e ir aos campos de batalha pagar  patria e  santa religio
dos nossos paes o tributo de sangue, que devia ser pago por todos os que
se prezavam de christos fieis, e portuguezes leaes.

No dia fixado para a partida de Raymundo, encontraram-se os dois
namorados no sitio do Aude.  um sitio medonho, como v. s.^a ha de
saber; um pinhal sombrio, que vae terminar  beira de um precipicio, no
fundo do qual o rio faz mugir, espadanando nos rochedos as suas aguas
turvas e espumantes. Mas n'esse dia o sol estava brilhante, e dava a
esse quadro medonho o mais ridente aspecto. Os pinheiros, illuminados
pelos raios de um sol de agosto, pareciam frechas doiradas que mo
occulta arrojava ao co limpido e azul de um bonito dia de vero. Cada
gotinha de agua parecia um espelho que reflectia a imagem brilhante do
sol de Portugal, e o rio scintillante e espumoso parecia arrastar na
corrente palhetas de oiro e prata. Gorgeiavam os passaros na floresta, e
tudo dizia contentamento, quando os coraes de Branca e Raymundo
smente sentiam tristeza e desesperao.

Branca vinha triste, triste como a rla namorada que v fugir para
longes terras o escolhido do seu corao, e pallida como a aucena
batida pelo vendaval. Mas que bem que lhe ficava aquella pallidez, e
como a alvura da face realava a cr negra das roupas que vestira em
signal de luto e de saudade! O brilho dos olhos, empanado pelo pranto
que tinha derramado, parecia ainda mais suave e meigo, e os loiros
cabellos, caindo-lhe ao desdem sobre o pescoo deslumbrante de brancura,
faziam-n'a assimilhar  imagem da Virgem que est pendurada na sala do
presbyterio, e que o senhor padre prior dizia ser copiada de um quadro
pintado por um italiano chamado Raphael.

Chegou, e ajoelhou aos ps de um crucifixo, que ento existia n'aquelle
sitio; porque n'esses tempos de f viva, a imagem do Crucificado
apparecia em toda a parte para acolher em seu seio misericordioso as
oraes dos fieis. O sol tinha surgido havia pouco do Oriente, e a
orao da candida virgem, pura como a rosa que abre o seio ao primeiro
alvor da madrugada, foi, perfume singelo, de f e de innocencia,
conduzida pela brisa aos ps do throno do Senhor.

Quando se levantou viu Raymundo em p diante d'ella, de cabea
descoberta, pallido e mal podendo conter as lagrimas que lhe bailavam
nos olhos.

--Raymundo, disse ella desatando a chorar, e escondendo a cabea no
peito do mancebo, no me deixes!

--No posso, Branca, tornou elle, apertando-a ao peito com anciedade; o
que pensariam de mim o rei, os ricos homens e os villes, se preso nos
teus braos me esquecesse do que devo a mim, ao rei e a Deus? Era um
nome deshonrado o nome de teu esposo, Branca, e no m'o podias acceitar.
A espada de meu pae, que outr'ora brilhou ao sol das batalhas com
deslumbrante fulgor, no pde jazer inerte a um canto do meu solar, em
quanto as achas de armas dos meus compatriotas escrevem nas paginas de
pedra, das fortalezas moiriscas, a historia sanguinolenta da
ressurreio dos godos. Bem vs, Branca,  um penoso dever; mas devo
cumpril-o.

--E o nosso amor, Raymundo!--balbuciou a donzella, afogada em lagrimas.

--Oh! cala-te, Branca, no vs que me despedaas o corao? Queres que
eu perca o animo, queres que o puro azul dos teus olhos me faa esquecer
que existe outro co, outra ventura que no seja o teu amor, outro dever
que no seja o adorar-te? No, Branca, no ordenes a minha deshonra; a
tua imagem seductora ser a estrella que me ha de guiar no caminho da
gloria. Quaes sero as faanhas para mim impossiveis, pensando que o teu
sorriso ser a recompensa do meu valor, e que ser a tua mosinha branca
e mimosa que me ha de limpar na fronte o suor dos combates e das luctas
sanguinolentas?

--Mas quem sabe, Raymundo, tornou Branca, erguendo para elle os olhos
radiantes, ainda humedecidos das lagrimas que derramra; quem sabe se
n'esses paizes longiquos no encontrars alguma formosa dama cujos
encantos te faro depressa olvidar a imagem da triste Branca, que dizes
ter gravada no corao? Oh! meu Deus, que horrivel ida! Se tu me
esquecesses...

--Que fazias, Branca?

--Morria!--tornou ella com resoluo.

Raymundo apertou-lhe a mo e levou-a ao p do crucifixo. Alli, erguendo
os olhos para o rosto divino do Christo crucificado, bradou com voz
solemne e altiva:

--Juro diante de Deus que morreu pregado na cruz para remir os homens do
peccado original, juro guardar-te sempre f inteira e immutavel, como te
juraria se um sacerdote nos abenoasse ao p do altar. s minha esposa
diante de Christo. Cia sobre mim a vingana do co se atraioar o meu
juramento.

--Oh! obrigada, Raymundo, obrigada, clamou a donzella, lanando-se com
immenso ardor nos braos do mancebo e derramando copiosas lagrimas;
tambem eu juro amar-te sempre, meu Raymundo, amar-te com inalteravel
constancia, no viver seno com a tua imagem, no pensar seno em ti,
meu unico amor. E agora parte, accrescentou ella, erguendo-se com
inesperada resoluo, vae conquistar um nome glorioso; a beno de Deus
vae comtigo, porque os nossos anjos da guarda, abraados e de joelhos ao
p do throno do Senhor, rogaro a Deus que proteja os esposos, cuja
unio foi abenoada pelo Crucificado, saudada pelos canticos da
alvorada, perfumada pelos thuribulos das flres, illuminada pelos raios
do sol nascente!

Raymundo apertou-a ao peito com enthusiasmo; deu-lhe na fronte, com
timidez, um beijo, e montando n'um cavallo que o esperava a pouca
distancia, seguro por um pagem, partiu, dizendo com ardor:

--Adeus, minha gentil esposa!

--Adeus, meu adorado esposo!

Estas palavras pronuncira-as ella, caindo ajoelhada aos ps da cruz. O
perfume das flres, o canto dos passarinhos, o rumorejar das folhas, a
luz pura e serena do sol, tudo parecia abenoar o seu amor. Unicamente
no momento da despedida, uma nuvem ligeira passou por diante do astro do
dia e offuscou-lhe um pouco o brilho.

Ai! Branca, timida Branca, nos momentos de felicidade uma ligeira nuvem
 indicio temeroso de tempestade!


II


Passaram-se mezes e mezes--continuou o Joo; veiu o outono desfolhar as
arvores, e estender sobre a terra o seu manto de tristezas; depois o
inverno gelado agrupou as familias ao canto da lareira; voltou a
primavera sacudindo sobre os campos o seu regao cheio de flres e
verduras, voltaram as longas tardes do estio, e o sol ardente de agosto
veiu de novo doirar os pinheiros que ensombravam a cruz do precipicio; e
nem a triste Branca recebia noticias do seu noivo, nem Inigo Paes a
podia consolar com outras novas, que no fossem as que, logo pouco
depois da partida de Raymundo, tinham sido trazidas por um fidalgo que
voltava das terras do Algarve.

Contava elle que vira n'uma renhida escaramua o filho de Inigo Paes
estreiar-se no arduo mister do lidador d'aquellas eras. A estreia fra
digna do nome honrado de seu pae. Contava o fidalgo que o tinha visto
arrojar-se aos moiros com valor sobrehumano, e abrir com a acha de armas
um largo e sanguinolento sulco nas fileiras mahometanas. Quando, no fim
da escaramua, Raymundo Paes passou de viseira levantada junto dos
prisioneiros, estes, vendo o rosto delicado, o buo que lhe assombreava
levemente o labio superior, e a belleza quasi feminil do mancebo, no
queriam acreditar que fosse o mesmo que praticra prodigios de valor, e
ante o qual as cimitarras moiriscas voavam em lascas, decepadas pelo
montante que parecia manejado pelo brao de robusto montanhez.

Estas noticias encheram de orgulho o corao paternal do velho
guerreiro. A Branca no succedia o mesmo. As faanhas que enthusiasmavam
Inigo Paes, faziam receiar  gentil donzella que Raymundo, arrastado
pelo seu ardor juvenil, fosse encontrar a morte no gume afiado de um
alfange mahometano.

Assim correram os mezes, e as rosas do rosto de Branca desbotavam,
desbotavam at se trocarem nos lyrios que a desesperana ia fazendo
brotar nas faces da donzella.

E Raymundo? Valente cavalleiro, no ha proezas que absolvam um perjuro,
nem as indulgencias, concedidas pelo santo padre aos defensores da f,
so sufficientes para arredar de cima da cabea do sacrilego o raio
fulminado pela mo do Omnipotente.

Raymundo Paes, Raymundo Paes, que demonio fatal te arrojou aos ps da
cruz, e te dictou o terrivel juramento, que havias de esquecer to cedo?
Ai! cavalleiro, ainda o vento do outono no desfolhou a verde grinalda
que enramava a cruz do precipicio, e j o vento da inconstancia fez
murchar o candido affecto que floria em teu peito, e que jurras
conservar to puro e to sem mancha, como era pura e immaculada a imagem
d'aquella que t'o inspirou.

Ai! Branca, timida rla, que, escondida na espessura, a ss com as tuas
tristezas, pranteias a ausencia do ingrato que te esqueceu, mal sabes tu
que, em quanto fitas o olhar melancholico na lua pallida como o anjo da
saudade, e pareces perguntar-lhe mudamente se o teu olhar se cruza no
espao com o olhar saudoso do teu gentil campeo, elle, o perfido, o
perjuro, o sacrilego, esquece nos braos de outra o teu amor de virgem,
o teu modesto encanto, as tuas graas infants.

Durante os primeiros tempos, as meigas recordaes do seu amor de
creana arderam dentro d'elle to vivas e to serenas, como arde viva e
serena a lampada do altar no recinto sagrado da egreja christ; se uma
tentao m lhe surgia no animo, e lhe mostrava  luz de um relampago
infernal mundos desconhecidos de prazer vertiginoso, era logo repellida
pelo saudoso mancebo, que conservava o corao perfumado de innocencia,
como sanctuario florido, onde o christo abriga devotamente a imagem da
Me do Salvador............................................................
...........................................................................
...........................................................................

Era por uma noite sombria, calada e mysteriosa, noite propria como
nenhuma outra para emboscadas e ardis de guerra. N'essa noite, n'um
alcaar moirisco, situado em terras do Algarve, dormiam socegados os
perros descridos, confiados na vigilancia das atalaias, e certos que os
rudes batalhadores de Christo, vencidos do cansao, concederiam
involuntariamente treguas aos filhos de Mafoma. Os almogavares, voltando
das suas excurses, no tinham trazido novas de movimento algum no
exercito christo. Dormiam as almenaras no cimo das montanhas, e a
atalaia, vigiando no alto da torre, no estremecra vendo uma pluma de
fogo accender-se de repente, e, ondulando nos ares, dar signal da
appario dos nazarenos. Quo enganados estavam, e essa serpente de
ferro, que se enrosca s muralhas da fortaleza, vae acordal-os
inesperadamente do seu somno voluptuoso!

De repente o grito de S. Thiago  vante! echa nas barbacans do
alcaar, e as sentinellas, caindo apunhaladas sem terem tempo de soltar
um grito, pagam com a vida a sua indolencia descuidosa.

Que scena de confuso no meio das trevas! Os gemidos dos moribundos, os
gritos das mulheres, as blasphemias dos guerreiros surprehendidos
cruzam-se com os gritos de victoria dos cavalleiros portuguezes. Apenas
de quando em quando um ou outro arabe mais destemido arranca da
cimitarra, e faz brotar centelhas instantaneas, cruzando-a com o pesado
montante christo. No tem quartel os vencidos; os vencedores sequiosos
de sangue transformam n'aquelle momento o valor do guerreiro na
ferocidade do assassino. Eras de barbaridade! J vo longe, felizmente.

Raymundo vae entre elles. Embriagado pela carnificina, descarregava s
mos ambas a acha de armas sobre os que pretendiam fugir  sorte de seus
irmos. De repente um vulto feminino roja-se-lhe aos ps, suspende-lhe o
brao j levantado para descarregar o golpe, e com uma voz melodiosa
como o sussurrar da brisa nos ramos do salgueiro, murmura em portuguez:
Perdo!

A lua, que at ahi se conservra escondida entre nuvens, desembaraou-se
afinal do seu manto sombrio, e veiu acariciar com os raios da luz serena
as faces tostadas da arabe gentil.

Nunca Raymundo vira um rosto to diabolicamente tentador! Eram uns
labios onde se viam arfar promessas voluptuosas de beijos delirantes.
Eram uns olhos negros, onde brilhavam as chammas do desejo, as labaredas
infernaes da tentao! Eram as tranas negras fluctuando sobre o collo
n, que a brisa beijava com delirio, roubando-lhes perfumes inebriantes,
que vinham enlouquecer o ingenuo amador da casta Branca. E elle sentiu a
febre do desejo a vir escaldar-lhe o sangue, sentiu uma ignota anciedade
vir opprimir-lhe o peito. Era o terrivel despertar dos sentidos n'um
rapaz de dezoito annos. Eram as tentaes da voluptuosidade, eram as
commoes do prazer sensual, era um demonio desconhecido que lhe vinha
murmurar ao ouvido os vagos encantos de mysteriosos amores.

Raymundo sentiu o perigo, e quiz afastar-se d'elle. Repelliu-a, e,
invocando a imagem de Branca, quiz fugir da tentao fatal; mas a moira,
enroscando-se a elle, como a serpente se enrosca ao corpo do homem
fascinado pelo poder invencivel do seu olhar, murmurou:

--No me deixes, nazareno. Os teus olhos so negros como noite sem
estrellas; mas so transparentes como o espelho das aguas. Porque havias
tu de ser cruel como a hyena do deserto, se s bello e magestoso como o
leo das selvas? Olha, sou to nova! Ainda a amendoeira no floriu vinte
vezes, desde que minha me me apertou pela primeira vez ao seio
palpitante. Salva-me, salva-me e serei a tua escrava. Servir-te-hei de
joelhos como a meu senhor e amo, cingir-te-hei a armadura, adivinharei
os teus caprichos, e adorar-te-hei como adoro o propheta de Medina.
Ouves? Filho dos christos, salva-me, salva-me!

--Deixa-me, tentao do demonio, bradava Raymundo com voz balbuciante;
deixa-me, anjo das trevas; deixa-me, enviada de Satanaz.

--No, tornou a amaldioada, approximando os labios vermelhos como a
flr de romanzeira dos labios de Raymundo. Sou bella, e amo-te! Sou tua,
e tu s todo meu, porque te vejo torcer desesperado nos braos de fogo
do prazer. Amas-me, e eu... sou tua.

--Amo-te, amo-te, bradou Raymundo, caindo oppresso aos ps da musulmana.

Ai! Branca, timida Branca, chora o teu amor profanado! N'esse momento
fatal o anjo da guarda do teu amante velou com as mos o rosto
celestial, que as lagrimas inundavam, e foi, suspenso n'um raio da lua,
prostrar-se aos ps do throno do Omnipotente!

Entrado na senda da perdio, no havia poder humano que salvasse
Raymundo da condemnao eterna. Tinha vendido a sua alma por um beijo de
fogo, e trocra o paraizo pelo inferno da voluptuosidade. Profanado o
terrivel juramento, o que havia de sagrado para Raymundo? O que
importava a honra de cavalleiro a quem prostituira a santa crena de
seus paes? Apagra-se a candida estrella que o guiava nas trevas da
existencia, e a luz, que o fascinava, scintillava nos olhos negros de
Zoraida, a gentil amaldioada. Se tinha reflexos infernaes, tinha tambem
o esplendor prestigioso da tentao sensual.

Desde essa noite ninguem mais soube d'elle. Diziam que renegra, e que,
enlaado nos braos da musulmana, fechra os olhos  luz do
christianismo, e se arrojra ao abysmo infernal, onde ha o fogo eterno e
o eterno ranger de dentes.

Foram estas as noticias que Branca recebra, no dia em que fazia um anno
que Raymundo a deixra. No disse palavra ao receber a nova fatal. Saiu
e caminhou pallida, hirta e vagarosa como estatua adormecida n'um
tumulo, que, obedecendo a feitio desconhecido, se erguesse do seu leito
de pedra, e se dirigisse muda para o sitio aonde a chamava a attraco
mysteriosa.

Os aldeos, que a encontravam, paravam para a saudar. Mas ella nem os
ouvia, nem parecia vl-os. Costumados  amabilidade da fidalguinha,
ficavam os coitados boquiabertos, ao vrem a desusada distraco. Mas,
se lhe reparavam nas feies demudadas, vendo a pallidez de marmore, os
labios brancos e entre-abertos, os olhos fixos e esgazeados, benziam-se
devotamente, e murmuravam que era mau olhado que tinham dado  menina do
castello.

Assim caminhou at chegar ao sitio do Aude. Ajoelhou junto da cruz, e
um aldeo, que a seguia de longe, viu-a rezar muito tempo, e abraar os
ps do Crucificado. Depois, chegou  beira do precipicio, e sem
hesitao, sem fraqueza, despenhou-se no abysmo. O corpo gentil
ennovelou-se nos ares, e foi despedaar-se nas pedras da cascata,
espirrando ondas de sangue que tingiram de purpura o manto de espuma que
envolvia as rochas. As aguas do rio abriram-se para tragar o cadaver, e
depois continuaram indolentes a correr, e a murmurar o seu eterno
cantico, como se no se tivesse escripto alli o epilogo de um drama
desventurado.

O aldeo, que vira de longe a scena fatal, sem poder obstar ao seu
inesperado desenlace, fugiu dando um grito de horror, e foi contar ao
castello o que presencera. Quem perdeu alguma vez, de modo to
terrivel, um ente estremecido, avalie a dr do triste pae de Branca. Eu
no a sei narrar. Sente-a o corao, mas os labios recusam-se a
exprimil-a. Veiu depois gente do castello, e tiraram do fundo do
precipicio o cadaver horrivelmente desfigurado da gentil donzella.
Enterraram os restos d'aquella pobre martyr aos ps do Crucificado, que
ouvira a sua ultima prece, e a quem pedira talvez perdo do crime que ia
commetter. Plantaram ao p da cruz roseiras e madresilvas, cujo perfume
suavissimo ia levar ao longe a ultima recordao da que tivera na terra
a cora da innocencia, e tinha agora nos cos a palma do martyrio.

--Pobre rapariguinha, interrompeu o mestre lagareiro com mostras de
penalisado, dar cabo de si por causa d'aquelle patife!

--Ento que quer vossemec, _s_ Manoel dos Reis, coisas que acontecem,
tornou o narrador, ninguem pde fugir  boa ou m sina, que Deus lhe
deu. Era aquella a sorte de Branca, havia de cumpril-a.

--Vamos  historia, vamos  historia, bradou Jos Augusto, com
enthusiasmo! Que fez Raymundo? O que aconteceu a Zoraida? Quero saber
quem  por fim de contas o phantasma do Aude.

Raymundo, meu fidalgo, no via seno Zoraida n'este mundo. Um capricho
d'ella valia mais do que um mandado de Deus.

Christo tripudiou com a infame sobre a cruz despedaada do Redemptor;
cavalleiro, quebrou a espada de seu pae para que esse espelho de honra
no lhe reflectisse constantemente toda a hediondez do seu crime,
fidalgo e portuguez, salpicou de lama o brazo de seus maiores, e
abandonou a defeza da patria, quando ella reclamava o auxilio de todos
os seus filhos. Aqui est o que se pde chamar um amor de perdio!

Uma noite chovia agua se Deus a dava, o vento fazia tremer as casas, e
curvava at ao cho os pinheiros agigantados! A trovoada estalava com
medonho estampido, os relampagos cingiam a terra com o seu cinto de
chammas, e os raios vinham de vez em quando, lascando as rochas,
transformar as arvores em archotes colossaes. O temporal era como nunca
se tinha visto n'esta terra, nem nunca mais se tornou a vr, porque
todos dizem que a procella d'aquella noite era obra de Satanaz. No Aude
principalmente era medonho o aspecto da tormenta. O rio furioso arrojava
borbotes de espuma, que se cruzavam com os raios, que vinham lamber as
rochas com as suas linguas de fogo. Deus me perde, mas o temporal de
hoje tem algumas parecenas com a tempestade d'essa noite infernal.
Quer-me parecer que tambem hoje anda fazendo das suas o inimigo do
genero humano.

Um calafrio de horror correu pela assembla. Todos se chegaram mais para
o p do lume, e olharam uns para os outros benzendo-se silenciosamente
ao passo que l fra gemia o vento com voz soturna na porta carunchosa
do lagar.

N'essa mesma noite Raymundo e Zoraida atravessavam a cavallo o
pinheiral que termina no Aude. A reprovada de Deus folgava com noites
tempestuosas, e nunca se sentia to bem como quando os raios lhe
illuminavam a estrada, e o trovo respondia magestoso  sua voz
blasphema.

--Olha a cruz do nazareno, bradou Zoraida quando chegaram  cruz do
precipicio; no vs, Raymundo, como a chuva aoita irreverente o rosto
do martyr do Calvario! Porque no transforma elle os raios, que fulminam
a cruz abandonada, em cimitarras de fogo que faam rolar a seus ps a
cabea da condemnada, da filha de Mahomet?

E ella ria,--ria com umas gargalhadas estridentes, que vibravam
sinistras dominando os ruidos da tempestade, e que, repercutidas pelos
echos do abysmo, tinham um no sei qu de infernal. Raymundo estremeceu.

--No zombes d'esta cruz, respondeu elle com modo sombrio; quando eu era
innocente--e suspirou--vinha aqui ajoelhar muita vez. No zombes d'esta
cruz, peo-t'o.

Zoraida fitou por muito tempo n'elle o seu olhar aveludado, fascinante,
diabolico e tentador. Era incomprehensivel a magia d'esse olhar, e mais
incomprehensivel ainda o dominio que exercia no moo cavalleiro.
Dir-se-ia que dois sentimentos oppostos combatiam no corao de
Raymundo: de um lado a repugnancia, a rebellio da vontade, do corao,
do espirito contra aquelle demonio oppressor; do outro lado uma
attraco irresistivel, fatal, que o arrastava a seu pesar, e o
prostrava aos ps da musulmana.

Venceu o anjo mau. Raymundo curvou-se sobre o pescoo do cavallo, ebrio
de amor ou de desejos fitou um olhar frenetico nos olhos de Zoraida, e
quando ella, com um sorriso de escarneo, se approximou da cruz, e cuspiu
no rosto do Crucificado!... elle, vencido pelo demonio, imitou-a, rindo
com um riso convulso e doloroso, que fazia horror.

--Jesus!--bradaram os circumstantes.

O vento abriu a porta do lagar, e  luz de um relampago viu-se o campo
devastado pelo vendaval e inundado pela chuva; um trovo medonho fez
benzer todos, e emmudecer o narrador. Chegaram-se mais ao lume, e
olharam uns para os outros. Estavam todos pallidos e tremulos.

--Aconteceu exactamente o mesmo que aconteceu agora, continuou o Joo
Moedor com a voz a tremer-lhe um pouco; a luz de um relampago deixou vr
uma loisa aos ps da cruz, e o nome de Branca inscripto sobre a pedra.
Um trovo formidavel ribombou sobre a cabea dos dois amaldioados, e a
campa estalou como se fosse de vidro. O phantasma de Branca, involto em
candidas roupas, e com a fronte cingida de rosas virginaes, ergueu-se da
sepultura, fazendo recuar Raymundo horrorisado. Este quiz desviar a
vista, e o phantasma seguiu o movimento dos seus olhos; quiz tapar o
rosto com as mos, e as mos fizeram-se-lhe transparentes, deixando vr
ainda a imagem da donzella serena como uma santa, triste como uma
martyr, impassivel como o destino. Quiz enterrar os acicates nos ilhaes
do cavallo, e o cavallo esvaiu-se como fumo, adelgaando-se, e
escapando-lhe por entre os joelhos, como um pedao de neve que o sol
derrete nas montanhas. Raymundo deu um grito de horror, e estacou
petrificado.

Ento voltou os olhos para Zoraida, e ficou aterrado da transformao da
sua amante. O rosto, cuja belleza o fascinra, fizera-se negro, mais
negro do que o carvo. Scintillavam os olhos como duas brazas, e nos
labios volteava-lhe um sorriso de ironia. O brao assetinado que beijra
tanto, estendia-se para elle terrivel e ameaador. Raymundo, por um
esforo supremo de vontade, recuou dois passos, mas o brao estendeu-se,
estendeu-se, tornou-se desmesurado e apertou-lhe o pescoo, queimando
como se fra uma tenaz ardente.

--No me foges, bradou ella com voz rouca, vendes-te-me a tua alma,
renegado. Segue-me, segue-me. Pertences-me. Vem, que o inferno celebra
hoje o nosso noivado. Os raios so os fachos do hymeneu, e Lucifer o
sacerdote. Vem,  este o leito nupcial.

E, arrastando-o com uma fora irresistivel, precipitou-se com elle no
abysmo. Um claro avermelhado illuminou as aguas da torrente, que
exhalaram um cheiro nauseabundo de enxofre.

Mas o phantasma de Branca ficra ajoelhado aos ps da cruz, implorando o
perdo do condemnado. No rosto de Christo, suavemente illuminado,
resplandecia um vago arraiar precursor da aurora da misericordia.

Apenas Zoraida desappareceu, desfez se o encanto. Serenou a tempestade,
e a brisa perfumada da noite veiu timida brincar nas rosas do tumulo de
Branca.

Mas ainda hoje, em dias de vendaval, se vem duas sombras terriveis
correndo para o precipicio, uma horrorisada, tremula, arrastada, a outra
com uma alegria feroz no semblante. Aos ps da cruz vem ento ajoelhar
uma sombra com o rosto inundado de lagrimas celestiaes.

 que Raymundo ainda est cumprindo as penas do purgatorio, e Branca, o
anjo do Senhor, sem deixar de implorar a misericordia divina para
aquelle que tanto a fez soffrer, mas a quem tanto amou!

       *       *       *       *       *

--Era inevitavel, disse, rindo, Lucio Valena depois de feitos os
cumprimentos do estylo, eu estava j prevendo que iamos descambar em
plena edade mdia. O nosso amigo Roberto Soares no pde dispensar-se de
consagrar um vivo affecto s couraas da sua adolescencia, e s achas
d'armas da sua creao. Fez-nos voltar para 1830 o nosso bom amigo.

--E no era epocha to m como isso a tal de 1830, disse Roberto Soares.
Abusava-se do veneno e do punhal e dos solares e das chacaras e dos
cavalleiros que voltavam da cruzada, mas, como dizia Musset, um dos
romanticos do tempo:

    Hugo portait dj, dans l'me
      Notre-Dame,
    Et commenait  s'occuper
      D'y grimper.

--No ha duvida, no ha duvida, acudiu o doutor Macedo, e Lucio  de
certo o primeiro a prestar homenagem a essa epocha da potente
efflorescencia litteraria; mas, por Deus, tornou elle interrompendo-se
com espanto, est j vencida a meia-noite; a sr.^a D. Isaura adormeceu!

Era verdade; Isaura, que no tinha de predileces litterarias seno o
_quantum satis_ para ser senhora da moda, enfastiada j d'estas
repeties de historias phantasticas, resistira um momento ao somno que
a perseguia, mas, quando se entrra na historia dos amores de Raymundo e
Zoraida, fra a pouco e pouco encostando a cabea para traz, e
adormecera profundamente.

--Podra, pensou de si para si o nosso Henrique Osorio, teimando em vr
em Isaura uma menina toda idealisadora, e capaz de apreciar os mais
elevados prazeres do espirito, podra! Eu mesmo me vi em ancias para
resistir ao somno. Quem atura hoje um d'estes solos canados e gastos
que deliciaram a velha gerao, com os seus cavalleiros de armas negras,
e os seus diabos disfarados em mulheres formosas, e os seus fidalgos
que venderam a alma a Satanaz como na _Dama P de Cabra_, de Alexandre
Herculano, ou na _Torre de Caim_, de Rebello da Silva? Isso foi bom no
seu tempo, hoje est longe do maravilhoso moderno, e Isaura, com a fina
intuio do seu juvenil espirito, no pde commover-se com esses velhos
_trucs_ de magica, resuscitados ingenuamente pelo Roberto Soares para
nos entreter  meia-noite.

Emquanto Henrique Osorio fazia de si para si esse monologo, Leonor
acordava a sua amiga, que, abrindo sobresaltada os olhos, foi acolhida
por um riso jovial de todos os seus companheiros de noitada.

--Venceu-se ou no se venceu? dizia o doutor Macedo. Veja v. ex.^a se
hoje lhe produziu a mais leve impresso a meia-noite, e se lhe deram
muito cuidado os phantasmas.

--Ah! meu Deus, eu peo-lhes mil desculpas, disse Isaura um pouco
envergonhada.  que estou fatigada das noites passadas em claro, porque
o peior no  aqui, o peior  depois quando vou para o meu quarto.
Custa-me a conciliar o somno, e vem s vezes pesadelos terriveis
perturbar o meu dormir inquieto.

--Minha senhora, exclamou, rindo, o doutor Macedo, nem tudo so rosas no
tratamento de uma enfermidade. Pois v. ex.^a no sabe que so muitas
vezes amargos os remedios salutares? Ento julgava que, para ter uma
cura radical, bastava-lhe ouvir aqui lr contos, n'uma sala confortavel,
cheia de luz, a dois passos do seu pap, e apertando a mo da sua amiga?
Nada! ns aqui doiramos-lhe a pilula. Se depois lhe sente no seu quarto
o amargor, paciencia! Mithridates  de crr que tambem no achasse aos
venenos o gosto da ambrosia. Afinal bebia-os como quem bebe agua. V.
ex.^a hontem dormiu mal, hoje ha de dormir melhor, d'aqui a dois dias
chega a tornar-se-lhe necessaria uma historia de phantasmas para
adormecer profundamente.

--Ah! doutor, eu ao menos peo treguas. O sr. Henrique Osorio, hontem,
com a sua alameda transformada em cemiterio, e com essa mulher pallida
desenterrada, atacou-me os nervos de tal frma que fiquei devras
enferma. Cheguei a suppr que eu mesma era uma defunta.

O proprio Henrique Osorio  que ficou devras atordoado! Deciddamente
Isaura no lhe perdoava a creao do typo de Julieta que elle julgava
que tanto devia lisongeal-a. Persistia em acreditar que elle no tivera
outro intento seno o de lhe chamar desenterrada.

--Minha senhora, disse elle, eu sinto realmente profundissimos remorsos
por ter assim concorrido involuntariamente para a magoar. Creia v. ex.^a
que a minha inteno era boa, continuou elle em voz mais baixa; se depuz
a seus ps um ramalhete de goivos em vez de um ramalhete de rosas, foi
porque as flres funereas eram as unicas que a nossa regra me permittia
que colhesse.

Isaura era _coquette_, e, sentindo n'esta phrase um aroma de galanteio,
vibrou a Henrique um olhar fascinador. N'este momento, porm, o doutor
Macedo levantou-se, e, depois de ter pedido licena para ir accender um
charuto, cantarolou, puxando uma baforada de fumo, com musica
desconhecida, esta quadra de Thomaz Ribeiro:

    Trazes agoirento goivo
    prezo em negros passadores!
    Disse-te acaso o teu noivo
    que tinhas novos amores?

--O dr. Macedo, murmurou Isaura, voltando-se para Henrique Osorio com
uma expresso no olhar muito diversa da que primeiro lh'o illuminra, o
dr. Macedo est-me explicando involuntariamente o sentido da sua offerta
do ramalhete de goivos.  um epigramma, sr. Osorio?

--Minha senhora, respondeu Henrique desesperado, estou por tal frma
infeliz com v. ex.^a! V. ex.^a interpreta de um modo to singular todas
as minhas palavras, e todas as minhas aces, que desisto de as explicar
de um modo satisfatorio.

Estava verdadeiramente mortificado. Levantou-se comprimentando
seccamente a sua interlocutora. Dirigiu-se a uma janella e abriu-a para
respirar mais  vontade. As reclamaes dos circumstantes obrigaram-n'o
a fechal-a de novo. Isto ainda mais o desesperou. Estavam-se fazendo as
despedidas. Leonor, ao passar junto d'elle, disse-lhe com um riso
malicioso, e em voz baixa:

-- para que tu saibas o que valem os galanteios funebres.

--Olha, sabes que mais, Leonorsinha? tornou Henrique bruscamente,
occupa-te das tuas bonecas.

A pobre senhora sentiu a dr profunda do golpe. Recuou um passo, levou a
mo ao corao, e marejaram-lhe nos olhos duas lagrimas.

--Perdo, menina, acudiu Henrique, caindo em si.

--Ests perdoado, respondeu Leonor com voz fraca, mas... mas como tu a
amas!

Saiu. Se se demora mais um instante, rebentavam-lhe os soluos mesmo
diante de Henrique.

O doutor Macedo, ao passar por diante de Osorio, parou, e disse
declamatoriamente:

    _Si je vous le disais pourtant que je vous aime,
    Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?_

--Est fallando por enigmas poeticos, doutor, exclamou Henrique
impaciente. Quer fazer concorrencia ao _Diario Illustrado_, ou ao
_Jornal da Noite_?

--No, disse o doutor, quero apenas dizer, com palavras de Alfredo de
Musset, que passam muitas vezes duas pessoas ao lado uma da outra, sem
saberem os sentimentos que vivem nas suas duas almas, e que, se ousassem
exprimil-os, voariam a encontrar-se.

--A soluo no proximo numero, no  verdade, doutor? tornou Henrique,
impaciente.

--Talvez, redarguiu o doutor.

E saiu, ao passo que Henrique Osorio encolhia os hombros com desdem.

       *       *       *       *       *

Na seguinte noite, antes de chegar a hora fatidica, o doutor Macedo
pediu a palavra.

--Minhas senhoras e meus senhores, disse elle, desenrolando um
manuscripto, se no espero o bater da meia-noite,  porque o romance que
vou lr precisa de um prologo, e  meia-noite em ponto o que deve entrar
em scena  o elemento phantastico. Seja dito sem envolver nem a mais
leve censura aos illustres preopinantes que se afastaram d'esta regra.
No  meu este romance, o seu auctor deseja conservar o incognito...

--So prohibidas as substituies, bradou Lucio, rindo, servio
obrigatorio!

--Mau! No me interrompam! O auctor  um dos nossos collegas, no direi
mesmo se est presente. Faz o seu servio, mas provisoriamente quer
conservar a mascara. Ora diz Gennaro na _Lucrecia Borgia_, pouco mais ou
menos, o seguinte: A mascara de uma senhora  to sagrada como a face de
um homem.  assim ou no , Soares?  assim, romantico?

--Ser, mas o que d'ahi deduzo  que o auctor  uma das nossas amaveis
companheiras de sero.

--As conjecturas so permittidas, mas vae dar a meia-noite, e eu,
conformando-me com os preceitos do regimento, passo a lr a _Egreja
profanada_.

No meio do mais profundo silencio, em que se sentia a avida curiosidade
dos ouvintes excitada pelo mysterio em que se envolvia o conto, o
doutor, que lia admiravelmente, comeou assim:




A EGREJA PROFANADA


I


Corre socegada a noite, mas no brilha a lua no co a espargir
tristezas, escondendo um devaneio, um sonho de poeta em cada uma das
pregas da sua candida tunica; scintillam apenas as estrellas no vo
escuro do firmamento.

Formosas so as noites estrelladas, mas no teem a suave melancolia das
noites de luar; enleva-se-nos o espirito ao contemplar essas myriades
d'orbes luminosos; porm os raios da lua teem uma linguagem mysteriosa
que nos falla ao corao.

Quando no vo nocturno brilham sem rivaes as estrellas, como que
percebemos a magestosa melodia das espheras; mas, quando a lua illumina
a terra com a sua doce luz, ouvimos ento no espao vagos canticos de
saudade, suspiros de virgem enamorada, canto de pescador que se perde ao
longe nas ondas, toada de pegureiro, que vem desfallecida expirar no
nosso ouvido, intimas melodias, que nos dizem: amor e tristeza.

Porque as estrellas so desdenhosas rainhas d'outros cos, ses de
outros mundos, que nos enviam, como que por descuido, um signal de sua
grandeza, um tenue raio da sua immensa luz, em quanto a lua  a
extremosa amante, que prendeu  nossa a sua existencia, a companheira
que nos segue incessantemente n'essa viagem sem fim, que emprehendemos
pelo espao.

As estrellas tornam mais profunda a solido, e mais espessas as trevas.
Os bosques, os valles, as montanhas conservam-se envoltos n'um vo
sombrio, por mais que os raios dos ses da noite se esforcem por
penetrar na escuridade; as ondas baloiam com indifferena os seus
reflexos, e no fazem caso das palhetas doiradas que avivam aqui e ali a
candidez da sua fimbria espumosa.

Mas, quando surge a lua, a natureza anima-se. Desperta a virao nos
antros perfumados das florestas, que exhalam vivissimos aromas. As fadas
vem pentear as suas loiras tranas no espelho das fontes, cuja
crystallina superficie palpita de prazer. Jorram torrentes de prata pela
falda dos montes, scintillam diamantes na folhagem das arvores. Erguem
se as ondas em vago enleio de voluptuosidade, como seio de virgem que
arfa pela vez primeira. Rescende o meigo perfume no thuribulo da
violeta. Rescende a saudade no thuribulo do corao.

As estrellas so os anjos de Deus, que entoam l ao longe, nas
profundidades do Empyreo, o hymno s glorias do Eterno; a lua  o
archanjo consolador que presta um ouvido compadecido aos lamentos da
humanidade.

As estrellas so os candelabros de oiro, que ardem constantemente diante
do throno do Altissimo; a lua  a urna argentea onde se transformam as
lagrimas dos que soffrem em perolas, que os anjos entornam no regao do
Omnipotente.

As estrellas so o enlevo do philosopho, a lua  enlevo de poetas.

Porque as estrellas revelam o poder de Jehovah, a lua a caridade do
Redemptor.

Mas vae a noite socegada, e a luz dos fachos da abobada celeste
scintilla frouxamente na face adormecida do mar. As vagas erguem-se
vagarosamente, enroscam-se a pouco e pouco, caminham em longa fileira
para as praias, e alastram no areial o seu manto escuro.

Negra, bem negra est a superficie do Oceano; os raios das estrellas,
naufragos luminosos, debatem-se com as ondas, que mal conseguem doirar.
Do seio d'essas trevas sae um gemido cavernoso.  a voz eterna do
liquido leo,  o rugir tranquillo mas terrivel do monarcha da
immensidade.

No param as vibraes nas espumosas cordas da harpa dos abysmos; ora
plangente, ora formidavel, o cantico incessante resa no espao.

E que diversidade de vozes no ha n'esse concerto immenso! o magestoso
ruido das ondas ao assoberbarem-se l no mar alto, o grito que resulta
do embate de dois d'esses colossos que se encontram, o uivo de raiva que
soltam quando espadanam nos rochedos da praia, o suspiro amoroso que
desprendem ao beijarem o areial, o murmurio palreiro das gottinhas de
agua ao despedirem-se a custo das conchas das ribas, o lamento que
exhalam ao aoital-as o vento, tudo isto se resume n'um hymno sublime,
intraduzivel, como os poetas os sonham, mas no escrevem.

 mar! A opulenta imaginao da antiguidade grega povoou de sereias as
tuas ondas, poisou no cimo d'estas o velho Glaucus, com as suas barbas
limosas, com a sua voz aterradora, poisou no teu leito de espuma ora a
rosea concha Acidalia em cujo seio se abrigava a candida Aphrodite, ora
a seductora Lamia, ora as horriveis Gras, e nem assim conseguiu
traduzir o indizivel encanto com que nos attraes, e o vago terror que
nos incutes, a suavidade da tua voz, e a selvagem energia dos teus
hymnos!  mar immenso, que lyra infeitiada te deu o Senhor, de que
mysteriosa seduco impregnou as tuas solides?

Assim perdido nas trevas como  magestoso o Oceano! Nem uma vla se
distingue na immensidade solitaria! Ainda n'aquelle isolamento, no
descontina o fadario das ondas! Vo, vem, atropellam-se, espraiam-se,
beijam se, desmaiam, agitam-se, revolvem-se, cantam, suspiram, e, l ao
longe talvez, algum scismador, encostado ao peitoril da sua janella, ao
ouvir aquelle ruido ineffavel, pensa na eternidade, e em Deus!

Comtudo bem junto da praia, a pouca distancia de uma casa cuja fachada
branca mira silenciosa a eterna agitao do Oceano, que envia s vezes,
de enamorado, uma das suas ondas a beijar-lhe os ps, baloia-se
indolentemente uma barca, onde dorme um pescador, cujo somno 
acalentado por esse murmurio suave.

As ondas embalam to docemente o bote, como carinhosa me pde embalar o
bero do recem-nascido.

A uma das janellas que se rasgam na fachada branca da casa da praia,
encosta-se um vulto de mulher. Em baixo est um outro vulto varonil e
elegante. Ouve-se, por entre o concerto das vagas, o mysterioso segredar
de duas vozes.

Leandro e Hero, Rosina e Almaviva, Julieta e Romeu!

O bramir do mar abafa o manso ruido das vozes. Mas o rugido do Oceano, e
o flebil sussurrar dos namorados chegam, em murmurio egual, ao throno do
Omnipotente: porque so duas notas do hymno immenso do Universo, que se
resume n'uma palavra Amor.


II


Tudo n'este mundo acaba, inclusivamente as doces palestras enamoradas.
Mais infeliz do que a desditosa heroina de Shakespeare, a donzella da
casa da praia no pde esperar que o grito matinal da cotovia saudasse o
alvorecer. Ainda a noite no chegra ao meio do seu giro, e j era
forosa a separao.

Trocaram-se suaves promessas, mil vezes se affastou o nosso Romeu da
fachada branca, mil vezes voltou a ella, como se as ondas, que lhe
vinham quasi banhar os ps, o arrastassem comsigo nas incessantes
ondulaes do fluxo e do refluxo.

Afinal a palavra Adeus escoou-se, como um timido murmurio, pelos
labios dos dois namorados; o elegante moo affastou-se rapidamente, e,
dando um pulo bem calculado, foi cair em p dentro do barco, que as
ondas baloiavam.

Ao choque inesperado acordou em sobresalto o barqueiro. Ergueu-se 
pressa, e, depois de reconhecer seu amo, fitou os olhos com certa
inquietao no co estrellado, chronometro infallivel dos homens do mar.

--Ah! senhor, disse elle com a voz entrecortada, que tanto se demorou! 
foroso apressarmo-nos, e no sei ainda se chegaremos a tempo  praia.

--Que medo tens tu, homem? perguntou o que embarcra, sentando-se
commodamente na ppa do bote. Est o mar de leite, e nem a mais ligeira
brisa lhe agita as ondas, nem uma nuvem ameaadora assoma no horisonte!
As tempestades repousam, amigo!

--No temo a procella, tornou o barqueiro, abanando a cabea; eu e o
vendaval somos conhecidos velhos, e no me assusta a tormenta em noite
escura, nem receio ser engulido pelas ondas! Assim como assim um homem
ha de morrer uma vez, e vale mais adormecer livremente envolto n'esta
mortalha de espuma, do que ser cozido n'um lenol branco, e mettido em
uma cova, onde o nosso pobre corpo nem uma vez s se poder regalar com
o cheiro da marezia! Mas ainda que a temesse, no  n'uma noite d'estas
que um velho marujo receia a tempestade. V. s.^a tem raso: o mar est
de leite, e o barco ha de deslisar to commodamente por sobre as suas
aguas como uma carruagem por cima da poeira da estrada real.

--Ento o que te assusta, meu velho?

--Est quasi a dar meia-noite, senhor.

--Percebo! Receias que o fuso da tua companheira no corra to
ligeiramente nas suas mos enrugadas, de farta que esteja de te esperar.
Socega, homem! Irei eu mesmo acalmar as rabugices da Catharina, e
prometter-lhe uma estriga de linho para os seres do inverno. Vers que
a velhita ha de ficar to contente, que nem pensar em ralhar comtigo
por causa da desusada demorada.

--No esteja com cuidado na Catharina, senhor, que ella bem sabe que me
no demoro por culpa minha. Oh! se sabe. Antes de ser velha desdentada
j foi moa e lou, e ha de se lembrar de como ns esqueciamos as
horas, que passavam, ella sentada  porta da choupana a concertar as
rdes de seu pae, eu assentado no areial a fallar-lhe fallas de namoro,
que lhe punham o rosto mais vermelho do que uma rosa de maio. Ainda no
 isso, meu amo.

--Ento o que , finalmente? perguntou o seu interlocutor, j um tanto
enfadado.

-- que no resulta bem algum s almas de dois christos de estarem
assim no mar por estes sitios ao bater da meia-noite.

--Porque?

O barqueiro olhou com inquietao em torno de si, e depois murmurou em
voz baixa que mal se ouvia:

-- por causa da _egreja profanada_!

O esbelto moo olhou espantado para elle.

Durante a conversao, o pescador desamarrra o barco, e, lanando mo
dos remos, dra-lhe um impulso vigoroso. J estavam longe da praia, as
ondas vinham bater no costado do bote com um murmurio queixoso, que
acompanhava o som compassado do bater dos remos na agua.

O pescador tornou a fitar o co com inquietao, e, sem responder a uma
nova pergunta do seu passageiro, curvando-se para diante, metteu os
remos nas ondas, e, entezando depois os musculos vigorosos, fez,
erguendo-os de novo, espadanar uma cascata de espuma de cada lado do
ligeiro bote.

Este, como um corsel generoso, que ao sentir enterrarem se-lhe nos
ilhaes as esporas do cavalleiro, se empina primeiro, depois, sacudindo
as crinas, desata em vertiginoso galope, e, saltando de um pulo uma
onda, que vinha orgulhosa para elle, deslisou por sobre as aguas com
incrivel rapidez.

Ainda o passageiro no tivera tempo de repetir a pergunta, quando vibrou
o espao com as lentas pancadas da meia-noite, que soava l muito ao
longe, no sino de uma egreja situada  beira mar.

Produzia um effeito sinistro aquelle som distante. Cada uma das
vibraes vinha, em intervallos eguaes, expirar no ouvido dos dois
navegantes, e casar-se melancolicamente ao rugir contnuo das vagas.

O barqueiro deixou cair os remos, e bradou: Jesus, meu Deus! O mesmo
seu amo no se pde eximir a um inexplicavel receio.

Ambos silenciosos, o barqueiro com os cabellos em p, o nosso enamorado
com vaga curiosidade, e um tal ou qual terror, contaram as lentas
pancadas do bronze sagrado.

Parece que aquellas vibraes no eram produzidas pelo simples sino de
uma egreja, mas que fra o anjo das vinganas do Senhor quem fizera
vibrar o bronze, e quem lhe dera aquella voz sobrenatural e pavorosa.

Contaram uma... duas... tres... doze. A ultima vibrao assemelhava-se a
um gemido terno, ao uivo lamentoso do genio da meia-noite, que, abrindo
as suas negras azas, annunciasse aos phantasmas o comeo do seu imperio.

O barqueiro, que se levantra, cau de novo no meio do barco e escondeu
o rosto entre as mos; seu amo soltou uma exclamao de espanto.

Um claro avermelhado tingira subitamente as ondas, como se um incendio
comeasse a lavrar no fundo do Oceano. As vagas soltaram um gemido
plangente, como creanas aoitadas.

E um concerto horrivel, formado por muitas vozes, erguera-se do fundo
dos mares; e essas vozes cantavam os psalmos da penitencia.

Mas as palavras, cheias de unco, e impregnadas de tristeza das
sublimes poesias do rei propheta, tomavam uma accentuao ironica, como
se passassem pelos labios requeimados dos anjos malditos.

No meio d'essas vozes roucas fez-se ouvir de repente uma voz suave e
argentina de mulher, doce como o gemer da brisa nas solides do Oceano,
feiticeira como a voz das seductoras sereias.

Mas aquella mesma doura tinha um no sei qu de medonho, e n'essas
melodias celestiaes reverberava-se o fogo do inferno.

No meio das notas mais ternas, vibrava subitamente uma outra aspera e
dissonante, que produzia o effeito que produziria no meio das harmonias
da harpa o som do estalar de uma corda.

E essa voz tinha ao mesmo tempo uma profunda tristeza, uma plangente
intonao, uma pungente ironia e um no sei qu d'attraente e seductor
que fazia pensar na fatalidade.

Os olhos do moo passageiro encheram-se involuntariamente de lagrimas, e
com os braos estendidos, perdido n'um vago extasi, parecia querer voar
nas azas da melodia para o antro sub-marinho, onde se aninhava a
infeitiada sereia.

E a voz cantava:

    Co'a vossa santa colera,
    raio que fere e brilha,
    ao impio que se humilha
    no fulmineis, Senhor!

    N'este meu seio embebe-se
    a vossa frecha ardente,
    e a mo omnipotente
    me opprime em seu furor.

    Da vossa ira o halito
    seccou-me membro a membro,
    e ai! se ento me lembro
    do meu longo peccar,
    de como olvidei, rprobo,
    santos dictames vossos,
    oh! sinto at meus ossos
    um frmito agitar!

    O fardo immenso e horrido
    da minha iniquidade,
     voz da Divindade,
    a fronte me curvou.
    Da minha carne as ulceras
    corrompe-as a lembrana
    da impia atroz folgana,
    que a Deus me arrebatou.

Era triste, profundamente triste a voz, que assim cantava nos abysmos do
Oceano as primeiras palavras do primeiro psalmo da penitencia. Ia
enfraquecendo pouco a pouco at desfallecer quasi de todo no ultimo
verso, mas ento a voz vibrava de novo com aspereza, e era quasi uma
gargalhada infernal, de desafio ao Eterno, o grito ironico com que
voltava a cantar os seguintes versos:

    Co'a vossa santa colera,
    raio que fere e brilha,
    ao impio que se humilha
    no fulmineis, Senhor!

N'este momento rasgaram-se as ondas, como se um novo Moyss lhes tocasse
com a varinha magica. Entremostraram-se aos olhos do espantado moo as
profundidades do mar. Foi isso rapido como um relampago, mas deu-lhe
tempo sufficiente para vr o interior de uma egreja gothica
esplendidamente illuminada com uma immensa profuso de cirios. Uma longa
fileira de guerreiros da edade mdia cercava os altares, mas no meio da
nave campeiava, coisa estranha! a meza de uma orgia, e as taas de oiro,
cheias de vinho espumoso, ostentavam-se em cima da toalha. Uma mulher
formosa como os anjos, mas tendo na fronte pallida no sei que
inexprimivel sllo da maldio divina, ergueu-se, como se fosse
sustentada por azas invisiveis, at  superficie dos mares. Cerrou-se de
novo o abysmo, e as ondas purpureadas pelo reflexo dos cirios estenderam
por cima d'essa mysteriosa egreja o seu liquido docel.

E o vulto feminino, com as vestes alvejantes ondeando por cima das
vagas, e roando a fimbria na orla da espuma, que o claro vermelho
fazia espuma de sangue, com a cora da orgia ainda na fronte,
encaminhou-se lentamente para o sitio onde o barco parra, porque o
pescador ainda no ousra nem sequer levantar-se.

O phantasma deslisava por cima das ondas, como se invisivel mo o
impellisse; j estava proximo do bote, e os seus olhos negros, onde
scintillava uma chamma infernal, exerciam uma incrivel fascinao no
nosso heroe. Afinal parou, e os seus braos estenderam-se vagarosamente
para elle, a fronte pallida tombou-lhe para o hombro, como lyrio pendido
pelo tufo. Ignota languidez suavisou-lhe o fogo do olhar. As tranas
negras desprenderam-se-lhe e fluctuaram-lhe nas espaduas. Os labios
descerraram-se, e a sua voz doce e melodiosa suspirou, como um triste
queixume os versos:

    N'este meu seio embebe-se
    a vossa frecha ardente,
    e a mo omnipotente
    me opprime em seu furor.

Cego, louco, fascinado, o juvenil passageiro do bote nem foras teve
para resistir  seduco. Inclinou meio corpo para fra do barco,
estendeu as mos, e ia precipitar-se nas ondas.

--Jesus! bradou o barqueiro.

O phantasma soltou um bramido de desesperao, as ondas rasgaram-se de
novo, e quando o moo abriu os olhos, que fechra de deslumbrado pela
chamma que faiscra nas pupillas negras da gentil desconhecida, j o
vulto feminino desapparecra.

Mas as ondas continuavam a conservar a sua cr escarlate, e o canto dos
psalmos vibrava ainda na immensidade.


III


O terror tirra as foras ao barqueiro, o terror lh'as deu de novo.
Lanou mo dos remos, e o bote afastou-se rapidamente d'aquelle terrivel
sitio.

--Sabes a historia do que estamos vendo? perguntou o companheiro do
pescador, com voz ainda agitada.

--Oh! se sei, senhor,  uma historia terrivel. Mas no  n'este sitio
nem a esta hora que eu a hei de contar.

--Conta, tornou o interrogador imperiosamente, j estamos longe do ponto
fatal, e a voz dos rprobos vae-se perdendo no horisonte.

O barqueiro hesitou um instante, depois principiou em voz to baixa que
mal se percebia, e sem deixar de impellir vigorosamente o bote, a
seguinte narrao:

Havia aqui d'antes, ha um bom par de annos, e junto d'aquelle castello,
cujas ruinas ainda pde divisar penduradas como ninho de aguias em cima
das fragas, uma egreja que fra mandada construir por um devoto fidalgo
d'aquelle solar, fidalgo que morreu em cheiro de santidade. A igreja era
tida em conta de milagrosa, e alli concorriam immensos fieis attrahidos
pela fama do templo, e pelas virtudes do capello, homem de vida
austera, affectuoso para com os humildes e nada servil com os grandes, a
quem dizia as verdades por mais amargas que fossem, quando entendia que
assim o exigiam os deveres do seu ministerio.

Vivia ento no castello um fidalgo devasso, filho do fundador da
egreja, o qual, se lhe herdra as riquezas, no lhe herdra as virtudes,
porque os thesouros da terra na terra ficam, mas os thesouros do co
esses voltam com o seu possuidor para o seio do Omnipotente.

Tinha esse fidalgo uma irm. Linda era ella. Gentil a mais no poder
ser. Dizem que o rosto  o espelho da alma, e se assim fosse, ninguem
possuia mais formosa indole nem mais candido espirito do que a irm de
Guilherme, a filha do virtuoso Pelayo. Mas no era assim. A natureza
esmerra-se tanto em lhe aprimorar a belleza physica, que se esquecra
de certo de cuidar com egual desvelo na formosura moral.  assim que
dizem que Satanaz tem uma belleza seductora, e que seria um guapo
archanjo, se o p caprino no revelasse a quem se deixa fascinar pela
etherea gentileza do anjo maldito, que est a contas com o pae da
mentira. Infelizmente Ignez no tinha esse signal que a distinguisse dos
anjos de que parecia irm, e, se algum cauteloso enamorado, para
tranquillidade de consciencia, lanasse uma vista de olhos para o
psinho encantador da formosa filha de Pelayo, no fazia mais do que
completar a fascinao, e, em vez da agua benta, com que tencionava
aspergil-o, era natural que o cobrisse de beijos, to airoso era elle e
to pequenino, to pequenino que parecia que a natureza, ao esquecer-se
de lhe formar a alma, se esquecra tambem de lhe formar o p.

Quando ella passeava a cavallo por essas ferteis varzeas, montada
elegantemente n'um lindo cavallo preto, todos se ficavam enlevados a
contemplal-a, e no havia donzella nem rico homem que no sacrificasse
de boa vontade a vida para fazer brotar um raio d'amor na pupilla negra
da gentil Ignez. Mas ninguem o conseguia, e o marmore d'aquelle rosto
adorado nunca se purpurera com o rubor da paixo. Engano-me. Paixo
sentia ella, vehemente, incestuosa, horrenda, e que lhe devia incendiar
o rosto no no vivo escarlate do pejo de donzella enamorada, mas sim no
rubor da vergonha e do remorso. A rproba amava seu irmo!

E no imagine que ella occultasse essa paixo criminosa. Pelo contrario
gloriava-se d'ella impudentemente. E o espectaculo, que davam aquelles
dois impios, era um escandalo contnuo para os bons christos dos
arredores.

No se faz ida das orgias freneticas e loucas, a que no castello se
entregavam aquelles dois abandonados de Deus. Quem passasse  meia-noite
pelo caminho que serpeia na montanha, e onde estava situado o solar
defrontando com a egreja, havia de parar cheio de religioso terror ao
vr de um lado o immenso claro das luzes incendiando as vidraas da
sala da orgia, ouvindo os cantares ebrios, os risos descompassados, as
blasphemias, as musicas voluptuosas, e dando com a vista do outro lado
na casa do Senhor, muda, deserta, sepultada em trevas, como um terrivel
archanjo que contemplasse com olhar sevro os folgares dos malditos, e
que esperasse silencioso que soasse a hora da punio.

O mar batia de continuo nos rochedos, e aquelle ruido incessante, se o
ouvissem nas salas, havia de lhes soar lugubremente como a voz
justamente irritada do Deus vingador.

A egreja e o mar! Diante do templo erigido pela piedade dos homens,
diante do templo immenso em que mais se revela a imagem da Providencia,
como poderia haver quem esquecesse por tal frma os preceitos da lei
divina?

Pois havia! e  noite, quando na mysteriosa soledade da nave, se
erguiam os mortos do seu leito de pedra para se ajoelharem diante do
altar, quando o vasto Oceano desprendia dos seus labios de espuma o
hymno religioso com que celebra a omnipotencia de Deus, accendiam-se as
luzes no salo do castello, sentavam-se  meza da orgia Guilherme e
Ignez e alguns cortezos das suas devassides, porque os seus eguaes
todos se haviam desviado d'aquella Gomorrha amaldioada, sobre a qual
cedo ou tarde cairia o fogo do co; e a irm do castello, no fim do
banquete, cingia a fronte com uma grinalda de rosas, empunhava a harpa,
e cantava canes bacchicas com essa voz melodiosa, pura e vibrante, que
os anjos lhe invejavam, para descantar os seus hymnos de louvor ao
Eterno.

Um dia o velho capello, que fra o primeiro padre que dissera missa na
egreja cujo fundador fra o pae dos dois devassos, dirigiu-se ao
castello, tencionando chamar para o redil da egreja aquellas duas
ovelhas desgarradas por atalhos de maldio.

Nada conseguiu seno excitar o odio de Ignez, que ouviu furiosa as
reprehenses do padre, e que foi immediatamente queixar-se a Guilherme
da insolencia do sacerdote, e pedir-lhe, como premio de amor, a cabea
do digno homem, como outr'ora Herodias pedia a Antipas a cabea de S.
Joo Baptista.

No ousou conceder-lh'a Guilherme. Conservava ainda, no meio dos seus
vicios, um respeito supersticioso por seu pae, e no ousava tocar na
pessoa inviolavel d'aquelle a quem Pelayo confira o templo que fundra.

No insistiu Ignez; mas projectos de vingana atroz calaram
immediatamente n'aquelle espirito pervertido.

Uma noite, noite de Natal, a chuva caa em torrentes, aoitando
egualmente as vidraas do castello, illuminadas com o claro do festim,
e os vidros de cr da egreja atravez dos quaes coava a religiosa luz dos
tocheiros accesos para se celebrar a tocante solemnidade da missa da
meia-noite.

O mar rugia de encontro aos rochedos, e soltava ora gemidos pavorosos,
ora lamentosos queixumes.

O vendaval corria infrene por sobre as ondas.

De mais folias ainda do que de costume era testemunha o salo do
castello. Os gritos dos ebrios ouviam-se c fra distinctamente, e
faziam com que todos os que se dirigiam  missa se persignassem com
horror.

Sentada n'uma cadeira de espaldar, junto de seu irmo, Ignez, com os
cabellos em desordem, soltos pelas espaduas nas, com a lascivia no
olhar e na attitude, desferia a harpa de oiro e descantava as mais
alegres canes.

O vento e o mar soltavam c fra os seus tristes e lugubres lamentos.

De repente soou meia-noite na torre da egreja. Os repiques da sineta
annunciaram immediatamente que ia principiar a missa.

Cessaram os risos e os cantares no castello de Guilherme. S Ignez com
o seu diabolico sorriso a pairar-lhe nos roseos labos, exclamou:

--De que vos temeis, nobres cavalleiros? To desgeitosa estou j no
dedilhar da harpa, que lhe prefiram o agudo cantar da sineta? To
enfraquecida est a minha voz, que cessem de a escutar para ouvirem o
bronze de um campanario?

N'este mesmo instante um raio fuzilou no espao, inundando a sala com a
sua luz phosphorca, e o vendaval, redobrando de fora, fez em estilhas
uma das vidraas.

Todos sentiram um convulso tremor percorrer-lhes as veias, e o proprio
Guilherme limpou o suor frio que lhe escorria na testa. Ignez continuou:

--Receiaes a tormenta? Quereis um conselho? Deixemos esta sala que o
vento vae tornar inhabitavel, e que a chuva vae inundar, e vamos
procurar um abrigo na egreja. Alli, sim, que  sala commoda.
Utilisemol-a. Um ultimo copo de vinho, meus senhores, e faamos a
transferencia.

Todos obedeceram s ordens da formosa Ignez. Beberam um copo de vinho,
e ergueram-se bradando resolutamente: Para a egreja.

O ministro de Deus subira n'esse instante ao altar revestido dos seus
sagrados paramentos. Tornavam-n'o respeitavel o seu caracter augusto de
immaculado sacrificador, e ainda mais o seu diadema de cabellos brancos,
e a invisivel aureola de virtudes que lhe circumdavam a fronte.

A multido ajoelhada sentia como que o espirito de Deus baixar ao
templo, evocado pelo santo sacerdote. O orgo comeava a gemer os seus
doces cantares. A tempestade parecia respeitar aquelle sacro asylo,
suspirando plangente nas frestas ogivaes, e no rugindo pavorosa, como
quando sacudia as suas negras azas em torno do castello.

Tudo era socego e serenidade n'aquella divina estancia.

Subito irrompeu pelo portal da egreja a turba dos ebrios, em
descompostos cantares. Ficou gelada de terror a devota multido.
Perturbado quando erguia a Deus o immaculado espirito, o sacerdote
voltou-se e deu com os olhos na bella Ignez, que vinha na frente
encostando-se com insolente descaro ao brao de seu irmo.

Inflammado em santa colera, o velho ministro do Senhor desceu os
degraus do altar, e, dirigindo-se aos recem-chegados, bradou com voz
sonora, em que vibrava o echo das iras de Deus:

--Parae, no profaneis o templo, e no obrigueis a fulminar-vos o raio
de excommunho, que vos est impendente.

Era venerando o vulto apostolico do santo varo. O povo cau de
joelhos, e a tempestade suspendeu os seus bramidos, como que respeitosa
e tremula.

Ouviam os elementos desvairados a voz do ministro do Omnipotente. S
ficavam cerrados os ouvidos dos impios.

Era porque chegra a hora fatal, e a taa das iniquidades trasbordra
emfim.

Ignez sorriu-se meigamente para seu irmo. Que doce, que angelico
sorriso! Quem diria que esse sorriso, que rescendia amores, era apenas
um incitamento ao assassino?

Pois foi. Guilherme allucinado arrancou do punhal, e feriu o velho
sacerdote.

O sangue espadanou da ferida, e salpicou, tingindo de escarlate o
candido vestido de Ignez.

A multido fugira horrorisada, os criados, impios como seus amos,
haviam trazido n'esse instante a meza da orgia.

Mas assim que baqueou o sacerdote, a tempestade, suspensa por um
momento, soltou-se com novo furor. Rugiu o vento nas frestas da egreja,
fuzilaram os raios, bramiu, quebrando-se nos rochedos, o Oceano
enfurecido, e os tumulos de pedra da egreja estalaram como se fossem de
vidro.

E do tumulo de mais primoroso lavor, surgiu, envolto na mortalha, o
espectro de Pelayo, o fundador da egreja. Ondeiavam-lhe ainda as barbas
nevadas sobre o funebre escapulario, e das orbitas cavadas, coisa
horrivel! brotavam lagrimas ardentes.

Ergueu-se, ergueu-se; j no tocava com os ps no cho marmoreo da
egreja. O vento engolphando-se pelo portal do templo, agitava-lhe as
pregas da mortalha. Com as mos unidas, em attitude de orao, o velho
finado, subindo lentamente nos ares, parecia um d'esses prophetas que o
Senhor Deus arrebatava para as alturas do Empyrio.

Quando chegou ao tecto, o tecto abriu-se como por encanto e o venerando
finado continuou a sua magestosa ascenso na atmosphera que se
esclarecia em torno d'elle, como se aquelle cadaver irradiasse luz.

Os impios haviam ficado immoveis e attonitos de terror. Mas, apenas o
velho Pelayo se sumiu ao longe na regio das nuvens, resoou em toda a
egreja um terrivel estampido. O orgo vibrou, sem que mo humana o
tocasse, e o tremendo _Dies irae_ jorrou em torrentes de severa melodia
pela nave do templo. Vacillaram os columnelos, nos frisos e laarias
gemeu o vento em canticos sinistros, e, como se o vendaval a tivesse
arrancado pela base, aquella mole immensa levantou-se do cho, oscillou
nos ares como impellida por invisivel fundibulario, e arrojou-se ao
Oceano, levando no seu seio os profanadores, que soltaram um ultimo
rugido de desespero.

Abriu-se o mar para tragar a preza enorme que se lhe offerecia, depois
a liquida superficie uniu-se de novo, e essa mortalha immensa, cujas
pregas so as ondas, desenrolou-se para encobrir esse cadaver de pedra.

Desde ento todas as noites, ao bater da meia-noite, accendem-se os
cyrios na egreja sepultada, e, no fundo do mar, os rprobos entoam os
psalmos da penitencia.

A voz de Ignez sobreleva a todas, e exerce ainda, do fundo do Oceano, a
sua irresistivel seduco.

s vezes ergue-se o phantasma da formosa at ao cimo das ondas, e
arrasta para os abysmos os incautos que cedem ao magico poder dos seus
feitios.

Proteja-nos o Senhor contra estas tentaes. Eis-nos chegados  praia.
...........................................................................
...........................................................................
...........................................................................
...........................................................................

O barqueiro amarrou o bote, e saltou em terra. O moo passageiro ficou
largo tempo a contemplar o Oceano.

As ondas conservavam ainda ao longe o seu reflexo escarlate, e a voz dos
precitos, enfraquecida pela distancia, vinha expirar na praia em
melancolica toada.

Aos primeiros clares da aurora tudo se dissipou; apagou-se a pouco e
pouco a luz vermelha, ao passo que se ia aclarando mais o horisonte, e
que as ondas se iam branqueando com o tenue fulgor do alvorecer.

O canto dos malditos foi tambem esmorecendo a pouco e pouco, at que a
ultima nota vibrou solitaria no espao; e esse silencio singular que
precede o romper do dia foi apenas quebrado pelo hymno eterno do
marulhar das ondas.[1]

       *       *       *       *       *

Houve um momento de silencio, quando o doutor Macedo acabou a leitura do
romance. N'aquelle grupo havia de certo n'esse instante um corao que
esse silencio fazia bater com desusada violencia. Afinal Lucio Valena
quebrou o encanto, dizendo:

--Decididamente, caro doutor, o nosso desconhecido collega deu um golpe
de mestre, escolhendo o para leitor de uma lenda. A sua voz deu-me
arripios, as suas inflexes resuscitaram a meia-noite. Co'a breca! houve
um momento, em que me no atrevi a olhar para a janella, com medo de vr
encostado aos vidros o espectro fascinador de Ignez.

--Ah! de certo, disse ou antes balbuciou Leonor, nem assim se pde
avaliar o merito da lenda. O doutor  como um d'estes actores, que
transformam sempre em magnificos papeis as mais insignificantes
banalidades.

O doutor sorriu-se para ella maliciosamente, mas ao mesmo tempo um
concerto de elogios protestava contra a phrase dubia de Leonor. O mais
ardente no applauso era Henrique Osorio.

--Bem! chegou o momento solemne! disse Macedo, o publico chama pelo
auctor, e eu, como no theatro francez e hespanhol, depois dos tres
cumprimentos do estylo, vou arrojar o nome do poeta  plata
enthusiasmada. Se me dispensam dos cumprimentos, substituo-os por uns
certos effeitos oratorios.

--V! v! diga, doutor! bradaram todos em cro.

--Um! exclamou o doutor Macedo, batendo as palmas; o auctor  uma
senhora linda, elegante e espirituosa.

--Isso  abusar, doutor! bradaram os circumstantes indignados.

--Dois! tornou Macedo. Acha-se presente a referida senhora.

--Estrangulamol-o? propoz Lucio Valena.

--Um voto de censura na acta! bradou o visconde da Fragosa, sempre
parlamentar.

--Dependuramol-o da janella at elle dizer o nome! exclamou Henrique
Osorio.

--J o tinha dito, se vocs me no interrompessem, exclamou placidamente
o doutor Macedo emquanto a viscondessa da Fragosa, Leonor e Isaura riam
a bom rir da alegre scena.

--Ento falla, _ventre-saint-gris_! bradou Roberto Soares.

--_Ventre-saint-gris_ no  da edade mdia, sr. Roberto Soares, disse o
doutor Macedo que j erguera as mos para bater as palmas pela terceira
vez, e que tirou tranquillamente um charuto da algibeira.

--Uma corda! bradou Henrique Osorio.

--E um algoz de boa vontade! exclamou Lucio Valena.

-- ordem! acudiu logo o visconde da Fragosa.

Ento, o doutor Macedo, com o charuto ainda no acceso nos dentes, bateu
as palmas, e disse:

--Tres!

Estabeleceu-se um profundo silencio.

--A lenda que tive a honra de submetter  apreciao de vv. ex.^{as},
concluiu o doutor, foi escripta pela ex.^{ma} sr.^a D. Leonor de Mattos
e Vasconcellos, filha do nosso excellente amigo, visconde da Fragosa.

--Tu, Leonor! exclamou Henrique Osorio estupefacto.

--Tu, filha! disse a viscondessa com os olhos rasos de agua.

--Eu logo vi que tinha sido ella, exclamava o pae todo ufano.

Confusa no meio de todos os comprimentos, com que em todas as familias
se festejam as mais insignificantes estreias litterarias do filho mimoso
da casa, Leonor nem ousava erguer os olhos para Henrique. Este
contemplava-a pasmado, depois mirava a furto Isaura, um pouco fria, um
pouco descontente com a ovao da sua _amiga_, e evidentemente de si
para si lamentava que no fosse a pallida menina a sonhadora das
phantasias da _Egreja profanada_.

Mas tambem, quando tornava a mirar Leonor, e a via modesta, perturbada,
evidentemente envergonhada de ser o alvo de todas as attenes, agora
mil vezes mais affavel com Isaura do que at ahi, como que pedindo-lhe
perdo do seu involuntario triumpho, Henrique no podia deixar de dizer
de si para si que havia um abysmo entre a pretenciosa frivolidade de
Isaura e a desaffectada simplicidade de Leonor, que bem se via que no
dava ao seu conto maior valor do que elle merecia, e que, escrevendo-o,
parecia ter querido mostrar apenas que no era estranha s altas
preoccupaes do espirito, e que a sua phantasia tambem tinha azas para
se arrojar ao mundo do ideal.

E, emquanto a conversao volteiava alegremente em torno do conto de
Leonor, emquanto uns narravam os calafrios que tinham sentido, e outros
felicitavam o leitor e a auctora, Osorio, encostando a fronte na mo,
ficou profundamente pensativo.

Instantes depois, dispersava-se a companhia, e Leonor, passando junto de
Henrique para se retirar para o seu quarto, sentia poisar na sua mo,
para a demorar, a mo tremente do seu companheiro de infancia.

Ella estremeceu toda, como se se tivesse posto em contacto com uma
garrafa de Leyde.

--Sabes, disse-lhe elle, que achei encantador o teu conto?

--Sabes que te no acredito? respondeu ella, rindo, e j senhora de si.

--Oh! eu no fao a critica litteraria do romance.  provavel que tenha
innumeros defeitos. Digo-te apenas que me impressionou. Quando o
escreveste?

--Hoje!

--Hoje? acudiu elle cravando em Leonor um olhar profundo.

--Sim, tornou ella com o corao a bater-lhe violentamente, crada at 
raz dos cabellos, mas resoluta, quiz-te mostrar que j passou para mim
o tempo das bonecas, e que o que me preoccupa o corao e o espirito no
so j as puerilidades dos nossos brinquedos de outr'ora, mas os
affectos e as paixes da mulher.

Henrique apertou-lhe docemente a mo.

--Foi por minha causa, pois, que espertaste a phantasia, para escreveres
essa lenda? Tive eu a ventura suprema de preoccupar devras o teu
espirito intelligente? de fazer pulsar com mais fora o teu ingenuo e
nobre corao?

--Henrique! murmurou ella.

--s um anjo, Leonor! disse elle em voz baixa.

O doutor Macedo encaminhava-se para onde estavam os dois. Leonor
despediu se, e toda palpitante de commoo e... dil-o-hemos...
tambem!... de alegria, dirigiu-se para o seu quarto.
O doutor Macedo sorriu-se para Henrique, e murmurou maliciosamente:

    Si je vous le disais pourtant que je vous aime,
    Qui sait, brune aux yeux bleus, ce que vous en diriez?

--O que! era esta, doutor? exclamou Henrique.

--Pois quem, meu creanola?  necessario ter a myopia amorosa dos vinte
annos para o no perceber ha immenso tempo.

--Que quer voc, Macedo! tornou Henrique, Leonor foi minha companheira
de infancia. Havia entre ns, em creanas, uma certa desproporo de
edades. Entre dois pequenitos uma differena de cinco annos abre um
abysmo! Na mocidade  um curtissimo intervallo. Costumei-me a vr sempre
em Leonor uma creana. A mulher feita revelou-se me agora, ao ouvir lr
o conto que ella escrevra. Ento contemplei-a, e li nos seus formosos
olhos a bondade da sua alma, e a virgindade do seu affecto. S agora
percebi o tremor da sua voz nas palavras que me dirigia! E eu passava
junto d'ella quasi sem a conhecer!

--Meu amigo, tornou Macedo, isso  uma historia vulgar. Tem a gente ao
p da porta um lago tranquillo, risonho, crado pelo esplendor do sol,
nunca se lembra de mergulhar n'essas aguas limpidas para colher a perola
que l brilha no fundo, vae procural-a ento ao mar das tempestades,
mergulha, e encontra ostras. Boa noite, meu amigo.

E dirigiu-se para o seu quarto. Henrique imitou-o, mas n'essa noite no
dormiu. A imagem que fluctuava diante dos seus olhos semi-cerrados, no
era, no, a pallida imagem de Isaura.

       *       *       *       *       *

Devemos dizer que na noite immediata, esqueceu completamente a hora
fatidica, e que tendo Lucio Valena pedido a palavra s dez horas e meia
da noite, allegando que era longo o seu romance, que, sendo phantastico,
por isso que o personagem principal era um ente inanimado, tinha comtudo
uma pequena parte propriamente legendaria, e que portanto podia comear
a ser lido antes da meia noite; acolhe-se com applauso esta ida, e
Lucio Valena comeou logo depois do ch a leitura do seu volumoso
manuscripto. O doutor fizera uma careta ao avaliar o numero de paginas
que ia ter que ouvir; Henrique Osorio e Leonor, enlevados nas douras de
um amor nascente, no tendo olhos seno um para o outro, amaldioavam a
leitura que os ia privar de algumas horas de doce conversao; Isaura,
despeitada, furiosa por ter visto fugir-lhe um dos seus vassallos, e
mais furiosa ainda por lhe falharem todos os manejos que empregava para
reconquistar o inconstante, que tratra com to soberbo desdem quando o
tivera nos seus ferros, dirigira de pura colera as suas baterias para
Lucio Valena, e preparra-se portanto para ouvir o conto com a mais
profunda atteno.

O visconde da Fragosa, o conselheiro Madureira e um honrado e silencioso
proprietario de Val de Prazeres, que vinha completar a partida do
visconde, no abandonaram sem um suspiro o _boston_. Resignaram-se,
porm, e Lucio Valena, presentindo vagamente a hostilidade do
auditorio, comeou com voz no muito firme a leitura do manuscripto, que
se intitulava _Memorias de uma bolsa verde_.




MEMORIAS D'UMA BOLSA VERDE


I


Um dia fra eu assistir, por curiosidade, a um leilo que se fizera em
casa de uma rica viuva que fallecra. Os parentes, apressados em se
desfazerem de todos esses moveis, que para elles no tinham valor algum,
abriram o leilo apenas se fechou a campa que ia encerrar a pobre
finada. O que importavam aos herdeiros esses pobres livros, por exemplo,
sobre os quaes se debrura tantas vezes a fronte encanecida da viuva,
esses mysteriosos confidentes dos seus pezares e das suas saudades,
cujas paginas teriam sido regadas com tantas lagrimas, e que tantas
vezes teriam repousado sobre os seus joelhos tremulos, quando ella,
interrompendo a leitura nocturna, fitasse os olhos humedecidos no sitio
onde seu marido se costumava sentar, a lampada a cuja doce luz tinham
tantas vezes travado uma d'essas deliciosas conversaes intimas,
tornadas mais suaves ainda pelo conchego do lar, e pelo prazer de sentir
a chuva bater nas vidraas, e o vento gemer de caixilhos das janellas?
Que significao tinham essas coisas para os corvos vidos, que esperam
anciosamente que o corpo se transforme em cadaver, para descerem em
bandos a saciar a fome impaciente? E quem sabe se, reunidos em volta do
leito mortuario, no miravam com os olhos affectadamente compungidos,
onde brilhavam algumas lagrimas de conveno, os trastes do quarto, e os
proprios lenoes que agitava o estertor da moribunda? Quem sabe se elles
no estariam j calculando o valor approximado d'esses objectos? Ai!
todo o anjo, que baixa a este mundo, tem um demonio que lhe espia os
passos, que o segue cautelosamente sorrindo com um sorrir diabolico, que
esconde na sombra projectada pelas azas brancas do habitante do co as
negras azas do habitante do inferno, e que, apenas aquelle acaba de
cumprir a sua misso divina, comea a cumprir a sua misso infame, e a
desfazer por todos os modos o effeito salutar produzido pela candida
appario.

Aps o anjo do amor vem o demonio do ciume, aps o anjo da caridade o
demonio da ingratido, aps o anjo da morte o demonio da cubia.

Morre uma creatura boa, pura, santa; vem um anjo de Deus cerrar-lhe os
olhos, e levar para os cos, no regao da sua tunica transparente, o
espirito immaculado que se desprendeu do invlucro terreno. No rosto do
cadaver, sereno e tranquillo, fica como que um reflexo do claro que
derramaram sobre elle as azas luminosas do Senhor. Nada mais proprio
para inspirar respeito do que essa morte socegada, to socegada como a
de um passarinho que esconde sob a aza a gentil cabecinha. Uma suave
compunco se apodera do animo de todos os circumstantes. Ninguem ousa
perturbar o magestoso silencio da camara funeraria; todos temem profanar
a augusta santidade d'aquella scena. Mas o demonio da cubia l estava
espreitando  porta com o seu olhar de tigre. Assim que o anjo bateu as
azas, entrou p ante p, debruou-se sobre todas as frontes pendidas,
bafejou-as com o halito repugnante, e logo todos se ergueram
apressadamente, e trataram de fazer desapparecer o cadaver, de annunciar
o leilo, de preparar tudo para se reduzir a dinheiro, e para se fazerem
as partilhas.  preciso tratar da vida, dizem elles. Regateiam-se as
despezas do enterro, e, para se resarcirem d'ellas, no conservam um
unico objecto, por mais desprezivel que seja o seu valor. Ahi tem pouco
mais ou menos a scena horrenda que precede um acto to natural como  um
leilo.

Por isso eu sempre resinto uma impresso desagradavel, quando me vou
confundir com a multido de compradores que penetram, com to pouco
respeito, n'esses quartos outr'ora to socegados, agora to ruidosos.

No dia em que assisti ao leilo em que fallo, occorreram-me estas idas
que acabo de expender.

J se tinha vendido a maior parte da mobilia. Os sophs, as mezas, as
cadeiras, os livros, tudo se dispersra j. O pregoeiro continuava a
fazer apparecer os differentes lotes, e, com o ouvido  escuta, repetia
machinalmente os lanos dos circumstantes com uma rapidez, e com uma
segurana taes, voltando a cabea ora para um lado, ora para outro, que
pareceria ser antes machina do que homem, se no fossem as chalaas com
que entremeiava o seu prego monotonamente saltitante (se assim me posso
exprimir). Eu estava encostado a uma porta, e contemplava com certa
tristeza aquelle grupo, em que figuravam os rostos indifferentes dos
compradores, as physionomias vidas dos herdeiros, e a cara
maliciosamente alvar do pregoeiro, pago para alegrar a assembla com os
ditos joviaes que tinha fabricado, e que provavelmente j lhe teriam
servido para dezenas e dezenas de leiles d'aquella especie.

Finalmente appareceu um objecto, cuja _exhibio_ (perdem o anglicismo)
foi acompanhada com um commentario burlesco do pregoeiro, e acolhida por
uma gargalhada da assembla.

Era uma bolsa de seda verde com borlas de oiro. Mas que bolsa, senhores!
Era necessaria toda a cortezia do pregoeiro para conservar esse nome a
um objecto que j no tinha frma! Era uma bolsa de cabellos brancos!
Rota, esburacada, sem cr definida e em cujas borlas o oiro brilhava...
pela sua ausencia! O pregoeiro passeiou-a triumphantemente por diante de
todos, e todos se riam, e todos zombavam, e todos faziam uma observao
que redobrava as gargalhadas.

Finalmente o pregoeiro passou por diante de mim, e mostrou-m'a. Foi
ento que eu a pude vr bem.

Se a podessem vr como eu a vi, haviam de se compadecer d'ella. No meio
da alegria geral, que a rodeiava, ella s parecia chorar, e conservar
uma triste recordao d'aquella de quem todos se esqueciam! Se a
podessem vr como eu a vi, baloiando-se tristemente na mo grosseira
d'aquelle homem que a estortegava, apertando os seus frageis
membrosinhos de seda! E a pobre bolsa parecia olhar com uma tristeza
profunda para todos aquelles rostos crueis, em que a zombaria se
pintava, e de cada um dos rasges que tinha aberto no seu corpinho,
d'antes to gentil, a mo destruidora do tempo, parecia sair um gemido.

Que profunda impresso me causou o seu aspecto!

Talvez os meus leitores chegando a este ponto, se riam de mim. Pois no
tem raso! Eu acredito que os objectos inanimados, que nos rodeiam,
recebem de ns como que um reflexo de sensibilidade. Quando morre uma
pessoa n'uma casa, no vem como tudo toma um aspecto luctuoso? A sala,
em que tantas vezes estivemos ss em quanto essa pessoa vivia, tinha por
acaso o silencio lugubre que lhe notamos apenas ella deixa de existir?
Os livros, cuja leitura desperta em ns o enthusiasmo, sero
simplesmente mudos reproductores dos pensamentos do escriptor, e no
conservaro como que o vestigio do talento, que por intermedio d'elles
se manifestou? E qual ser o motivo d'essa inexplicavel affeio que ns
consagramos a certos moveis queridos? do pesar que sentimos ao vrmo-nos
obrigados a abandonal-os?

Quando alta noite acordam, e, sem poderem conciliar o somno, ficam
deitados de olhos abertos a contemplar as trevas, e a escutar o
silencio, no sentem de repente um indizivel murmurio, e umas
inexplicaveis luzes encherem o quarto e rasgarem a escurido? Como
explicam isso? Eu creio firmemente que esse ruido, que se no ouve
quando no estamos n'essas circumstancias,  o que produzem as
mysteriosas conversaes dos espiritos invisiveis que existem escondidos
em cada um d'esses moveis, e que alta noite se reunem, para segredarem
uns com os outros, e que esse tenue fulgor  resultado do scintillar das
pequeninas azas d'esses sylphos subtis.

Quer me acreditem, quer no, o que eu lhes posso assegurar  que a tal
pobre e velha bolsa verde, quando viu a minha physionomia sria no meio
de tantos rostos zombeteiros, lanou-me um olhar supplicante a pedir-me
que a livrasse d'aquella triste posio.

E o caso  que a comprei, com grande espanto de todos os circumstantes,
que principiaram por olhar para mim com uns olhos muito abertos, e que
concluiram por sorrirem uns para os outros, dando a entender que me
julgavam doido. O pregoeiro entregou-me a bolsa, e recebeu o dinheiro,
tendo cuidado de interpr, como se fosse por acaso, uma cadeira entre
ns ambos, com receio que me d'sse alguma furia.

Escuso de dizer que ninguem me disputou o lano. Nem mesmo esses
agentes, que tem, em giria de leilo, o nome expressivo de _picadores_,
ou, por abuso de metaphora, de _toireiros_, ousaram erguer a voz para
m'a fazerem pagar mais caro.

A surpreza emprestra-lhes um bocadinho de consciencia.

Pois o que  certo  que eu comprei a bolsa, e sa com ella muito ancho,
sem me importar com as largas alas que me abriam as pessoas presentes,
imitando a prudencia do que m'a vendra.

E, como eu passo a mostrar-lhes, no tive motivo de me arrepender.


II


Era uma noite de maio. Eu estava sentado  meza do trabalho. Um caderno
de papel, ainda virgem de letras, estendia-se diante de mim aterrador na
sua alvura, que me advertia mudamente da obrigao que eu tinha
contrahido de a fazer desapparecer debaixo de uma alluvio d'esses
monstrosinhos negros, que se chamam letras, que, amontoando-se umas em
cima das outras, formam as palavras, essas mysteriosas colmeias, dentro
das quaes se agita o candido enxame das idas. O tinteiro, boquiaberto,
no cessava de me mostrar o oceanosinho sombrio que tumultuava dentro de
seus vitreos muros. A penna, debruando se sobre esse mar tenebroso,
contemplava-o com indifferena, preparando-se para o sulcar
atrevidamente, quando eu julgasse opportuno comear a navegao.

Uma janella aberta oppunha aos meus designios um obstaculo insuperavel.

Uma janella aberta?--diz o leitor; porque a no fechava?

O leitor de certo se no recorda de eu lhe ter dito que estavamos em
maio.

Fechar uma janella quando a fada da primavera percorre as urnas das
flres, colhe todos os aromas que encontra, e vae espalhal-os
prodigamente no regao das brisas, que doidejam depois na atmosphera,
alegres como as creanas folgazs que correm na campina com as suas
arregaadas de flres! Fechar uma janella! E porque no fecha o leitor
os ouvidos quando est escutando uma melodia de Bellini, e os olhos
quando est vendo um quadro de Raphael?

Eu, com um charuto na bocca, docemente recostado na minha cadeira,
aspirava os perfumes do ambiente, sem me importar com as provocaes do
papel, com as agitaes da tinta, e com as suggestes da penna. Devo at
dizer, para ser completamente veridico, que me deliciava em desprezar
tudo isso.

_Fi donc!_ Um escriptor!

Eu queria vl-os no meu logar! Uma larangeira a enviar-me perfumes
perfidos, e, quando me via prestes a estender a mo para a penna, a
baloiar-se sem piedade, e a remetter-me directamente nas azas da
virao uma taa inebriante, cheia a trasbordar dos seus effluvios! E um
rouxinol, um travesso rouxinol, muito escondido n'uma alcovasinha de
folhas, que o demonico da laranjeira lhe tinha arranjado de proposito
para acabar de me tentar, a desentranhar-se em melodias que era um
enlvo escutal as! Sem fallar n'umas roseiras, que a pretexto de serem
_dilletanti_, e de serem impellidas pela aragem, prepassavam por diante
da minha janella para ouvirem mais de perto aquelle Tamberlik plumoso!
No mettendo em linha de conta a lua, que se ria no co a bandeiras
despregadas, escancarando com os frouxos de riso umas nuvens teimosas,
que por fora queriam esconder-lhe as perolas que ella com as
gargalhadas mostrava  natureza, e que tinha a innocente vaidade de
contemplar espelhadas nas fontes! Vo l, com tudo isto, debruar-se
sobre um caderno de papel e escrever!

Escrever; mas escrever o qu? Um romance de amores?! Um poema?! Romances
e poemas tinha eu na imaginao, sublimes, portentososos, admiraveis,
como todos os tem, e como ainda ninguem os escreveu.

Se elles se desprendem, capitulo a capitulo, estrophe a estrophe, e vo
fluctuar na atmosphera de envolta com os perfumes da rosa, com os
canticos do rouxinol, e com os raios da lua!

E, apesar d'isso, no deixam que outros, que se possam entornar sobre o
papel, nos occupem ao mesmo tempo a imaginao.

Assim estava eu, torturando o espirito para obter uma ida, e
encontrando n'elle mundos de poesia, no digo bem, um chaos de poesia,
cujo _fiat lux_ eu nunca poderia descobrir.

De vez em quando revestia-me de animo, e tentava levantar-me para ir
fechar a janella! Mas a larangeira baloiava-se e deixava cair uma chuva
de perfumes, o rouxinol redobrava de gorgeios encantadores, os ramos da
roseira prendiam-se, ao perpassar, no parapeito da janella, e deixavam
ficar as suas rosas de cem folhas, purpureas e embalsamadas, a mirarem
curiosamente o meu quarto; a lua desprendia indolentemente dos hombros o
seu manto de luz, arrastava-o no firmamento, e eu caa desanimado na
cadeira.

De repente senti aos meus ouvidos uma voz ligeira como um murmurio, que
me fallava n'uma linguagem desconhecida, mas que eu, por uma intuio
inexplicavel, comprehendi immediatamente.

Voltei-me, e com grande pasmo, vi a bolsa verde em cima da meza.

Era ella quem me fallava.

--Amigo, dizia-me a velha bolsa, tu valeste-me n'uma grande afflico, e
 justo que tenhas a recompensa. Queres escrever? A tua imaginao
preguiosa, enervada pelos effluvios d'esta noite de primavera,
recusa-se a dictar-te o que deves lanar no papel? Eu substituirei a tua
imaginao. Pega na penna, e escreve o seguinte no alto d'essa pagina
branca: _Memorias d'uma bolsa verde_.

Eu, estupefacto, obedeci machinalmente, e ahi vo vr os meus leitores o
que a pobre bolsa velha me dictou. Desculpem os erros do auctor. No ha
nada que se parea menos com um litterato do que uma bolsa. A raso 
muito simples. A bolsa tem muitas vezes dinheiro, e um escriptor...
Vamos ao assumpto.


III


Gira, gira, agulha ligeira, impellida por mo to delicada. Cinge a
fragil seda em suave abrao, enlaa os tenues fios uns aos outros, e
prepara esse corpinho gentil, a quem ha de o amor dar vida.

O amor, sim. No vs a loira cabecinha do anjo de meigo sorriso,
debruando-se por cima do hombro da tua formosa dona, a contemplar
curiosamente os teus rapidos movimentos?

Gira, gira, os instantes so preciosos, e pde subitamente chegar quem
transtorne a surpreza to cuidadosamente preparada! Gira, gira sem
cessar, agulha, agulha subtil.

Que suave serenidade transparece no limpido olhar d'aquella cuja mo
febril te dirige! Quando um sorriso anima a graciosa physionomia,
contempla-se com enlvo o co azul que lhe ri nos olhos, e as perolas,
que os labios entre-mostram! A quem fr perspicaz tambem esse sorriso
mostra a alma, que  mais celestial do que o olhar, mais candida do que
as perolas da boquinha.

Mas a esse limpido firmamento doira-o agora o sol de um affecto suave,
cujo brilho no  offuscado por nenhuma nuvem. Os seus raios aquecem-lhe
o corao, e alegram-lhe ao mesmo tempo todos os horisontes da vida.

Porque vem misturar-se, comtudo, uma inquietao febril com o
sentimento de felicidade que lhe anima as feies? Oh! no receieis
nada! Essa mesma inquietao  um prazer. Teme no ter completo o
presente que desejava offerecer a seu marido, que fazia annos n'esse
dia.

E por isso a agulha girava, girava com impetuosidade, e os fios de seda
agrupavam-se com uma ligeireza inconcebivel!

Est a concluir-se a tarefa. A agulha approxima-se do sitio marcado. Um
mate, um mate risonho l surge no horisonte. Apressa-te, agulha, faze
prodigios de celeridade. Emfim!

Dera-se o mate. As doiradas borlas pregaram-se instantaneamente. Eil-o,
o gentil producto de oito dias de trabalho! A formosa senhora
contempla-o com ternura. O amor sacode o regao cheio de perolas, e em
cada ponto faz pullular mil pensamentos apaixonados.

O ente, que nascera, era nem mais nem menos do que esta humilde bolsa
verde que lhe est dictando essas linhas, senhor mandrio.


IV


Quando cheguei a este ponto interrompi eu a bolsa.

--Minha senhora, observei com a respeitosa cortezia que um escriptor
consagra ao narrador officioso que lhe conta uma historia, v. ex.^a tem
fallado at agora n'uma linguagem que me tem penetrado de admirao,
porque me parece biblica, e o emprego d'esse estylo  muito para
apreciar n'uma bolsa que no foi contemporanea de Isaias. Mas se v.
ex.^a antes de nascer falla n'esse tom, receio muito que, se continuar
na ascenso, quando chegar  velhice, j os leitores, ainda que se
mettam no balo de Nadar, no sero capazes de a seguir com a vista
n'essas espheras inaccessiveis. Pedia, portanto, a v. ex.^a o favor de
baixar o vo  terra, algumas vezes, afim de que os nossos leitores
percebam alguma coisa do que se fr passando, sacrificando por
conseguinte o diploma de socia da academia... do amphiguri, que, segundo
me parece, est em caminho d'obter. Desculpe-me esta ligeira observao.

A bolsa olhou para mim com modos um tanto severos, e respondeu:

--Admiro-me bastante de tu te queixares. Sabe que nem cheguei a dar-te
uma ligeira amostra do estylo pomposo que eu deveria empregar, e que te
poupei o prologo obrigado que precede l entre vs outros, os homens, a
magra biographia d'aquelles, a quem nomeaes grandes, com a mesma
convico com que os antigos romanos faziam a apotheose dos Tiberios e
dos Caligulas. J vs que a rajada vae comear, e que se me excitas
mais, bailam-te no meu discurso gregos, assyrios, indios e hebreus. Mas
voltemos ao que importa. Em logar de te queixares, devias-me agradecer o
eu no ter dito uma palavra s cerca do estado da Europa na epocha do
meu nascimento, nem de ter fallado nos grandes homens que se agitavam no
mundo, em quanto a minha gentil creadora unia uns aos outros os fios que
me haviam de formar. Podia fazer-te gastar com estes preambulos dez
paginas, pelo menos. No o fiz, e tu accusas-me! Para te castigar no
devia dizer nem mais uma palavra.

--Oh! por amor de Deus, continue v. ex.^a como quizer; estou prompto a
admirar tudo quanto eu no entender, nem v. ex.^a tambem. Estou
esperando.


V


Nasci, continuou a bolsa, e a minha vista no encontrou nada que a
ferisse, nada que lhe repugnasse no quarto onde eu viera  luz. No movel
mais insignificante se denunciava a riqueza e bom gosto dos donos da
casa. Eu repousava mollemente no collo da minha dona, e os meus membros
recem-nascidos sentiram logo o suave contacto da seda. Um alegre raio de
sol entrava pela janella, acariciava o meu corpinho verde, e fazia
resplandecer as minhas borlas doiradas. As agulhas repousavam ao meu
lado, contemplando curiosamente a obra prima que tinham acabado de
produzir. A gentil habitante do quarto beijava-me carinhosamente e,
beijando-me, murmurava estas palavras que eu conservei de cr:

--Vae, pobre bolsinha, repousar sobre o corao d'aquelle a quem tanto
amo. Conserva a impresso dos meus beijos, e, quando elle te approximar
do rosto, oh! anima-te, por um milagre de amor, e s tu a mensageira
d'estes osculos que eu te confio. Dize-lhe, conta-lhe que em segredo
trabalhava em te fazer _coquette_, elegante, para seres digna d'elle.
Olha, l bem no fundo do meu corao, para poderes narrar ao meu esposo
os thesouros de affecto que em mim se abrigam. Vae, e Deus queira que
elle te ache a seu gosto, e te faa um bom acolhimento.

N'este momento um rapaz, cujo labio superior era levemente assombreado
por um bigodinho nascente, entrou, e, dirigindo-se  minha dona,
beijou-a com ternura.

--Que deliciosa bolsinha tu tens no collo!--disse-lhe elle. Foi
presente ou compra?

--Agrada-te?--tornou ella, contemplando-o meigamente.

--Acho-a lindissima.

-- tua.

--Minha?

--Tua, sim. No te lembras que dia  hoje? Completas vinte e dois
annos. Trabalho ha oito dias a furto para te dar este presente.
Sorria-me ssinha, quando pensava na surpreza que te ia causar, quando
te dsse a bolsa, e, saltando-te ao pescoo, te dissesse
alegremente:--Ahi tens um presente da tua querida mulher,  para vres
que pensa sempre em ti.--E ento agora no mereo um beijo em paga?

E a galante senhora, unindo a aco  palavra, tinha-se pendurado no
pescoo de seu marido, e contemplava-o com olhos humidos de ternura.

Elle estreitou-a meigamente, e disse-lhe ao ouvido baixinho, e
beijando-lhe os cabellos:

--Amo te, meu anjo da guarda! Amo-te e sou feliz, feliz com o teu amor.

--E isso  dito com sinceridade?--perguntou ella, sorrindo, travssa.

--No sou eu quem falla,  o corao.

--Sim? Sobre esse corao  que eu quero que esta bolsa ande sempre!
Advirto-te que tenho dentro d'ella um genio familiar que me obedece, que
ha de lr atravez do teu peito, e que me ha de vir contar os segredos
que tu julgares mais reconditos. Acceitas?

--Que remedio, meu anjo! Venha esse gentil espio, cuja cr me anima
j, porque  a cr da esperana. Hei de lhe dar o observatorio mais
commodo que o meu casaco lhe podr proporcionar; telescopios no devem
ser necessarios a quem possue a vista subtil dos espiritos. Mas por
cavilloso o declaro, se elle descobrir no meu corao outra estrella que
no seja a tua imagem.

--No gsto da comparao; as estrellas so sempre offuscadas umas
pelas outras.

--Mesmo quando essa estrella se chama _Venus_?

--Viva! O meu maridinho a fazer madrigaes! Queres que eu continue no
mesmo tom? Dir-te-hei n'esse caso que a Venus, mais do que a qualquer
outra, succede o que acabei de dizer.  tarde vem a lua offuscal-a, pela
manh o sol.

--No, minha querida, no succeder assim comtigo. Sempre viva, sempre
pura a tua imagem resplandecer no meu peito.  isto o que a tua bolsa
te ha de dizer constantemente.

--Querido Eduardo!

--Querida Camilla!

--Amo-te!

--Adoro-te!

E foi assim que eu passei das mos da loira Camilla para as mos do
moreno Eduardo.


VI


No tive raso de queixa. O meu dono trazia-me nas palminhas. Quando
saa occupava sempre um logar de honra na algibeira do casaco, e alli ia
eu, sentindo pulsar o corao de Eduardo, regalando-me, porque estavamos
no inverno, de caminhar bem abafadinha e conchegada, em quanto muitas
das minhas irms estariam talvez tiritando de frio nas algibeiras rotas
dos seus possuidores. Que justo orgulho se apoderava de mim, quando
Eduardo, sacando-me negligentemente para fazer alguma compra, me
collocava em cima do balco; como todos olhavam cubiosamente para as
minhas frmas arredondadas, e que bello effeito que eu produzia com as
libras que fulgiam atravez dos intersticios da seda.

Nunca me ha de esquecer a cara de piedade que fez a bolsa de um
empregado publico, a quem o acaso collocra junto de mim. Era uma
bolsinha de l, to magra, to magra, to escorrida que mettia d. Uns
pobres meios tostes escondiam-se envergonhados no fundo, e alvejavam
tristemente, aborrecidos da sua solido. A pobre bolsa olhou para mim
com uma certa inveja, e no me dirigiu palavra. O dono da loja
cumprimentou-me respeitosamente, e desviou com desdem a minha visinha.
Ella no ousou protestar, e pz-se de parte, esperando que eu me
dignasse voltar ao meu alojamento ambulante! E eu ria-me e pavoneava-me
toda ufana! Mal sabia que ainda havia de passar pelas mesmas
humilhaes!

E o caso  que eu suppunha que todos esses cumprimentos eram devidos 
minha gentileza,  formosura da minha cr! E Eduardo julgava egualmente
que era a influencia, que a sua pessoa exercia, a causadora das
humilhaes, do servilismo que o rodeavam! Eduardo attribuia a si o que
a mim era devido. Eu attribuia a mim o que era devido s libras que eu
abrigava, e as libras tambem attribuiram a si o que se devia
simplesmente  somma de gzos que ellas proporcionam. Todo o homem se
adora a si mesmo nos objectos perante os quaes se curva. O eu  o
idolo constante da humanidade. O egoismo  o seu unico motor.

E n'este ponto a bolsa philosophica soltou um profundo suspiro.

 noite, continuou ella, repousava dentro da gaveta de uma linda
secretria de pau rosa, e alli ficava at pela manh tagarellando com
umas cartas de amores, minhas visinhas, que me contavam os mil
deliciosos segredinhos que lhes tinham sido confiados; e n'esta doce
pratica voavam para mim as lentas horas da noite.

Comtudo, eu comeava a presentir o meu futuro destino. Eduardo era o
que vulgarmente se chama uma cabea de vento. Frequentes vezes, e com as
melhores intenes d'este mundo, se esquecia de mim, e me deixava ficar
 noite em cima da meza, em vez de me conduzir  minha deliciosa alcova
da secretria.

Uma vez, tendo acabado de fazer umas compras, deixou-me em cima do
balco. No posso explicar a impresso dolorosa que senti quando o vi
desviar-se distrahidamente, e quando reparei, olhando em torno de mim,
nos vidos olhares dos caixeiros. Segui-os tristemente com a vista, e j
me ia a despedir d'elle para sempre, quando Eduardo, chegando  porta,
mostrou recordar-se de alguma coisa, e, voltando se precipitadamente,
correu ao balco. Deu logo com a vista em mim, que estava toda tremula
de alegria, e, beijando-me fervorosamente, escondeu-me no seio.

Infelizmente nem sempre lhe succederia isso.


VII


Uma vez (sempre me hei de lembrar d'este dia nefasto) Eduardo, estando
a fazer umas contas, tirou me da algibeira e pz-me em cima da
secretria. Depois, a pouco e pouco, foi amontoando os papeis em cima de
mim, de frma que eu j parecia um pobre Encladosinho de seda, debaixo
de um Etna de papelada.

Quando acabou o que tinha que fazer, Eduardo levantou-se, e, como
estivesse tocando a sineta para o jantar, foi para a meza e no se
lembrou mais da pobre bolsa.

Por infelicidade, na vespera, tinham os donos da casa recebido a visita
de uma joven viuva, muito galante, muito _coquette_, e que parecia
desejar jungir ao seu carro de triumpho o marido de Camilla, sobre quem
no se cansava de experimentar o effeito dos seus olhares cheios de fogo
e de estrategia. Eduardo, como podem imaginar, nem reparra em
semelhante coisa; porm sua esposa, com a perspicacia de mulher,
adivinhra tudo, e sentira o ciume, no digo bem, o despeito apoderar-se
d'ella. No sei a que proposito, Eduardo me fra buscar, e a joven viuva
mostrou desejo de me vr. Eduardo entregou-me cortezmente nas mos da
baroneza (a viuva era baroneza) e os dedos involuntariamente encontraram
os dedos da gentil _coquette_. Um raio de indignao fusilou nos olhos
de Camilla, a baroneza sorriu-se, Eduardo ficou impassivel, e eu previ
uma proxima tempestade.

Por isso, e apesar da mo da baroneza ser to delicada e macia como a
da minha creadora, apesar dos elogios que ella me prodigalisou, eu no
fiquei satisfeita seno quando me vi livre da sua analyse.

Mas d'esta vez foi a mo de Camilla quem me recebeu. Rapidos como o
relampago, os dedos elegantes, que me tinham lanado ao mundo,
adivinharam, antes d'ella a executar, a teno que a baroneza formra de
me entregar ao meu dono, e apressaram-se em preceder a mo solicita de
Eduardo.

Devo confessar que, desde essa visita fatal, o bom humor de Camilla
alterra-se sensivelmente, alterao cujas consequencias Eduardo soffria
com grande pasmo seu. No podia comprehender o azedume que sentia em
todas as palavras de Camilla, e, muitas vezes, espreitando pelo buraco
da fechadura da minha gaveta, o vi de pernas cruzadas, e em attitude
meditativa, perguntando a si mesmo quaes seriam os dabos azues que
atormentavam sua esposa, e a elle por conseguinte.

Depois de jantar, os dois esposos vieram tomar caf para o sitio onde
eu estava; a conversa que se travra entre elles affrouxava a cada
instante, porque os esforos que Eduardo fazia para a sustentar eram
completamente infructiferos, por causa da sequido das respostas de
Camilla.

Acabaram de tomar o caf, e Camilla foi encostar-se  janella.

--Est uma tarde to bonita!--disse Eduardo, no queres aproveitar este
lindo dia de inverno para ires vr os campos, que esto experimentando
j os mantos verdejantes com que ho de comparecer na festa annual da
primavera?

--Est estragando comigo a sua poesia, respondeu Camilla seccamente,
guarde-a para as pessoas que quizer deslumbrar. Isso era bom quando me
fazia a crte.

--E no sou eu sempre o mesmo, Camilla; deixaste tu um instante s de
ser a noiva gentil que eu adorei, que adoro, e que sempre hei de adorar?
No sou eu sempre o namorado solicito dos primeiros tempos? Isso, a que
se deu, por conveno, o triste nome de prosa do casamento, teve nunca
entrada nos nossos coraes?

--Ah! Ah! que differena! O que me dizia ento: Oh! nunca me hei de
separar de ti! Hei de estar sempre ao teu lado! Que valor tem o mundo
inteiro junto do teu olhar? E agora sae quando lhe parece, anda por
fra o tempo que quer, demora-se a conversar com os amigos; porque sua
mulher, essa no serve seno para estar n'um canto da casa,  espera que
o _senhor_ lhe faa a esmola da sua presena. No  porque eu me importe
com isso! Eu, sim! -me completamente indifferente! Nunca estou melhor
do que quando est longe de mim! Olhe, d'isso pde estar certo! Se
fallei, foi porque me enraiveceu a sua hypocrisia.

--Quanto s injusta, Camilla! Pois eu no desdenho tudo, tudo n'este
mundo para estar junto de ti; no prefiro a todos os vos divertimentos,
a todos os prazeres a nossa deliciosa intimidade? E, quando os meus
negocios me chamam fra de casa, no me affasto de ti to penalisado, e
no aproveito a primeira occasio de me desembaraar d'elles para correr
alegre, satisfeito, risonho, a abraar-te, a beijar-te, a testemunhar-te
o immenso e inalteravel affecto que te consagro?

--Negocios! que grandes negocios que tem! Quaes so elles? Talvez ir
visitar a baroneza!

Eduardo levantou-se, olhou fixamente para sua mulher, e disse:

--A baroneza! A baroneza, porqu?

--Foi a primeira pessoa que me lembrou, tornou Camilla, fazendo-se
ligeiramente crada.

--Nada! Isso  um tanto inverosimil.

--Inverosimil, porqu?--tornou Camilla, irritando-se e fazendo-se
vermelha de despeito. Talvez imagine que eu tenho ciumes do senhor. Que
vaidade to louca! que presumpo! Que fatuidade! Ora esta! como logo
suppz que eu era ciumenta!

--Mas, filha...

--Ciumenta e de quem? Ah! Ah! Ah!  de um ridiculo incrivel! No querem
vr o formoso Richelieu, que anda semeando paixes por toda a parte! E
julga talvez que eu me importo com semelhante coisa! Namore  sua
vontade! Faa o que quizer! Esteja certo que nunca me ha de dar cuidado!
convena-se... entendeu? Convena-se bem de que nunca tive ciumes do
senhor, porque eu nunca o amei. Foi uma predileco passageira! Foi um
capricho de que me arrependo!

--Parece-me comtudo, tornou Eduardo ferido no seu amor proprio, que a
unio eterna de duas pessoas no  coisa to ligeira que se possa
decidir levianamente, e, se no sentias por mim o amor immenso que eu te
consagrava, mais valia que me despedaasses o corao, do que me
dirigisses agora essas palavras amargas.

--Ento chegou o momento! Sempre fica sabendo que se enganou; quando
suppz que eu tinha ciumes da baroneza.

--Mas foi coisa em que no fallei, filha, bradou Eduardo um pouco
impacientado.

--Bem o deu a entender! No o disse, mas pensou-o. E ento escolheu bem
a pessoa que me poderia tornar zelosa! A baroneza, uma tola presumida,
uma _coquette_ insupportavel, que no tem nem belleza, nem espirito, nem
graa, nem elegancia, mas que possue em compensao uma vaidade immensa.

--Pobre baroneza!

--Defenda-a, ande! ento porque a no defende?  o que lhe falta
unicamente! Ouse tomar, deante de sua esposa, o partido de uma mulher
como  a baroneza.

--Ih! Jesus! Camilla! Eu no tomo a defeza de pessoa alguma. Mas tu
fallas da pobre senhora, como se lhe tivesses um odio mortal.

--E tenho, bradou Camilla, erguendo-se com os dentes cerrados e os
olhos fusilantes, tenho odio a essas mulheres de maneiras affectadas, de
olhares languidos, de vistas fascinadoras, deslumbrantes na apparencia,
grosseiras na realidade, a quem os homens seguem tolamente, como as
borboletas seguem a luz, ainda que essa luz emane de uma candeia
afumada. Quando ella hontem quiz vr a bolsa que eu fizera, tive
tentaes de a rasgar, para lhe poupar uma profanao. E a proposito,
onde a tens tu?

Eduardo, ao ouvir esta pergunta, que parecia dever servir de transio
para uma conversao mais serena, comeou-me a procurar alegremente por
todas as algibeiras. O acaso fra-me collocar muito mirrada na
extremidade da secretria. No remexer dos papeis eu tinha quasi caido ao
cho; felizmente ou infelizmente, um resalto da secretria tinha-me
retido, e eu alli ficra suspensa por uma das borlas, estando esta de
mais a mais completamente occulta por um fragmento microscopico de
papel. Da posio em que eu estava, podia vr e ouvir tudo, sem que
ninguem me podsse divisar.

Quando Eduardo comeou a revolver as algibeiras no pude deixar de me
rir. Era to comico o espanto d'elle, quando, depois de ter
esquadrinhado minuciosamente todos os cantos do seu fato, no encontrava
coisa alguma, que eu, ignorando ainda quaes seriam as consequencias
d'aquella scena, ria-me a fartar.

Camilla contemplava-o com um sorriso ironico, e batendo o compasso com
o p no sobrado da sala.

--Talvez lhe esquecesse l por fra!--disse ella, accentuando muito as
palavras.

-- impossivel; lembro-me perfeitamente de a ter n'esta algibeira. J
depois de estar em casa eu a vi, e at lhe peguei.

--Talvez a tivesse confiado a alguem!--tornou Camilla com o mesmo
sorriso estereotypado nos labios.

--A quem?--perguntou Eduardo com a maior ingenuidade.

--Eu sei! A alguem que a visse, que gostasse d'ella, e que a desejasse
conservar por algum tempo.

--Ora essa! No pdes suppr que eu fizesse tal!

--E porque no? Os homens julgam que tudo lhes  permittido.

Mas Eduardo no a ouvia. Tinha-se recordado das contas que fizera, e
tinha corrido a revolver os papeis que estavam em cima da secretria.
Eu, que via a m figura que o negocio ia tomando, no desgostei de que
elle tomasse aquella resoluo.

Comtudo, debalde Eduardo deitou ao meio do cho toda a papelada com uma
impaciencia febril, debalde tentou, depois de os ter reunidos,
separal-os um a um. Eu no apparecia; preza na minha esquininha, sem
poder revelar por frma alguma onde estava, assisti, espectadora muda
mas no indifferente, quella caada frvida, em que tanto interesse
tinham em se encontrar a caa como o caador, mas que apesar d'isso
ficava sem resultado. Vi os papeis, impellidos pela mo de Eduardo,
revolutearem nos ares em torno de mim, senti a sua mo impaciente pousar
em cima das minhas borlas, sem saber que estava a meia pollegada de
distancia da extremidade dos seus dedos o objecto que tanto procurava. E
elle bafejava-me com o halito e no tinha um presentimento que o
advertisse, desviava com a mo tremula os papeis que me encobriam, e de
nenhum d'elles saia uma voz mysteriosa que lhe dissesse: Para
conseguires esse thesouro, que tu pagarias agora com dez annos da tua
vida, basta-te abaixar a cabea, e estender a mo.

Finalmente Eduardo, pallido, com a fronte inundada de suor, deixou-se
cair prostrado em cima de uma cadeira, e dirigindo-se a sua mulher,
disse com voz sumida:

--Creio que a perdi.

Camilla no se pde conter. As lagrimas, tanto tempo retidas,
rebentaram finalmente, e inundaram-lhe as faces.

--Era isso que eu esperava havia muito tempo, bradou ella com voz
entrecortada. Eis a resposta com que no s pagam a minha dedicao, mas
tambem com que pretendem illudir a minha boa f. Anda! trabalha com
amor, com alegria, despende n'essa pobre bolsinha thesouros de affecto,
sorri s ao pensares que essa obra das tuas mos vae ser a constante
companheira d'aquelle em que tu s pensas, por quem tu s vives, cuja
appario te enche de prazer, cuja ausencia te faz ficar immensamente
triste. Ai! quanto te illudes, pobre louca, esse teu mimo ha de ser
desprezado, porque tu tens esse titulo malfadado de esposa, e o amor
conjugal  uma coisa altamente ridicula. Acceitam com desdem o teu
presente, e vo depressa offerecel-o  primeira namoradeira que prender,
nas suas rdes vulgares, a ave fugida do ninho da familia, ninho cuja
priso lhe  insupportavel. Devia ser esta a minha sorte. Ninguem se
exime a ella.

--Ih! Jesus! Ih! Jesus!--dizia o pobre Eduardo com as mos na cabea;
mas, filha... eu sou um estouvado... a bolsa ha de estar por ahi... Da
nefanda traio de que me accusas  que sou completamente incapaz.

--Traio!--tornava Camilla procurando, sem o conseguir, conter o
pranto; pde-me trahir  sua vontade que me  completamente
indifferente. Engana-se se julga que eu d o menor apreo  sua
fidelidade.

--Mas n'esse caso porqu?

--Cale-se! Diga-me: zombaram bastante de mim? Riram-se das minhas
creancices? Quantas caricias lhe valeu esse sacrificio to pouco
custoso?

--Isto  demais! Juro-te...

--Cale-se. Quanto mais jura mais mente. Tambem me jurou amor eterno,
e...

E a pobre senhora desatou a soluar, e caiu sentada n'uma cadeira.
Eduardo, com as lagrimas nos olhos, ajoelhou aos ps d'ella, e exclamou
com voz commovida:

--Camilla, no chores que me despedaas o corao. Sou um grande
criminoso, mas no mereo castigo to cruel. Bem sabes que o amor que te
consagro  immenso,  exclusivo, e que, desde que te conheo, nunca mais
ergui os olhos para outra mulher. Camilla...

Mas esta levantou-se enxugando as lagrimas, e disse-lhe com modo
friamente desdenhoso:

--Aproveite a inspirao para algum arrufo que tiver com a baroneza.

E saiu da sala, deixando ficar o pobre Eduardo com um joelho no cho,
as mos erguidas, a bocca aberta, espantado, aterrado, paralysado,
petrificado, estupefacto!

Finalmente levantou-se, dirigiu-se de novo  secretria, e procurou
entre os papeis. Com o revolver caram alguns, e eu ca d'envolta com
elles; o acaso fez-me ainda ficar to mirrada entre duas folhas, que,
quando Eduardo veiu procurar ao cho, escapei com grande desespero meu
s suas pesquizas. Um tal accesso de desespero se apoderou do meu dono,
que, pegando n'um grande mlho de papeis, no meio dos quaes ia eu, sem
elle o saber, amachucou-o, e depois enraivecido, atirou-o pela janella
fra. O vento desfez o mlho, e n'este instante ouvi dois gritos, um de
Eduardo, outro de Camilla, que estava n'uma outra janella por traz dos
vidros.

O vento forte que soprava, tinha-me separado dos papeis, meus
involuntarios carcereiros, eu caa magestosamente isolada,  vista dos
dois conjuges, sobre as pedras da rua.


VIII


Nunca vim a saber o que se passra na casa, d'onde fra to bruscamente
e to involuntariamente expulsa! Apenas eu cara no cho, um gaiato de
p descalo, que passava por acaso, abaixou-se, apanhou-me, e largou a
correr, apertando-me nas mos, com uma tal velocidade, que, por mais
ligeiro que fosse Eduardo em me vir apanhar, logo percebi que no havia
esperana alguma de que o conseguisse.

A corrida era desenfreada. Apertada na mo callosa do garoto, eu,
habituada ao fino contacto das mos aristocraticas, que at ahi me
tinham manuseado, sentia dres atrozes, e uma profunda humilhao. Eu, a
favorita dos opulentos, tratada assim to irreverenciosamente por um
rapaz pertencente  escoria da sociedade! Ao meu passado de gavetas de
secretrias, de sophs, de divans, de tapetes, ia succeder um futuro de
palheiro, de calas esfarrapadas, de degraus humidos de escadarias. As
feridas abertas na minha pelle, to cuidadosamente curadas e
cicatrisadas pela minha senhora, iam agora ser abandonadas, e talvez
alargadas pelos dedos travssos do rapaz da rua. Tudo isto ia eu
pensando, em quanto o meu roubador corria a bom correr, primeiramente
pelas ruas da cidade, e depois j pelo campo.

Ninguem se tinha importado com elle. Um rapaz descalo  desfilada, no
 um caso to grave, e to raro, que os encarregados da policia
descessem da sua dignidade, para inquirirem o que motivra a carreira
despedida em que elle ia.

Chegou ao p de uma fonte, e, pensando provavelmente que j estava fra
do alcance dos seus perseguidores, entendeu que podia descanar. Por
conseguinte estirou-se em cima da relva, e tirando da algibeira um leno
muito esfarrapado, comeou a limpar o suor que lhe escorria pelas faces.

Estavamos j nos primeiros dias da primavera, e os campos revestiam-se
de um manto verdejante, que os malmequeres e as boninas esmaltavam. A
agua da fonte corria com um doce murmurio, e myriades de insectos com as
azinhas doiradas pelo sol, esvoaavam zumbindo pelo prado. O spro,
mysteriosamente vivificador da primavera, percorria a creao.

O meu novo possuidor deitara-se, como j disse, em cima da relva, e
collocra-me ao seu lado. Para mim tudo quanto me rodeava era
completamente novo. Eu nunca tinha sado da cidade, e o aspecto dos
campos enchia-me de prazer. Parecia-me que respirava um outro ambiente,
que via um co mais largo, mais azul! Um enchame de novas sensaes se
agitava dentro de mim.

Assim estava eu boqui-aberta, olhando para tudo com uma alegre
curiosidade. As feveras da herva que se agitavam em torno, mettiam as
suas cabecinhas tambem curiosas pelos intersticios da seda, afim de
observarem que monstro desconhecido eu era. As boninas _coquettes_ como
todas as flres, mostravam-me com desvanecimento a sua formosura, para
verem se d'ellas me enamorava. Era a tentao que todas as formosas
sentem, de fascinar os estrangeiros. Os dois proverbios: Ninguem 
propheta na sua terra Santos de casa no fazem milagres, so, n'este
caso, da mais escrupulosa exactido. As abelhas, que vem de fra,
extrahem mais depressa a essencia das flres, do que as que pertencem 
colmeia do jardim.

Eu sentia correr um indizivel murmurio pelo prado. O vento, acamando a
relva e as florinhas, perguntava-lhes, no seu dialecto incomprehensivel,
que vs no entendeis, mas que para todas ns  clarissimo, quem era a
recem-chegada. E os bichinhos pequeninos que arfavam debaixo de mim,
respondiam que era o Hymalaia, e os insectos zumbidores respondiam que
era uma grande flr verde com estames de oiro.

O que  certo  que eu consubstanciava-me de todo com a relva que me
cercava. Egualmente verde, no transtornava em nada a unidade do tapete,
e as minhas borlas de oiro matizavam-n'o agradavelmente.

Assim estava n'aquelle _dolce farniente_, e confesso que, apesar de me
lembrar de vez em quando dos donos que me eram to affeioados, e de
quem me tinha separado, as saudades que sentia eram attenuadas pelo
prazer completamente novo que me embriagava.

Mas aquelle ocio no podia durar sempre. O Tytiro, que me apanhra, no
estava muito disposto a repousar _sub tegmine fagi_, mais do que
convinha  sua indole vagabunda, e depois de ter saboreado, por espao
de dez minutos, quando muito, as delicias da posio horisontal
succedendo  rapidez da corrida, levantou-se, dirigiu-se  fonte, encheu
de agua a palma da mo, disposta para esse fim, levou-a  bocca, bebeu,
repetiu duas ou tres vezes esta operao, e depois, dirigindo-se a mim,
levantou me do cho, e foi-me levando socegadamente pelos campos fra.

 tempo agora de descrever o meu novo dono. Era um rapazito dos seus
quatorze annos, de rosto alegre e queimado, com uns olhos negros muito
vivos e rasgados, uma bocca grande, que parecia estar sempre preparada
para as gargalhadas. Todo o seu fato consistia n'umas calas rotas,
n'uma camisa muito suja, e n'uma jaqueta to arremendada, que era um
verdadeiro mosaico, porque creio que tinha todas as cres do espectro
solar, e todas as combinaes que com ellas se podem fazer. Um bonet,
que estava rodeado por uma densa armadura de sebo, occupava o alto da
cabea; porque julgo no haver exemplo de ter sido collocado na posio
habitual, e a testa do garoto, se lhe dissessem que este possuia um
bonet, estou que ficaria summamente espantada.

E l ia elle por ahi fra, baloiando o corpo a compasso de uma
cantiga, devida ao seu genio musical, distrahindo-se no caminho a
apanhar borboletas, a atirar pedras aos ces, fugindo depois a bom fugir
quando estes o perseguiam ladrando, trepando acima das arvores da
estrada a espreitar se j haveria ninhos entre os seus ramos, cobertos
de novas folhas, e saltando os muros dos pomares, para se ir empoleirar
nas larangeiras, trincando as laranjas verdes ou maduras, que se lhe
deparavam.

Devo confessar que a minha situao durante estas excurses, motivadas
pelos entretenimentos do meu dono, no eram das mais invejaveis, e que
bastantes vezes amarguei o gosto que sentira, respirando o ar dos
campos. Com effeito o gaiato attendia mais aos seus prazeres do que s
minhas commodidades, e nem posso descrever os sustos que curt, quando
os ces corriam atraz de ns, e que eu via os seus dentes agudos, que
seriam capazes de me despedaar n'um segundo; a triste impresso que eu
sentia, vendo as borboletas to gentis, to galantinhas, nas garras do
seu caador cruel; as dres que me faziam os esgalhos das arvores,
rasgando me sem piedade, em quanto elle subia descuidoso, indifferente,
affastando a ramara, para vr se, n'alguma verdejante alcva, no teria
ido a carinhosa me dos passarinhos depr o bero gentil, que as auras
embalariam.

Sobre tudo o que me atormentava era o costume que elle tinha de saltar
os muros dos pomares para se ir sentar nas larangeiras, a fartar-se
d'esses pomos que a antiguidade chamou aureos por serem vermelhos, e que
o seu Cames asseverou terem

    _A cr que tinha Daphne nos cabellos_;

o que  pouco lisongeiro para a belleza d'essa nympha, que vinha a ser
hyper-ruiva, se acreditarmos as asseres do cantor dos _Lusiadas_.

N'este ponto tornei eu a interromper a bolsa to prodiga em reflexes.

--O espanto, em que me colloca a sua erudio, impede-me de reprehender
energicamente o tom com que falla n'essa gloria nacional. Mas diga-me,
quem a fez to instruida?

--No antecipemos os acontecimentos, como diria o visconde d'Arlincourt,
respondeu-me a bolsa.

--O qu? Pois tambem leu ou ouviu os romances do visconde d'Arlincourt?

--Ento! meu amigo, tornou-me a narradora, suspirando, nem tudo so
rosas na instruco.

--Bem, continue.

Como j disse, esse costume do meu dono incommodava-me sobremaneira;
porque a escalada tinha para mim todos os seus inconvenientes, e muitos
mais, sem ter nenhuma das suas vantagens. Em primeiro logar a subida
pelo muro era summamente incommoda; porque o bom do meu amigo, tendo
todas as algibeiras rotas, e, por conseguinte, no me podendo confiar a
nenhum d'esses toneis das Danaides, de que as suas calas e a sua
jaqueta estavam to amplamente providas, levava-me na mo, apertava-me
sem cerimonia de encontro ao muro, e esmagava-me, torturando ao mesmo
tempo uma pobre meia cora que eu tinha dentro de mim, e que eu sentia,
de afflicta, resmungar no meu seio.

Depois, quando,  fora de trabalhos e de arranhes, chegavamos ao cimo
do muro, novos desastres nos esperavam. Garrafas partidas formavam uma
especie de negra palissada, dispostas d'aquella maneira para enterrar os
seus dentes agudissimos nos aventureiros que intentassem a conquista.
Mas o meu dono, que era, segundo parece, j pratico n'aquelles assedios,
tinha tomado as suas precaues, e foi ento que eu vi que no era s a
questo das algibeiras que o inhibia de me resguardar, mas sim tambem
uma questo de defeza propria. Eu, malfadada, servia-lhe de escudo! Eu
era, para assim dizer, o _csto_,  sombra do qual o garoto jogava o
murro com as paredes. N'uma das mos ia eu, na outra o leno de assoar
muito embrulhado. A mo que eu protegia, era ainda assim a que estava
resguardada melhor; porque o tal leno, para fallarmos verdade, parecia
a moldura de um quadro ausente; um immenso rasgo formado por uma
multido de rasgesinhos que se tinham annexado, occupava o
centro-rodeado em toda a extenso por uma pobre tira. Creio que a
historia d'essa transformao se pde explicar geographicamente. Imagine
que o leno ao principio se assimilhava com aquelle territorio da
America do Norte, onde existe o lago Ontario, cercado de muitos outros.
Supponha que um grande cataclysmo rasgava os terrenos que separam esses
lagos, e que as aguas trasbordando, e unindo-se, formavam um verdadeiro
mar no genero do mar Caspio. Ahi tem o que succedeu com os rasges do
leno do garoto.

--V. ex.^a permitte-me, interrompi eu, que a proponha para socia do
Instituto Geographico de Paris?

--Muito obrigada! No estou agora decente para entrar n'uma academia.

--Pelo contrario, minha senhora, tornei eu, as bolsas vasias devem ser
da mesma frma que as cabeas, as que mais depressa sejam admittidas
n'essas sociedades sbias. Pde continuar.

No findavam aqui os meus soffrimentos. Experimentava alguns rasges,
mas consolava-me com o pensamento de que o meu sacrificio era util s
mos do meu dono, por quem eu professava uma secreta e inexplicavel
sympathia.  verdade que o demonico do rapaz parecia no se affligir
muito com as arranhadellas que recebia. A mo esquerda, confiada 
proteco nominal do leno de assoar, chegava toda em sangue, e isso, em
vez de lhe diminuir a alegria, parecia augmentar-lh'a e dar melhor sabor
s laranjas com que se fartava.

Ahi se empoleirava elle, por conseguinte, sentando-se no ponto de unio
de dois ramos, toucado de folhas, baloiando os ps no ar, e enviando as
mos em toda a direco, a fazerem uma atrevida _razzia_ aos taes pomos
de oiro do antigo jardim das Hesperides. E quer as laranjas estivessem
ainda verdes, e por conseguinte amarellas (n'esse caso tem raso Cames
e a antiguidade), quer estivessem j em pleno sazonar, e por conseguinte
trajassem a purpura que merecem, como rainhas que so de todas as
fructas, o meu bom gaiato apanhava-as sempre com uma imparcialidade
digna de especial meno, e, ministro justiceiro dos negocios do seu
estomago, escolhia para funccionarios todos os fructos, sem distinco
de cres.

Era um bello espectaculo o d'esse rapazito rto, esfarrapado, mais
feliz no seu throno de cortia do que os reis no seu throno de oiro,
comendo as laranjas do proximo com mais satisfao, de certo, do que a
que sente o czar da Russia ao devorar o producto dos roubos de que 
victima a infeliz Polonia.

Mas por fim de contas vinha a ser eu quem soffria as ms consequencias
dos prazeres do meu senhor. Para poder comer  sua vontade, o meu amigo
largava-me e pendurava-me no primeiro ramo que lhe ficava  mo. O vento
baloiava o ramo; s vezes um gatinho, que andava passeiando por cima
dos muros, vendo-me ondular na extremidade, saltava e principiava a
brincar comigo. A isto reunia-se o susto de me vr n'uma altura para mim
desmesurada. Era necessario que os latidos de um co de guarda viessem
inquietar o meu dono, para que elle se lembrasse de me tirar da minha
incommoda posio, afim de operar a sua retirada.

J v, por conseguinte, que a minha existencia aventurosa, se tinha as
suas vantagens, tinha tambem os seus inconvenientes.


IX


O meu possuidor reconhecera, desde o primeiro momento, que eu no
estava vasia, mas ainda se no dera ao trabalho de verificar a quanto
montava a sua nova riqueza. Finalmente, depois de estar saciado de
laranjas, canado de trepar s arvores, entendeu que era j tempo de
attender aos negocios do thesouro. Sentou-se por conseguinte n'uma pedra
da estrada, abriu-me com toda a gravidade, e tirou de dentro
triumphalmente a moeda de cinco tostes.

--Ol! um _caiado_!--bradou elle com alegria, e para demonstrar melhor
o seu regosijo entoou a aria da _Saloia_, e atirou comigo ao ar a uma
distancia immensa, com grande desespero meu, porque vim assustadissima,
aos trambolhes pelo espao, cair na mo aberta do garoto.

Este no ficou em contemplao diante do seu thesouro; metteu o outra
vez no sitio em que estava, levantou-se, e continuou o seu caminho,
cantando com uma voz de Stentor, atirando comigo ao ar, e tomando, para
me receber, attitudes de tambor-mr.

A estrada, que se ia approximando da cidade, ia sendo tambem mais
frequentada. Os caminhantes multiplicavam-se, e as casas comeavam a
apparecer. Nem por isso o gaiato deixou de cantar a _Saloia_ a plenos
pulmes, com grande escandalo das velhas sentadas nos degraus das
portas, que acompanhavam cada estrophe da aria popular com um
desafinadissimo cro de imprecaes.

--Valdevinos!--Bregeiro!--Gaiato sem emenda!--D'onde vens tu,
maroto?--Ah! boa sova!--Fosse eu tua me que te havia de moer o corpo
com pancadas!--S se perdiam as que caissem no cho!--D'onde vens tu,
desavergonhado, vens de roubar laranjas?--Tu vaes direitinho para o
inferno!--_Berzabum_ te valha, dmo pequeno!--O descarado vem a cantar
para quebrar a cabea s almas christs!--Quem te puzesse uma farda s
costas!

E outras amabilidades de egual jaez, a que elle s respondia, grave e
serenamente, com esta invariavel apostrophe:

--Eh! bruxas!

Quiz o acaso que passasse ao nosso lado um sujeito gordo, com umas
barbas de phariseu, uns olhos esgazeados e orlados de vermelho, uma
d'estas physionomias baixamente orgulhosas, onde se l ao mesmo tempo o
servilismo para com os poderosos, o desabrimento para com os humildes.
Desbarretava-se at ao cho quando passava alguma carruagem, onde ia
pessoa conhecida d'elle, e correspondia ligeiramente  saudao dos
pobres trabalhadores, que levantavam o chapo, com aquelle ar gravemente
cortez dos homens do campo, para lhe dizerem:

--Guarde-o Deus, senhor Domingos Gil.

Para o meu gaiato, vel-o, e conceber a ida de lhe fazer alguma, foi
acto simultaneo. Com um sorriso malicioso nos labios enrolou-me na mo
muito bem enrolada, de sorte que s ficasse de fra o sitio onde estavam
os cinco tostes, e approximando-se, p ante p, do empavezado
passeiante, ergueu a mo, vibrou-me com toda a fora, e fez-me desabar,
indo a meia cora de esquina, na copa do chapo do gorducho.

A _gebada_ foi magistral; o chapo enterrou-se at aos olhos; e em
quanto o dono d'elle, espumante de raiva, procurava desembaraar a cara
d'aquelle inesperado invlucro, o rapaz pz-se fra do seu alcance, e,
j l muito ao longe, ouviu as exclamaes furiosas da sua victima, que
ameaava prendel-o, matal-o, enforcal-o, esquartejal-o.

O homem ficra desesperado. Pois no tinha raso; o seu chapo, como
sempre, tinha-se curvado ao dinheiro.


X


Livre de perigo, o meu dono, reflectindo no caso, houve por bem rir-se
s gargalhadas do que praticra. Com effeito merecia a pena. Eu, apesar
de ter padecido, no desgostei da correco.

Depois de se rir  vontade, entendeu o auctor da _gebada_ que no
poderia ser completa a sua satisfao se no visse a cara do paciente
depois do castigo. Reflectiu como poderia conseguir vl-o sem ser visto,
e como afim de reflectir melhor, quando olhava para o co a procurar
inspirao, deu com a vista n'uma arvore que se erguia mesmo ao seu
lado. Vl-a, e trepar a ella, foi uma e a mesma coisa. O mirante era
optimo, bem arejado, completamente resguardado da curiosidade dos
profanos, proporcionando ao seu habitador provisorio um delicioso
panorama para se entreter emquanto no passasse aquelle a quem esperava.
Attendendo, pois, ao merecimento e mais partes que concorriam na pessoa
da dita arvore, estabelecemo nos n'ella sem cerimonia, eu n'uma caminha
de folhas, elle encostado a uma especie de janella verdejante, d'onde
via optimamente tudo quanto se passava na rua.

Assim, todo escondido, de joelhos, com a sua physionomia curiosa e
maliciosa  espreita por entre os ramos, parecia um macaquinho agil, que
espera occasio propicia para apanhar um fructo que lhe fica distante.

Por baixo de ns um pobre velho, pallido, magro, macilento, mostrando
no rosto a timidez envergonhada d'aquelles que um soffrer verdadeiro
obriga a pedir esmola, estendia o chapo a quem passava. Lagrimas
silenciosas lhe deslisavam nas faces encovadas: o sllo da desventura
estava gravado na sua fronte livida. Os cabellos brancos, que o vento
agitava, cingiam aquelle infortunio de uma aureola de magestade. Era
augusta aquella miseria!

Comtudo, nenhum dos que passavam deixava cair uma pobre moeda de cobre
n'aquelle chapo supplicante, que se lhes estendia. Uns seguiam
desdenhosos o seu caminho, sem responderem sequer com um gesto  muda
rogativa do mendigo! Outros, um pouco mais humanos, faziam
distrahidamente um gesto negativo, levando ao mesmo tempo a mo ao
chapo. Outros, mais caritativos ainda, murmuravam Tenha paciencia ou
No levo troco, e todos diziam, l de si para si, a phrase conhecida:
Este maroto provavelmente tem mais dinheiro do que eu. Desavergonhado!
Abusarem assim da caridade publica! Os que mendigam no so os que
precisam; nas aguas-furtadas  que se aninha a verdadeira pobreza.

Ah! miseraveis! que fings pensar que  um officio divertido o expr-se
um velho, alquebrado de foras, ao sol, ao vento,  chuva, s
humilhaes, ao desprezo, para fazer uma pobre colheita de dez ou doze
moedas de cinco ris, e s vezes de nenhuma! E a chuva a inundar os
membros mal resguardados do pobre pae de familias! E o sol a abrazal-o!
E a imagem dos seus filhinhos, lividos e esfomeados, a despertar-se-lhe
na imaginao, e a redobrar-lhe as amarguras!

Porque vs no sabeis, ou antes fings no saber, vs que julgaes que
esse homem vem pedir esmola para se ir embebedar na taverna proxima, no
sabeis que ha n'algum canto obscuro e doentio da cidade uma familia de
espectros, que espera anciosamente a volta d'aquelle a quem despedis com
as mos vasias! No sabeis, vs que accusaes de falta de resignao, de
falta de animo, o pedinte que vos exora com as lagrimas nos olhos, no
sabeis que lhe foi necessario mil vezes mais valor para se embrulhar na
pobre capinha, sair furtivamente do misero alojamento, e ir collocar-se,
espectro da miseria, s portas da opulencia, do que lhe seria preciso
para se despenhar da janella da sua agua-furtada e despedaar a cabea
nas lages da rua!

Continuemos.

Todos passavam, como j disse, e ninguem dava sequer ao pobre velho a
esmola de um olhar de compaixo. O meu gaiato mirava-o de vez em quando.

Passou finalmente o sr. Domingos Gil. O pobre velho estendeu-lhe o
chapo, murmurando mansinho:

--Uma esmola por amor de Deus. Meus filhos morrem de fome.

O sr. Domingos Gil vinha, como facilmente imaginar, de muito mau
humor. Trazia a _gebada_, para assim dizer, atravessada na garganta. As
sobrancelhas franzidas, o olhar fusilante, a cara fula de raiva,
denunciavam o rancor que o consumia. O chapo, ainda um pouco amolgado,
tambem mostrava resentir uma nobre indignao.

A voz do mendigo como que abriu no sr. Gil uma valvula de segurana,
por onde pde sair uma poro de colera, que, mais tempo contida, o
faria rebentar. Evitou-se d'esta frma uma grave perda para a
humanidade.

O sr. Gil desabafou, bradando, ao passo que desviava bruscamente o
chapo do pobre velho:

--Sucia de mandries! Esto estes marotos  esquina de todas as ruas,
para nos roubarem o dinheiro que nos custa a ganhar com o suor do nosso
rosto! Voss no tem vergonha de pedir esmola? V trabalhar, ou metta-se
no hospital se est doente, ou v para o asylo! Est o governo a pagar
um bom par de contos de ris alli em Santo Antonio dos Capuchos, e
pessoas ricas a deixarem quantias avultadas, que bem tolo  quem cae em
tal, no ha de ser nunca o meu dinheiro que elles ho de apanhar; mas
est alli aquelle estabelecimento prompto a receber todo o fiel patife
que no tem eira nem beira, para que? Para andarem estes velhacos a
incommodar-nos. Fosse eu da camara municipal! Rde para os ces, rde
para os mendigos. V para o demonio! No lhe dou nem cinco ris!
Canalha!

E o digno homem continuou magestosamente o seu caminho.

Uma lagrima cau das palpebras abrazadas do velho! Fez um gesto de
resignao, e deixou pender a cabea sobre o peito.

E a noite estendia j sobre a terra o seu manto negro. A noite com o
seu duplo cortejo de alegrias, de festas, de prazeres, de suspiros
enamorados, e de tristezas, de crimes, de horrores, de soluos da
miseria! A noite, fada mysteriosa, e negra feiticeira! A noite que se
deixa illuminar pelo lustre dos sales, e pela candeia das
aguas-furtadas, mas felizmente tambem e em toda a parte pelo fulgor das
estrellas, que  o olhar de Deus.

E o velho scismava tristemente. No tivera resultado o sacrificio! Nem
um pedao de po podia levar aos filhos esfaimados! Tristeza! A brisa
soprava asperamente, e elle no a sentia! As lanternas das carruagens
que passavam pareciam olhar para elle ironicamente, mas as estrellas,
essas miravam-no tristemente.

E o velho scismava! A pobre agua-furtada, onde vivia,
representava-se-lhe na imaginao! Via a filha doente, ella que  fora
de trabalho sustentava os irmos, os pobres innocentes, que pediam de
comer! E elle, o triste velho, ia-lhes apparecer sombrio, para lhes
dizer: Morrei, no tenho que vos dar!

Ento pareceu-me vr na fronte do garoto surgir uma estranha aurora!
Immovel na arvore, contemplava o pobre velho, e a sua physionomia
maliciosa tornava-se pensativa! Eu tinha-o ouvido durante o caminho
fazer mil projectos para o emprego dos cinco tostes, comprar bolos, ir
ao theatro, alugar um burro, mil extravancias que elle acariciava com o
amor de creana! N'aquelle momento no trocaria os cinco tostes por um
imperio!

Depois de contemplar por um instante o velho, estendeu a mo para mim,
tirou-me do ramo, e deixou-me cair no chapo do mendigo.

E depois de ter gozado por um instante da estupefaco do pobre homem,
deixou-se escorregar da arvore, e escapou-se sorrateiramente.

O garoto desapparecera; mas quem olhasse bem podia vr alvejarem
vagamente, na escurido nocturna, as azas luminosas do anjo da caridade.


XI


Quando me achei no chapo, e depois na mo do pobre velho, a primeira
sensao foi a da alegria, a do desvanecimento. Parecia-me que eu tambem
participra da boa aco do rapaz, e que me competia uma parte dos
agradecimentos que lhe eram devidos. O que estava longe de esperar, 
que seria eu quem os receberia a todos.

Com effeito o pobre velho, depois de olhar muito tempo em torno de si,
depois de mirar bem a arvore, cujos ramos se estendiam sobre a sua
cabea, concluiu por attribuir ingenuamente a um milagre da Providencia
o beneficio que recebra; e, depois de ter reflectido bastante tempo,
convenceu-se devras de que a bolsa lhe caira do co, e to arreigada
conservou esta convico, que ninguem seria capaz de lh'a arrancar.
Veneravel candidez de crenas! No se importou com e pensamento de que
no valia a pena fazer um milagro para dar cinco tostes, e que, ainda
que o co estivesse inclinado a economias, no era natural que a
Providencia tomasse a precauo de collocar a sua esmola dentro de uma
bolsa de seda verde.

A tudo isso responderia elle que a menos que a bolsa no se formasse no
ar, e caisse por si mesma, ou que existissem actualmente arvores com
esse fructo, esse dinheiro no podia vir seno do co. E vinha com
effeito.

Por conseguinte o bom do velho, passando do immenso desalento  immensa
alegria, ajoelhou, beijou-me fervorosamente, depois levantou-se, e
correu com uma lizeireza de rapaz a fazer as compras necessarias  sua
pobre familia.

Foi ento que eu me pude convencer de que no eram a mim que se
dirigiam, no tempo da minha prosperidade, os comprimentos que tanto me
enchiam de orgulho, mas sim e unicamente  opulencia que eu
representava. Foi essa uma desilluso fatal, e que me causou uma
tristeza pungente! Ah! meu amigo, bastar esse dia para eu conhecer o
egoismo dos homens. Desde o instante em que eu sara da casa em que
nascra, no curto espao de duas ou tres horas, que de agargas lies,
que de tristes ensinamentos!

Nas casas em que entrava com o meu pobre possuidor, ninguem olhava para
mim, assim como ninguem olhava para elle. N'uma loja de capellista onde
o velhinho foi comprar agulhas, o instrumento de trabalho de sua filha,
a fragil armasinha com que ella combatia intrepidamente o demonio da
miseria, estavam umas senhoras arrastando sedas, e resplendendo em
joias. Estavam comprando no sei o qu, mas fosse qual fosse a compra,
ellas demoravam-se immenso, porque desejavam escolher  vontade, e
obrigavam a dona da loja, que satisfazia as suas exigencias com toda a
complacencia, a revolver todas as caixas, a mexer em todas as gavetas, a
abrir todos os armarios.

O bom do meu velhinho, impaciente como estava, para levar de comer 
sua pobre familia, depois de esperar um pedao, no pde deixar de
dizer, collocando-me timidamente em cima do balco:

--Se a sr.^a Ignacia me podesse aviar n'um instantinho...

A capellista, interiormente enfurecida pelas maadas que lhe estavam
dando as suas opulentas freguezas, voltou-se, e empurrando-me
bruscamente, to bruscamente que ca no meio do cho, bradou com uma voz
desesperada:

--Espere, no tenha pressa, guarde o seu dinheiro. No v que estou a
servir estas senhoras?

O meu pobre dono calou-se, e apanhou-me sem murmurar sequer. O que
havia elle de fazer? A capellista fiava lhe os utensilios necessarios a
sua filha, em occasies de apuro, e at s vezes, porque no fundo a tia
Ignacia tinha um bom corao, lhe emprestava os seus vintens.

Eu  que no admitti circumstancia attenuante possivel para o ultrage
que recebra. N'essa manh mesma eu fra tratada to amavelmente n'uma
loja de capellista com estanco, onde Eduardo entrra a comprar charutos,
que no percebia qual fosse o motivo da subita differena.

J v que as lies ainda no tinham aproveitado.

N'esse ponto foi que eu principiei a avaliar as amarguras da minha nova
posio. Felizmente, a scena que se lhe seguiu veiu adoal-as um pouco.


XII


Tremulo de alegria, subiu o velho os ingremes degraus de uma escada
tortuosa e escura, que conduzia  agua-furtada onde habitava. Quando
chegou ao ultimo patamar parou para respirar. O corao batia-lhe com
alegria. Pensra tanto em subir aquella escada lentamente, como um homem
que leva sobre os seus hombros o peso enorme do infortunio; pensra
tanto no soffrimento que o havia de dilacerar quando chegasse com o
desespero na alma ao mesmo sitio onde parra ebrio de alegria; pensra
tanto no triste espectaculo que se lhe havia de deparar, no desgosto
profundo que havia de sentir; pensra tanto em tudo isso, que chegra
quasi a costumar-se a essa ida, e que a felicidade encontra-o armado
para a desgraa e desprevenido para a ventura.

Finalmente entrou.

Que espectaculo to novo para mim foi esse que eu divisei! Das trevas,
que envolviam a casa, saiam gemidos abafados, soluos horrendos,
murmurio dilacerante, reflexo pavoroso do sussurro dos condemnados do
inferno accumulados na tenebrosa _ghenne_ que Dante visitou. O meu
dono, depois de abrir a porta, ficou um instante parado, e
involuntariamente as lagrimas inundaram-lhe as faces, parando nos
labios, que sorriam com um sorriso de consolao.

Quando o meu olhar se costumou s trevas, pude ento vr no fundo do
quarto, e deitadas em cima de uma pobre enxerga, duas creanas de nove
para dez annos, pallidas, magras, com os seus corpinhos quasi ns,
tremendo de frio n'aquelle recinto humido. Choravam, e choravam de fome!
Mais ao fundo, n'um pobre catre, que era ainda assim o unico traste da
casa, jazia a filha mais velha, rapariga dos seus vinte e tantos annos,
a quem o soffrimento arrancava gemidos. Uma pobre coberta esfarrapada
mal a resguardava. E comtudo, a pobre rapariga estava com uma febre
violentissima; o delirio apoderra-se d'ella. Murmurava phrases
incoherentes, gemia, soluava. E as trevas, a escurido atroz a
suffocal-a! E l ao fundo, na sombra, a fulgirem sinistramente as garras
do demonio livido da fome!

Uma toada de musicas alegres entrava pelo quarto. No primeiro andar
havia baile. A dois passos do risonho turbilho das walsas o horrido
vendaval do infortunio!

 destino!

O velho, silencioso, accendeu uma vla. Depois pz na chamin a lenha
que trouxera, e accendeu o lume. Espalhou-se no quarto um doce calor.

Os pequenos tinham-se levantado na cama, estupefactos!

Depois, sempre silencioso, pegou n'um braado de couves, migou-as,
tirou um po, fel-o em sopas, deitou tudo dentro de um pobre tachinho de
barro, e pl-o ao lume. Os pequenos tinham-se approximado d'elle.

O velho voltou-se. A sua cabea, coroada de cs, inclinou-se meigamente
para as loiras cabecinhas que o rodeavam.

E, vendo-os tremulos, mal se podendo suster em p, abraando-lhe os
joelhos, as lagrimas saltaram-lhe de novo dos olhos, a voz
embargou-se-lhe na garganta, e s pde dizer:

--Meus filhos!

--Po!--foi a resposta das creanas.

--Sim, meus filhos, esperem, esperem um instante. Haveis de ceiar,
haveis de ceiar, meus pobres pequeninos, e haveis de dormir depois o
somno de innocentes, que a fome repelle ha tanto tempo de cima das
vossas gentis cabecinhas! Deixae-me, deixae-me ir tratar de vossa irm,
da minha querida filha, que tanto soffre por nossa causa.

E o velho approximou-se da pobre doente, que olhava para elle com uns
olhos desvairados, coou-lhe por entre os dentes um calmante, que
comprra n'uma botica, porque o pobre do homem gastra at aos ultimos
cinco ris, e comtudo quantas coisas de primeira necessidade tinham
ficado ainda por comprar!

O calmante produziu um bom effeito. Ao delirio succedeu a prostrao, e
a costureira adormeceu com um somno pacifico e reparador.

Ento o resto da familia agrupou-se em torno da enxerga, meza
improvisada, para onde foi trazido em triumpho o tacho das couves. Os
pequenos lanaram-se sofregamente  comida, e em poucos minutos
desappareceram as couves e as sopas, sem omisso de um talo, sem
esquecer uma migalha.

O velho mal tinha bebido um golo de caldo. Embevecido na contemplao
de seus filhos satisfeitos, nem pensra na sua propria fome. De vez em
quando levantava ao co os olhos arrazados de agua, e murmurava palavras
incomprehensiveis.  essa a orao que a Deus mais agrada; porque  a
effuso sincera, e livre de preceitos, de um corao que trasborda de
reconhecimento.

Quando terminou a ceia frugal, o bom do velho chamou as creanas para
junto de si, e fazendo-as ajoelhar, e unindo-lhes as tenras mosinhas,
disse-lhes com voz grave:

--Meus filhos, agora que por uma esmola divina saciaram a fome,  justo
que se no esqueam d'Aquelle que se amerceou de vs. Vinde, e repeti
comigo:

--Pae do co, Vs que, apesar da vossa omnipotencia, vos no esqueceis
dos vossos filhinhos, que dstes po a quem tinha fome, e consolaes a
quem estava afflicto! Vs que, por um milagre da vossa infinita bondade,
nos salvastes da morte, e a nosso pae do desespero! Vs que sois todo
misericordia, tende compaixo de nossa pobre irm! E vs, nossa me
querida, que sois agora uma santa no co, rogae tambem a Deus que d
sade a quem  o nosso amparo! Ns vos damos graas, Deus todo-poderoso,
e promettemos sempre ser dignos da vossa affeio, e conservarmo-nos no
caminho da virtude, para que a alma da nossa mesinha se no afflija de
nos vr peccadores.

E as creancinhas repetiam com a sua voz argentina aquellas singelas
palavras, pronunciadas pelo velho, commovido, que estendia as mos
tremulas sobre essas cabeas innocentes, e erguia para o co os olhos
humedecidos.

Depois beijou-as na fronte com ternura, e mandou-as deitar. Elle apagou
a luz e o lume; sentou-se  borda da enxerga, e, encostando a cabea nas
mos, meditou.

Porm o dia fra agitadissimo; a natureza foi mais forte do que elle, e
d'ahi a pouco tempo o velho, cerrando a pouco e pouco as palpebras,
adormeceu.

As trevas encheram de novo o quarto. Mas o horror fugira.  porta, um
anjo do Senhor, com um dedo nos labios, velava meigamente sobre o somno
da innocencia.


XIII


Cinco tostes no duram eternamente, e a prova d'isso  que j tinham
desapparecido. A miseria, que fugira um instante espavorida, voltava de
novo a bater  porta. Que remedio seno abrir-lh'a!

No era feliz no mendigar o meu pobre dono. Raras vezes obtinha o
dinheiro sufficiente para comprar o necessario. Sua pobre filha
melhorra sim, por um prodigio da natureza completamente desajudada da
sciencia; mas a sua convalescena, desprotegida d'aquelle conforto,
d'aquelles cuidados to indispensaveis para o restabelecimento da saude,
prolongava-se, apesar de todos os esforos que a animosa rapariga fazia
para resumir, e que, como  facil de suppr, s contribuiam para a
accrescentar. Queria pegar em trabalho, mas estava to fraca, to fraca,
que, apenas dava dois ou tres pontos, caa desmaiada sobre a costura, e
assim passava os dias em continuados desfallecimentos.

Seu pae tambem estava completamente impossibilitado de trabalhar. Eu
chamei-o velho, porque com effeito os desgostos e as privaes essa
apparencia lhe haviam dado; mas no o era effectivamente. Ainda no
contava cincoenta annos, e j no tinha na cabea um s cabello preto.

Despedido da fabrica de oleados em que trabalhava, porque a sua nimia
fraqueza o tornava completamente improprio para os rudes trabalhos
manuaes da fabrica, vira-se s com tres filhos, sem recursos, sem poder
obter, n'um outro emprego mais suave, o po para si e para elles.

A sua completa ignorancia tornava-o improprio para qualquer trabalho
que no fosse manual.

 ignorancia, negra irm da livida miseria!

Como eu ia dizendo, eram poucos ou nenhuns os proventos que o pobre
homem tirava da mendicidade. As comidas iam sendo cada vez mais frugaes,
e a pobre rapariga, debilitada, enfraquecida, ia-se tornando cada vez
mais incapaz de trabalhar.

Admira-se de certo de eu continuar a existir n'uma casa onde reinava
to profunda miseria! Espanta-se de que me no tivessem vendido no dia
immediato quelle em que tinham gasto os cinco tostes. Eu lhe explico
esse facto na apparencia incomprehensivel, eu lhe dou a chave d'esse
enigma.

O meu dono considerava-me, para assim dizer, como uma enviada de Deus,
e no estava muito longe de imaginar que existisse no meu seio um anjo
occulto. Tocar-me era quasi uma irreverencia, vender-me seria de certo
uma profanao.

Candidamente supersticioso, o bom velho tinha l de si para si que eu,
como mensageira que fra de uma esmola providencial, no podia deixar de
fazer a felicidade d'aquelles que me possuiam. Vender-me ser-lhe-hia to
difficil, como aos romanos cederem, em troca dos mais enormes thesouros,
o palladio que fazia a republica invencivel. Eu era a gide da casa,
emfim.

Mas um dia o pobre pae de familias voltou mais triste e amargurado do
que nunca. O dia correra-lhe como aquelle em que eu o tinha visto pela
primeira vez, com a differena que nenhum garoto compassivo, enviado
pela Providencia, se fra esconder na ramaria de uma arvore protectora.
O velho entrava, pois, em casa, sombrio, triste, como entraria uns
poucos de dias antes, se no fosse eu apparecer-lhe inopinadamente.

Entrou, sem dizer palavra. Dirigiu-se logo a um armario que havia na
parede, onde eu habitava, e, tirando-me para fra, disse-me, depois de
me ter contemplado lugubremente alguns instantes:

--Vae, pobre bolsinha, que me trouxeste momentos de allivio, e cuja cr
suave me aconselha a esperana. A esperana?! no a posso ter j! Ai! a
minha sina fatal  mais forte do que a tua benefica influencia! Ramo
verde que uma pomba do co trouxe no bico a esta pobre arca, que vae sem
rumo nas aguas de um diluvio de infortunios, enganaste-me
involuntariamente! No parou a tempestade! Nem ha de parar talvez! Vae,
no procures luctar mais contra a minha m estrella! Vae, e que a tua
mesma partida nos seja ainda bemfazeja! Os anjos de Deus, ou quando
descem ao mundo, ou quando voltam ao paraizo, sempre enviam adiante, ou
deixam aps si, um rasto luminoso!

E beijando-me com fervor, metteu-me no seio, e saiu.

Foi triste a sua peregrinao  procura de um comprador que se
resolvesse a dar por mim um preo razoavel. Todos, vendo-o assim pobre,
mostrando no rosto livido a fome que o impellia a vender-me, offereciam,
depois de me terem mirado com desdem, um preo to baixo, que, fosse
qual fosse a extrema necessidade que o meu dono tivesse de dinheiro,
entendeu que me no devia deixar ir assim.

Comtudo, percorriamos lojas e lojas, e nenhum dos donos d'ellas se
resolveu a comprar-me. Pois eu no valia to pouco como isso, e estou
convencida que muitas das pessoas, a quem o velho mendigo me
apresentava, desejariam ficar comigo. Rebaixavam-me muito, mas, segundo
depois vim a saber, isso  trica de negociante para especular com a
miseria. Sabem que ainda que a sua primeira proposta repilla o vendedor,
este, por fim de contas, sempre volta ou a acceital-a ou a diminuir
muito o preo que estabelecera.

Chamam elles a isso esperteza no negocio. E quem no quer no venha c,
accrescentam, terminando com a phrase pittoresca: Eu no lhe puz a faca
aos peitos.  regra estabelecida que o vendedor pea um preo
exorbitante, e o comprador offerea um preo diminutissimo. Que venha 
discusso, mesmo por acaso, o valor real do objecto, isso  raro. Um
negocio de compra e venda  um jogo de azar em que dois jogadores
trapaceiam. Vr qual dos dois ha de roubar o outro, _that is the
question_. Nunca um s vendedor se lembrou de calcular: Este objecto
custou-me tanto, devo tirar o juro razoavel de tanto, logo vendo-o por
tanto, e nem um real de mais, nem um real de menos; e o comprador de
pensar: Posso gastar tanto, se o objecto valer mais, no compro. Isso
nunca: sem uma discusso preliminar,  sensabor o negocio. Se a inveno
da moeda simplificou as relaes mercantis, quanto as no simplificaria
a inveno d'esta moeda dos coraes nobres, que se chama boa f!.

A antiguidade, que fez Mercurio o deus dos ladres e dos negociantes,
acertava devras se accrescentasse--e dos consumidores.

Desculpe estas reflexes um pouco prolixas; mas eu sou o Nestor das
bolsas, e desde o celebre ancio homerico, cujas palavras eram doces
como favos de mel, e que talvez por isso eram prodigalisadas por tal
frma pelo rei de Pylos, que no sei como os gregos no tomaram uma
indigesto de melao: desde esse vulto epico, todos os Nestores gostam
de pregar grandes massadas. Eu no me podia esquivar  regra geral.

Agora vou continuar.

O meu dono luctou muito tempo contra a avidez dos compradores, e
fez-lhes falhar os calculos. Saa das lojas com o desespero na alma, o
rubor da indignao na fronte, e no voltava.

Assim se passaram duas horas.

O preo, que lhe offereciam, ia sempre diminuindo: porqu? Porque de
cada vez a physionomia do mendigo se tornava mais livida. A anciedade
pintava-se-lhe nas feies. Cada ruga de mais, que se lhe cavava na
fronte angustiada, traduzia-se immediatamente em cinco ris de menos no
preo que lhe offereciam.

Finalmente, exhausto, prostrado, desfallecido, entrou n'uma ultima
loja, e, quando entrou, deixou-se cair em cima de uma cadeira. As pernas
recusavam-se a sustental-o mais tempo.

Na loja estavam o mercador, e um freguez escolhendo no sei o qu. Sei
apenas que era um rapaz de uma physionomia sympathica.

Ambos olharam espantados para o pobre velho, mas o espanto do primeiro
era um espanto encolerisado, o do segundo um espanto compadecido.

O dono da loja receiava para as suas cadeiras o contagio da miseria.
Que um co se estirasse em cima d'ellas, passe; mas um mendigo!

O meu dono estendeu-me com mo tremula para o logista, e disse com voz
que mal se ouviu:

--Eu desejava vender esta bolsa. Quanto me d o senhor por ella?

--Que diz voss?--tornou o dono da loja com modos irritados. Falle de
maneira que se entenda! Julga que tenho ouvidos de tisico? Graas a Deus
sempre gozei de boa saude.

--Desculpe-me, senhor, respondeu o meu dono fazendo um esforo sobre si
mesmo para fallar com voz mais intelligivel,  porque estou muito fraco.
Desejava saber quanto o senhor me d por esta bolsa.

--Ah! at que emfim! No seria mau que voss se levantasse, porque este
senhor talvez se queira sentar.

--Deixe estar o pobre homem,--interrompeu o freguez com vehemencia, no
v que mal se pde ter em p. Coitado!

--Pois sim, sim!--resmungou o logista, se toda a gente que no pde
andar se me viesse pespegar nas cadeiras, estava eu arranjado. Mas vamos
l a vr a bolsa. Ah! est toda esfarrapada! que trapo! isto no vale
cinco ris. Quanto quer voss por isto!

--V. s.^a dir quanto quer dar por ella!

--Eu! olhe, j lhe digo que no lhe dou mais de quatro vintens. Nem um
real. Serve-lhe?

--Quatro vintens por uma bolsa de seda, senhor!--tornou o meu dono com
uma profunda accentuao de amargura na voz.

--Sim! que ella est muito bonita. E quem me assevera que voss no
roubou isto? Nada, parece-me que nem os quatro vintens lhe dou.

--Roubar! eu?--bradou o meu bom velho, erguendo-se indignado da
cadeira.

--Sim! sim! Eu j conheo essas capas de santidade. O senhor no pde
imaginar, continuou elle, voltando-se para o freguez, quanto esses
malandros so finos! Olhe, um dia d'estes...

--Este homem no tem cara de ladro, interrompeu bruscamente o
desconhecido.

--Muito obrigado, senhor, muito obrigado!--exclamou o meu dono.
Sirvam-me de consolao as suas palavras! Faz-me bem ouvil-as! Partem de
um corao nobre.

--Emfim, tornou o logista um pouco despeitado, se me quer dar a bolsa
ahi tem os quatro vintens.

--Que remedio, senhor! A necessidade  m conselheira! ahi tem a bolsa!
Sempre meus filhos no morrero hoje de fome!

--No, interrompeu ainda o generoso rapaz, agarrando no brao do
mendigo, no consentirei que se pratique um roubo assm na minha
presena. Sou eu quem lhe compra a bolsa. Ahi tem dez tostes,  tudo
quanto tenho comigo. Creio que a bolsa no valer muito mais.

E, pondo na mo do mendigo duas meias coras, saiu levando-me comsigo,
deixando o logista estupefacto, e sendo acompanhado pelas benos do
velho.


XIV


Quando cheguei ao alojamento do meu novo dono, percebi que a minha
posio no melhorra consideravelmente. A mobilia da casa no era muito
mais numerosa, do que a da miseravel agua-furtada, d'onde eu sara
n'esse mesmo dia. Uma estante de pinho, vergando ao peso dos livros, e
uma meza cuja superficie desapparecia debaixo de uma triplice camada de
papeis, ahi tem quaes eram os moveis principaes d'aquella casa.

O resto da mobilia, se o meu amigo quizer absolutamente uma descripo
 Balzac, compunha-se de um leito de ferro, e de duas cadeiras de pinho,
uma das quaes se distinguia pela ausencia de um p, o que lhe dava as
prerogativas de tripode, e a outra primava na singular docilidade com
que se domava a todo o corpo que se lhe pozesse em cima; porque se
prostrava immediatamente no cho em signal de obediencia. Confesso que,
quando o meu generoso possuidor atirou comigo para a tal cadeira
nimiamente flexivel, receei que apesar da minha leveza, obrigasse o
pobre movel a dar provas da sua habilidade gymnastica.

O meu proprietario, assim que entrou, despiu o casaco e atirou com elle
irreflectidamente para cima da cadeira cortez, onde eu, por minha
desgraa, estava tambem collocada. Receber o casaco, fazer um _pli_ com
toda a habilidade de um mestre de dana, e ir parar ao cho
arrastando-me na quda, foi uma e a mesma coisa para a cadeira. O meu
dono nem reparou em tal, e, dirigindo-se logo para a outra, sentou-se 
meza, pegou n'uma penna, molhou-a no tinteiro, e comeou a escrever com
uma rapidez incrivel.

Eu entretanto no estava l muito  vontade. Litteralmente esmagada
debaixo do casaco, tinha, para cumulo de desventuras, mesmo encostado a
mim um grosso caderno de papel, que saa de uma das algibeiras, e que me
pregava no cho, comprimindo-me atrozmente. Eu ficra embirrando com
papeis, desde o momento em que, por causa d'elles, fra expulsa
irrevogavelmente da casa dos meus primeiros donos, e ai! sem esperana
de para l voltar.

Mas, ainda que eu no tivesse essa justificadissima preveno contra a
papelada, bastava a attitude aggressiva, que este caderno tomra para
comigo, para eu ficar odiando mortalmente a sua raa. Debalde eu
gritava, ralhava, resmungava, fazia esforos inauditos para me
desembaraar do peso que me opprimia, tudo era inutil. O caderno era
inflexivel, e o casaco ainda mais. No tive remedio seno resignar-me.

Vendo-me socegada, o caderno de papel comeou a entabolar umas taes ou
quaes relaes comigo. Percebendo que, por fim de contas, a melhor
resoluo, que eu podia tomar, era corresponder  amabilidade com que me
tratavam, troquei algumas palavras com elle, primeiro n'um tom bastante
scco, e a pouco e pouco mais agradavelmente. Emfim, d'ahi a cinco
minutos estavamos os melhores amigos d'este mundo.

Foi ento que elle me disse que o seu dono era litterato, como quem
diz, no tinha officio nem beneficio. Andava sempre abundantemente
provido de idas e de dividas. As idas eram sublimes, as dividas eram
pasmosas. Nem por umas nem por outras havia quem dsse dez ris. Tinha
por costume confiar ao papel os seus pensamentos; mas por mais empenhos
que o papel almasso mettesse com o papel de imprensa, nunca tinha
conseguido que este se encarregasse de repartir com elle as honras da
confidencia. No porque o litterato no tivesse talento; pelo contrario,
asseverava o papel que tinha muito; mas infelizmente, como ainda no se
descobrira o meio de se comear a escrever pela segunda obra, e os
editores queriam unicamente imprimir os seus escriptos se elle j fosse
conhecido, o homem estava sriamente ameaado de nunca os vr em lettra
redonda.

Em compensao, um editor Mecenas, um protector das lettras com loja de
livros n'uma escada, offerecera-lhe o honroso logar de traductor dos
romances de Paulo de Kock, e de outros notaveis escriptores francezes,
com o pingue ordenado de tres mil ris por mez. Este homem era tido
pelos seus collegas como um perdulario.

Outro editor, ainda mais estroina ou mais inexperiente, concebra a
atrevida ida de tentar fortuna imprimindo as obras do pobre diabo.
Pedira-as para as vr, pedido que ia dando com o escriptor em doido...
de alegria, e mostrou-as a um entendedor seu amigo. Este folheou os
differentes cadernos por espao de cinco minutos, e devolveu-os ao
livreiro, asseverando que o rapaz tinha uma lettra to boa, que no
podia chegar a ser um grande escriptor, o que fez com que o bom do
emprezario de litteratura devolvesse os cadernos a quem os escrevra,
offerecendo-lhe ao mesmo tempo um logar de caixeiro.

O litterato atirra com os cadernos  cara do editor, depois com os
livros que achou  mo, e j baloiava a cadeira gymnastica para lhe
fazer tomar o caminho que haviam tomado os livros e os papeis, quando o
bom do editor descia os ultimos degraus da escada, e sacudia o p das
suas sandalias  porta de casa to pouco hospitaleira.

O que o caderno meu visinho me affirmou (e devo dizer de passagem, que
fra elle um dos projects de que o seu dono se servira, um dos navios
encarregados de operarem um reconhecimento nas costas editoraes), o que
elle me affirmou foi que, se o nosso homem no sacudisse to depressa o
p das suas sandalias, o escriptor vinha-lhe a sacudir mas era o p da
sobrecasaca.

Aqui est em resumo o que me narrou o meu officioso visinho.

No tentarei descrever a vida que eu passei durante dois ou tres mezes
em casa d'esse seu collega. Pde imaginar qual era; repouso completo,
enercia absoluta. Collocada na estante, alli passei todo o tempo, sempre
socegada, sempre vasia, conversando muito com os lvros meus visinhos,
que me ensinaram tudo quanto eu sei, e me fizeram adquirir a erudio
que tanto o admirou, e vendo o meu dono passeiar no quarto, sempre
agitado, e sempre procurando alguma coisa, ou uma rima, ou um leno de
assoar, ou um editor.

Rimas encontrava elle quasi sempre, lenos de assoar algumas vezes,
editores nunca!

A traa fra o editor unico d'aquelles papeis.

Um dia foi elle tambem procurado por uns sujeitos, que lhe apresentaram
um papel sellado, e que lhe disseram serem elles os encarregados pelo
sr. Bartholomeu Nunes, de proceder a uma penhora por causa de no sei
quantos mil ris que elle devia ao dito senhor.

O meu dono no fez a minima objeco, pegou no chapeu e saiu, dizendo:

--Escolham o que quizerem.

Coisa que elles no o obrigaram a repetir. Percorreram minuciosamente
todos os cantos e recantos. Nada lhes escapou. Tudo inventariaram, tudo
levaram. Eu, j se v, no escapei ao desastre; l fui envolvida com os
livros, e sabe quem eu vi tambem no frete?

A celebrada cadeira das mesuras. At isso lhes servira!


XV


O meu dono (quinto, segundo v; eu se no fosse to modesta dizia-lhe
que pozesse no titulo, em vez de _Memorias de uma bolsa verde_, a
_Odyssea de uma bolsa verde_), o meu novo dono era um usurario amador.
Magro, com umas pernas que se canavam antes de chegar aos ps, a tez
biliosa, o nariz adunco e cavalgado por uns oculos, era perfeitamente o
typo que Shakspeare (que foi meu visinho) attribue  sexta edade do
homem, na celebre comedia intitulada: _As you like it_, titulo que o
leitor pde traduzir _como quizer_. Observando rigorosamente as regras
da economia, no comprando seno o que lhe era restrictamente
necessario, e assim mesmo inventando para seu uso proprio um
_necessario_ especial, as riquezas que obtinha, moeda de cobre a moeda
de cobre, serviam-lhe unicamente para as ter enterradas n'uma burra
collocada no seu quarto.

N'esse ponto tinha elle uma certa _coquetterie_. As libras doiradas, em
que transformava os patacos dos desgraados, encerrava-as dentro de uma
infinidade de bolsas elegantes e ricas at, que estavam dispostas
symetricamente por fileiras, no fundo do seu _coffre fort_. Todas as
noites, antes de se ir deitar, abria-o, descerrava as bolsas, e fazia
cair sobre o solo uma chuva de oiro. Alli, Danae de si mesmo,
estirava-se elle, enchendo as mos de punhados de libras, e fazendo-as
cair no monte a pouco e pouco, enterrando os dedos n'aquella eira
monetaria, revolvendo-a, fazendo-a rolar, apanhando-a espiga a espiga,
juntando-a, contando-a de novo, enchendo as bolsas, e tornando-as a
collocar dentro da burra. Tudo isto elle fazia com uma delicia, com uma
soffreguido taes, que no trocaria de certo este prazer pelo melhor
divertimento do mundo.

Quando eu cheguei  porta j elle estava  nossa espera. Ajudou a
descarregar o frete, procurou os livros, determinou que os vendessem
immediatamente, e deu um grito de surpreza quando eu appareci.

Era uma bolsa que o acaso lhe dera para juntar  sua colleco. Bem sei
que eu estava um tanto rota, um pouco esfarrapada, e que os rasges me
adornavam, apesar de eu ser ainda bem nova. Mas as cicatrizes, n'um
rosto imberbe, do a esse rosto a magestade da velhice, e eu,
considerada debaixo d'esse ponto de vista, estava magestosa a mais no
ser. De mais a mais, nos emprestimos que o usurario fizera ao litterato,
os juros tinham absorvido o capital, havia j tanto tempo, que se podia
dizer que toda a mobilia do meu ex-possuidor vinha a sair de graa ao
honesto agiota. E n'esse caso que importava que eu estivesse rasgada? A
bolsa dada no se olha  seda.

Por conseguinte o bom do velhote magrito, assim que me viu, fez-me mil
caricias, e, depois de ficar s, foi a uma gavetinha, no sem olhar
primeiro para todos os lados afim de se assegurar se alguem o
espreitava, tirou de dentro um cartucho de libras, despejou-o dentro de
mim, prestando um ouvido encantado ao som metallico do dinheiro, e,
levando-me com toda a cautela bem apertada na mo, dirigiu-se p ante p
para o seu quarto, abriu a burra que estava ao p da cama, e depois de
contemplar por um instante as bolsas, amontoadas umas em cima das
outras, deixou-me car com um suspiro de satisfao, e fechou o cofre.

Eu ao principio fiquei completamente atordoada. Esta passagem repentina
da luz para as trevas, do ar livre para um carcere estreito, produziu em
mim uma impresso terrivel. Comtudo a pouco e pouco fui-me costumando e
resignando. Comecei a distinguir alguns objectos n'aquella escurido. Os
perfis vagos de umas coisas informes, que eu percebia estarem junto de
mim, foram gradualmente fixando os seus contornos, e no fim de um quarto
de hora comprehendi que estava rodeada de uma chusma de minhas irms.

Agora percebo eu que fui pouco habil na narrao. Pois no o devia ser;
porque na estante do litterato conversra muitas vezes com uma colleco
da _Presse_ e do _Constitutionnel_; e os folhetins romances d'estes
jornaes tinham-me ensinado todos os estratagemas, com que se tem
suspensa a curiosidade do leitor, incitando, aguilhoando-o com a espora
do mysterio, de frma que elle percorra a narrao, como um cavallo
desenfreado percorre a planicie, sem se importar com as bellezas dos
accessorios, e desejando s chegar ao fim, que  para o cavallo o
precipicio em que se despenha, para o leitor a peripecia ultima, que se
pde compr,  vontade do romancista, ou de trinta punhaladas, ou de
vinte casamentos.

Apesar d'essas lies, v se que eu ainda estou muito inexperiente, e
que se os meus companheiros de estante chegarem a conversar alguma vez
com esse papel, que o meu amigo transformou em confidente das minhas
tribulaes, ho de envergonhar-se da m discipula que tiveram.

Com effeito, para que fui eu dizer totalmente ao leitor que o usurario
se debrura a contemplar as bolsas? Privei-me assim de umas poucas de
phrases interrogativas, que produziriam uma optima impresso!

O que seriam esses objectos informes immoveis no fundo da caixa? Que
mysterio se occultaria n'aquellas tenebrosas profundezas? Etc., etc.
Ora vejam o que eu perdi.

Emfim o mal est feito, e no tenho remedio seno continuar a narrao,
prescindindo d'esses auxiliares de que me lembrei to tarde.

Um murmurio confuso se elevou assim que eu cheguei. Na existencia
monotona dos prezos  sempre um acontecimento importante a chegada de um
estranho. A curiosidade irritada por uma longa abstinencia, procura
saciar-se com frenesi assim que se lhe offerece occasio para isso. Era
destino meu concorrer para matar a fome, umas vezes de po, quando eram
humanos os que soffriam, outras vezes de curiosidade quando eram bolsas.

Por isso, apenas trocmos os primeiros comprimentos, logo cau sobre
mim a chuva de perguntas. Quem era eu? d'onde vinha? como fra alli
parar? De todos os cantos do bah saa uma interrogao; todas as bolsas
olhavam para mim, as mais distantes punham-se nos bicos dos ps, para me
verem melhor, depois cochichavam entre si; as novas faziam observaes
zombeteiras cerca das minhas feies, e, comparando-as com as suas,
concluiam que eu nunca lhes poderia disputar o pomo da belleza; as que
estavam intactas achavam-me horrenda por causa dos meus rasges; as que
estavam mais rasgadas do que eu, achavam que me ficava pessimamente o
estar pouco dilacerada; as velhas s olhavam para mim com complacencia,
lembravam-se do seu tempo, suspiravam, e chamavam-me filha.

Depois de satisfazer, o melhor que pude, a curiosidade geral, chegou a
minha vez. No foi necessario que eu rogasse muito, para ser informada
da vida das minhas companheiras, no foi preciso at que eu dissesse uma
s palavra a esse respeito. Se de alguma coisa me pude queixar, foi da
pressa que ellas tinham de me contar a sua historia, o que fazia com que
fallassem todas ao mesmo tempo, havendo na caixa uma balburdia
incomprehensivel. Dir-se-ia que era alli a base da torre de Babel!

Ai! meu amigo, que horrendas coisas eu vim a saber! Que de crimes
estavam alli escondidos, d'estes que escapam  justia dos homens, mas
sobre os quaes esto abertos os olhos vigilantes da Providencia! Cada
moeda de oiro accumulada n'aquelle cofre, representava uma enorme somma
de soffrimentos. Aqui uma viuva, reduzida  miseria! mais adiante uma
donzella, pura como os anjos, lanada no abysmo da devassido! Acol um
orpho defraudado da herana paterna. Sommas consideraveis representavam
vidas e vidas de torturas incriveis, soffridas pelos vossos pobres
irmos, cujo rosto o acaso do clima revestiu com um manto luctuoso! Que
horrores jaziam alli escondidos! Que de trevas entravam na composio do
fulgor d'aquelle oiro!

Era j noite. Sentimos uma chave ranger na fechadura; tudo entrou no
silencio.

Abriu-se o cofre, e appareceu-nos o rosto livido, e a extensa figura do
usurario. Estava de barrete de dormir e de roupo. Trazia um castial.

Collocou-o em cima da meza da cabeceira, sentou-se no cho,
despejou-nos uma a uma, e comeou a revolver a massa brilhante do oiro.

--Saltem, saltem, minhas meninas, dizia elle em voz baixa e roufenha,
saltem que bem me custam a ganhar. No as crimino por isso; pelo
contrario. Que prazer ha ahi que se compare com o que eu experimento
n'este instante? Como tudo isto deslumbra! Tenho aqui o sufficiente para
comprar Portugal todo, incluindo as consciencias dos seus habitantes.
Para qu! Puf! Que me importa a mim com essa canalha, que me chama
usurario, e que me vem lamber os ps. Prazer, ineffavel prazer  este
que vs me daes. Saltem, saltem, minhas meninas!

E sorria-se com um sorriso de hyena, o miseravel!

Finalmente canou-se, tornou-nos a encher com toda a paciencia, fechou
o cofre, e foi-se deitar.

Cau tudo em silencio de novo.

Deu meia noite!

As pancadas do relogio resoaram lenta e lugubremente na solido do
quarto.

E eu senti um frio terror percorrer-me o corpo; porque um vago e
convulso estremecimento agitra no meu seio as libras silenciosas.

E o cofre abriu-se como se mo invisivel o tocasse, e um vulto
melancolico e severo, com azas negras nos hombros, appareceu em p junto
de ns.

Era o anjo do remorso! Que magestade n'aquella fronte sombria, que
pungente contraco no seu labio severo!

E elle estendeu a mo com um gesto imperioso, e eu, gelada de susto,
senti as peas de oiro moverem-se por si mesmas, e adquirirem como que
umas azas pequeninas.

Um vago e sinistro suor lhes percorreu a fronte, e esse suor era um
suor de lagrimas!

E todas se ergueram; o enxame de sinistras abelhas sau em bando da
tenebrosa colmeia, e a bulha das suas azas metallicas produzia no sei
que lugubre som!

E, ao mando do anjo do remorso, foram todas pairar sobre o leito do
avaro.

Ento vi um terrivel espectaculo; de cada uma d'essas peas de oiro
comearam a escorrer lagrimas e sangue, que iam car gta a gta na
livida fronte do usurario.

E elle agitava-se na cama, erguia as mos supplicantes, procurava
limpar a fronte, debalde! porque a horrenda chuva cahia incessante,
incessante, e alastrava em nodoa immensa, que parecia o funebre sllo da
reprovao de Deus.

E das peas de oiro saa um concerto dilacerante! concerto composto de
gritos, de soluos, de blasphemias, e de imprecaes!

Depois, a um signal do anjo, as moedas desappareceram e
transformaram-se em espectros, que vieram doidejar em torno do leito do
meu dono.

E a punio ainda era mais cruel!

Uma tomra as frmas de uma mulher, joven, bella, um anjo emfim, mas um
anjo cado!

E approximou-se do usurario, e disse-lhe com voz rouca:

--Era virgem, estava s! Protegia-me a dupla aurola da innocencia e da
orphandade! Tu vieste, especulador infame, arrojaste-me a um abysmo, e
manchaste de lodo a minha candida tunica.

E outra mudava-se n'um pobre velho, de cabellos brancos, que arrastava
uma grilheta preza no p:

--Eu era o symbolo da honra; mas tinha filhos! Reduziste-me  miseria,
e eu roubei!

E todos os espectros bradavam com voz pavorosa:

--S maldito!

Era horrivel, horrivel aquella scena!

E durou at que os primeiros e tenues clares da madrugada entrassem
timidamente pela janella do quarto.

Com o primeiro raio da aurora, vi apparecer no quarto um anjo de
brancas azas, com a face luminosa banhada em pranto.

Veiu e ajoelhou aos ps do seu terrivel irmo.

--Ainda no est satisfeita a tua vingana?--bradou elle com uma voz
melodiosa, de que  apenas um frouxo echo o plangente suspiro da harpa
olia.

Era o anjo da guarda do usurario, que o tinha abandonado, chamado pelo
Senhor, mas que attrahido pelo invencivel amor, que nos consagram estes
celestes protectores, vinha na hora do supplicio invocar, para o seu
protegido, a misericordia!

E o anjo do remorso, vencido pelas preces do seu candido companheiro,
fez um signal, e o tumultuoso enxame entrou no cofre, que se tornou a
fechar.

Um vago bater de azas denunciou-me que os dois anjos tinham voltado ao
co levados pelo primeiro raio do sol da manh.


XVI


Isto repetia-se todas as noites. O costume j me tornra indifferente.

Passaram-se talvez seis annos, durante os quaes eu nunca sa da minha
priso, e em que, pelo contrario, entraram muitas novas companheiras que
vinham augmentar o volumoso peculio, e, ao bater da meia-noite, tornar
tambem mais numeroso o funebre cortejo dos phantasmas.

No fim de seis annos morreu o meu usurario! Morreu de repente! No
tivera tempo de fazer testamento, e, segundo me disseram, iamos passar
para as mos de uma herdeira, parenta muito afastada do finado.

Com effeito, poucos dias depois da morte de Bartholomeu Nunes, vieram
uns quatro gallegos para levar a burra a pau e corda.

Tivemos a consolao de os derrear!

Quando chegmos  casa para onde iamos, os gallegos escorriam em suor,
e praguejavam como uns damnados.

Uma voz argentina fez-se ouvir junto de ns. Esta voz no me era
desconhecida; mas onde a ouvira eu? Impossivel lembrar-me!

Finalmente rangeu a chave na fechadura, e abriu-se o cofre. Que rosto
imagina que me appareceu? O de Camilla! o da minha creadora!

Descrever-lhe a alegria que senti -me completamente impossivel.

Ella primeiro no me conheceu. Espantada de tanta opulencia, no fazia
seno repetir:

--Como aquelle homem era rico!

Depois tirou para fra algumas bolsas. Entre ellas ia eu.

Camilla mirou-me attentamente, e murmurou:

--Que estranha similhana...  impossivel!... Seria extraordinario!

Era-lhe facil sair d'aquella incerteza. A sua delicada mosinha bordra
no meu corpo as iniciaes d'ella e de seu marido; por conseguinte, podia
procurar esse signal. Foi o que fez.

As duas letras--_C E_--c estavam enlaadas amorosamente.

Camilla deu um grito de alegria. Beijou-me freneticamente, exclamando:

-- minha gentil bolsinha! Torno a encontrar-te. Como ests
desfigurada! Que te tem acontecido? Ainda conservas as nossas iniciaes
n'um estreito abrao! Symbolo de um amor que passou, que doce amargura
eu sinto em te vr!

Que se passra n'aquella casa? Que acontecimento motivra as tristes
palavras de Camilla?


XVII


Juro-lhe que n'esse momento tive pena de no ser um ente possuidor da
faculdade do movimento, de vida, emfim, para poder corresponder aos
ternos beijos com que a minha boa dona me saudava. Infelizmente, tinha
de me contentar com os receber e no podia retribuil-os. Via-me obrigada
a ficar immovel, gelada, na apparencia indifferente.

Para lhe poupar o trabalho, que eu tive, de saber a pouco e pouco o que
se passra, eu lh'o digo em poucas palavras.

Camilla, como sabe, tinha genio ciumento. Eduardo era impaciente e
teimoso.

Tinham-se repetido muitas vezes scenas similhantes quella que me
obrigra a sair pela janella, como um amante surprehendido. Uma vez,
porm, a discusso fra mais agitada, do que era habitual. Eduardo
irritra-se, Camilla teimra, e o rompimento seguira-se. Fra uma
especie de divorcio _intra muros_, com consentimento de ambos. No havia
nem sombra de escandalo. Muito amaveis um para com o outro na sociedade,
em casa viam-se apenas s horas da comida, fallavam-se muito
cortezmente, e depois cada um partia para o seu lado.

Esta intoleravel situao durava, ia para seis mezes. E no julgue que
o amor dos dois esposos tinha afrouxado; pelo contrario, amavam-se cada
vez mais; porm o seu genio orgulhoso impedia a cada um d'elles dar o
primeiro passo para a reconciliao. Soffriam, e soffriam em silencio.

Ahi tem a explicao das phrases de Camilla.

Estava-me ella ainda beijando, quando bateram  porta devagarinho.

--D licena?--disse a voz de Eduardo.

Camilla enxugou os olhos rapidamente, collocou-me em cima da meza, e
respondeu com voz ainda um pouco tremula:

--Entre!

Eduardo entrou. O tempo no alterra a belleza varonil do mancebo; s
um bonito bigode negro substituira o ligeiro buo do adolescente.

Eduardo devia ter vinte e nove annos.

--Desculpe-me incommodal-a, disse elle, sorrindo; mas nomeou-me
procurador n'este negocio da herana, e, por conseguinte, vejo-me
obrigado a estar sempre a importunal-a para lhe dar as minhas contas. O
ministro da fazenda deve ter entrada franca junto d'el-rei.

--Pde vir sempre sem receio de me importunar.

--Ah! diga isso  vontade. Eu nunca tomo as coisas ao p da letra. Erro
grosseiro, que tanta gente commette, e d'onde resultam tantos
desenganos.  para mim axiomatico o seguinte principio: Todo o homem na
conversao deve ser um agiota feroz; no receber as palavras sem um
desconto de cincoenta por cento. Eu podia n'este ponto fazer um
_calembourg_ sobre as palavras e as letras... de cambio; mas sou
misericordioso. Ah! a proposito de agiota; estava dando balano aos
fundos do seu parente? J vejo que no podia chegar em melhor occasio.

--No! enganas-te; estava contemplando as bolsas em que elle mettia o
dinheiro. Tem algumas que no so feias.

--Ia jurar que conhecia esta, atalhou Eduardo, erguendo-me com
vivacidade; parece-se tanto com uma...

Interrompeu-se, passou a mo pela testa, e depois continuou:

--Com uma que desappareceu, como tudo o que ella symbolisava.

--Recordaes?! tornou Camilla, sorrindo ironicamente.

--No, vento de inverno que sacudiu um instante as cinzas frias de um
amor que morreu! Se uma centelha fulgurou por acaso, desculpe-me.

--Desculpal-o?!

--Sim, desculpar-me! Nem todos teem fora sufficiente para arrancar
pela raiz, do jardim do corao, as ridentes flres da mocidade. Sobre o
tumulo, em que sepultmos o passado, brotam involuntariamente rosas.
Passa uma aragem ligeira, e l nos vem um perfume acariciar de novo. Mas
deixe, que hei de decepar a roseira, ainda que da hastea cortada corra o
sangue em borbotes.

--Quem foi o culpado d'isso?

--Quem? Nem eu sei. Sei apenas que esse algoz desconhecido retalhou-me
bem fundo o corao. Bem fundo! Como v, a cicatrizao no foi
perfeita, e a ferida ainda sangra de vez em quando! Que
loucura!--continuou elle mudando de tom, e sentando-se n'uma cadeira com
modos affectadamente joviaes, se no foi melhor assim! Para fallarmos
verdade, Camilla, j nos iamos tornando ridiculos com o nosso eterno
arrulhar! Que absurdo! Dois pombinhos namorados, atravessando o mundo,
atados um ao outro com o lao cr de rosa do santissimo matrimonio! O
mundo ria-se e tinha raso; porque o mundo tem sempre raso. Agora  que
estamos bem. Somos uns esposos comedidos; encontramo-nos tres vezes por
dia; eu sou o seu procurador, v. ex.^a a minha intendente. Eu sou o
encarregado dos negocios estrangeiros, v. ex.^a dos do reino. Vejam se
ha n'este mundo viver melhor! A paz do Senhor habita comnosco!
Ah!--continuou Eduardo animando-se successivamente, morram as suaves
recordaes! Arraze-se o jardim, para fazer brotar a ora das
conveniencias! Morra tudo quanto nos possa recordar as doces horas do
alvorecer do nosso amor, esses arrufos, chuvas de primavera, os beijos
da reconciliao, iris delicioso! Olhe, d-me licena que afaste da
nossa vista tudo quanto possa despertar pensamentos perigosos,
prejudiciaes ao nosso repouso. Morra este ultimo objecto, que ainda se
atreveu a fallar-me em coisas para sempre esquecidas.

E, dizendo isto, levantou-se n'um incrivel estado de agitao, e
agarrando em mim com vehemencia, ia a atirar-me pela segunda vez pela
janella fra. Eu estava j desesperada pela incrivel tendencia que
Eduardo mostrava para me fazer saltar pela janella, e pensando na minha
triste sorte, que ia atirar comigo ao mar das aventuras, quando julgava
entrar no porto de salvao.

Um grito de Camilla foi quem me livrou de travar de novo conhecimento
com o espao.

--Eduardo, Eduardo, bradou ella com as lagrimas nos olhos, v bem essa
bolsa!

Eduardo contemplou-me, viu as iniciaes, reconheceu-me, e, voltando-se
para Camilla, leu-lhe nos olhos uma tal expresso de amor, que, sem se
poder conter, caiu-lhe aos ps, banhado em lagrimas deliciosas, em
quanto ella, n'um extase ineffavel, lhe beijava os cabellos.

Que momento aquelle!


XVIII


Termina aqui a minha narrao. Nas bolsas como nas naes, so felizes
as que no tem historia.

Dir-lhe-hei unicamente que fui conservada em casa de Camilla e de
Eduardo, como uma reliquia preciosa, que se conservava tal qual eu tinha
reapparecido, para trazer a concordia quelles dois estouvados.

Quando Eduardo morreu, fui eu a confidente e a consoladora de Camilla.
Como esta nunca tinha tido filhos, era comigo que fallava em seu marido,
e muitas vezes me regou com as lagrimas que derramava. A pobre senhora
conservava sempre viva e ardente no corao a imagem do seu esposo.

Morreu a opulentissima viuva. Os herdeiros, tambem j bastante ricos,
quizeram liquidar aquelles immensos haveres. Venderam tudo, eu fui com a
mobilia da casa, e alli, graas ao meu amigo, salvei-me de cair nas
garras de algum segundo Bartholomeu Nunes, que me tivesse seis annos
fechada em cofre.

Ao menos com o senhor tenho podido tagarellar.

Aqui ponho ponto.


XIX


Assim fallou a bolsa, e eu, secretario fiel, fui escrevendo textualmente
o que ella me dictou.

Tiro de cima dos meus hombros toda e qualquer responsabilidade.

A aurora comeava a apontar no horisonte. Ao passo que a deusa dos
roseos dedos abria as portas do Oriente, a bolsa a pouco e pouco ia
perdendo a animao ficticia, que um poder sobrenatural lhe emprestra,
e ia-se deixando cair em cima da meza.

Eu, ingrato, no me importei com isso. Em quanto ella ia voltando ao seu
estado normal, contemplava satisfeito o papel inundado de garatujas,
cuja perpetrao principal no fra commettida por mim, e escrevia no
fundo da ultima pagina, as seguintes palavras sacramentaes:

_Finis, laus Deo_.

       *       *       *       *       *

Quando Lucio Valena acabou a sua longa leitura, o visconde da Fragosa
resonava maravilhosamente, e o conselheiro Madureira formava com elle um
duetto mais ou menos parlamentar. Henrique e Leonor applaudiam
calorosamente; Roberto Soares fazia as suas reservas; Isaura lanava
olhares assassinos ao auctor, que na febre da vaidade litteraria nem
reparava n'essas amaveis provocaes. O doutor Macedo indignou-se.

--O Lucio, bradou elle, sau fra do meu programma. Inpingiu-nos um
romance humoristico debaixo da bandeira de conto da meia-noite. Lavro um
protesto, e peo que se lance na acta.

--Apoiado! exclamou o visconde da Fragosa, acordando.

--Mas, doutor... acudiu Valena, rindo.

--Qual mas nem meio mas! Ento isto  conto phantastico? Voc nunca leu
Hoffman? Voc nunca leu Carlos Dickens? Leu, sim senhor, mas tinha o
romance fechado na sua gaveta, apanhou auditorio benevolo, e impingiu-o.
Quer editor! No  outra coisa, minhas senhoras, quer editor! Ento onde
ha aqui espectro? onde ha viso? onde ha os terrores legendarios da
meia-noite?

--Peo a palavra, interrompeu Lucio, rindo.

--Sobre a ordem ou sobre a materia? perguntou gravemente o visconde da
Fragosa.

--Sobre o espirito, redarguiu Lucio.

--No  parlamentar, tornou o visconde.

--Deixe-o fallar, visconde, deixe-o fallar que eu j o esmago.

--Veremos, tornou Lucio. Qual era o nosso fim, doutor? Matar a
meia-noite... Matou-se. Tres noites a fio se contaram coisas medonhas,
coisas de arripiar os cabellos, vieram aqui  praa defunctas que vo a
S. Carlos, phantasmas da meia edade, egrejas submarinas que se illuminam
mysteriosamente  meia-noite. Algum de ns trepidou? No; pelo
contrario. A meia-noite hoje passou, e ninguem deu por tal. Queriam que
eu abusasse da victoria? A meia-noite morreu. _Parce sepultis?_

--Sophismas! sophismas vos!

--Appllo para o _claro auditorio meu_.

-- vaidoso! bradou o doutor Macedo, isso  de Bocage, sabes tu,
profano? ousas comparar-te ao gigante?

--Eu por mim gostei, exclamou Leonor.

--Eu tambem! tornou Henrique, trocando uma vista d'olhos com a gentil
filha dos viscondes da Fragosa, ainda que me parece que os arrufos de
Eduardo e de Camilla duraram mais do que seria de raso.

--Tu cheiras-me a noivo, Henrique! disse o doutor. Exhalas um vago
perfume de flr de larangeira.

--Eu, exclamou logo Isaura, requebrando-se toda, declaro que ainda aqui
no ouvi coisa de que mais gostasse.

--Oh! minha senhora, tornou Lucio, desfazendo-se em agradecimentos.

--Percam-n'o com as lisonjas, percam, acudiu o doutor Macedo. E agora
deixem-me pronunciar a dissoluo da sociedade _Inimiga da meia-noite_.
Est a terminar o tempo da _villeggiatura_. Depois de manha  a ultima
caada. Est dissolvida a associao.

--Doutor, antes d'isso tenho que lhe apresentar um requerimento, disse a
doce voz de Leonor.

--Mandar para a meza, emendou o visconde da Fragosa.

--Que requerimento ? perguntou Macedo.

--A Juliasita e o Alvaro tem sabido que se contam aqui, depois d'elles
se deitarem, historias pavorosas, e as criadas vem-se gregas com elles
para os despirem quando chega a hora de os deitarem, porque no  seno
dizerem que querem ficar a p para ouvirem as historias. Prometti-lhes
que uma noite d'estas assistiriam  entrevista. Como decididamente j
ninguem pensa na meia-noite, como hoje se abriu o exemplo de no se
esperar a hora fatidica, no podiamos manh, ao anoitecer, abrir a
sesso para os pequenitos assistirem?

--Ora... para qu, Leonor? acudiu a viscondessa, os teus irmos caem de
somno s primeiras palavras.

--De certo, se se lhes no escolher coisa de que elles gostem. A
_Julieta_ de certo a no perceberiam, acudiu Leonor, sorrindo
maliciosamente para Henrique.

--No eram s elles, resmungou Henrique Osorio.

Isaura no ouviu; estava toda embebida n'uma larga conversao com Lucio
Valena.

--Ah! eu me encarrego d'elles; pago manh a minha quota, aproveito o
precedente de Lucio.

--O qu? o qu? acudiu Lucio, que ouvira pronunciar o seu nome.

--Falla se por aqui no teu precedente, ou no teu predecessor, que  a
mesma coisa. Julgavas que o no tinhas?

Leonor desatou a rir, Henrique fez-se ligeiramente crado, Isaura no
comprehendeu.

--Invocando, pois, o precedente de Lucio, continuou o doutor,
apresentarei manh, em obsequio ao Alvaro e a Julia, uma _lenda da
meia-noite_, que no ser lenda e que no ser  meia-noite, o que dar
a Roberto Soares assumpto para um estudo intitulado: _De como degeneram
as lendas_.

Dispersou-se a companhia, porque era j tarde, mas Henrique e Leonor
tinham aberto uma janella e conversavam animadamente.

Ao passar junto d'elles, Isaura, a quem Lucio dava o brao, no pde
eximir-se a dizer-lhe:

--Veja se se transforma em espectro essa nova Julieta.

--Minha senhora, acudiu Henrique, transformam-se em espectros ou em
nada, que  a mesma coisa, as loucas vises que sonha a phantasia
enferma. Esses sonhos, quando se desperta, deixam apenas uma impresso
pesada e morbida. E quando se acorda  que se percebe que as Julietas
nunca foram amadas com o corao, foram sempre um pretexto para as
divagaes de uma imaginao desnorteada.

--E encontrou a bussola, Henrique? acudiu Lucio, motejador.

--Encontrei, sim, meu amigo.

--Procurou-a por muito tempo?

--Estava ao meu lado. Somos to loucos que nunca pensamos em reparar se
nas pedras do nosso jardim habitualmente no se encontrar alguma que
tenha as qualidades maravilhosas do magnete, e deixamo nos attrahir
tolamente por umas pedras que brilham, que julgamos diamantes e que so
apenas...

--O qu?

--Pedaos de vidro que brilham ao sol; o fulgor era do sol e no
d'elles.

Os dois companheiros de sero trocavam j olhares inflammados, e nas
suas vozes havia um tom ameaador. Isaura assistia olympicamente
desdenhosa a esse torneio de espirito. Leonor, inquieta e magoada,
sentia os olhos marejarem-se-lhe de lagrimas.

--Se no se vo deitar, apago eu mesmo as luzes, exclamou o doutor
Macedo intervindo de subito e separando bruscamente os quatro
personagens da scena. Olhem que massadores!

E, emquanto o grupo se dispersava, trocando despedidas um pouco frias, o
doutor Macedo fechava a janella murmurando:

--_Cherchez la femme_.

       *       *       *       *       *

Na noite seguinte assistiam dois novos ouvintes  leitura. Eram Alvaro e
Julia, os dois filhos mais novos dos viscondes da Fragosa. As creanas
estavam radiantes de alegria; emquanto Alvaro, loira creana de seis
annos, cravava os grandes olhos azues, com infantil curiosidade, no
doutor Macedo, Julia, uma menina de nove annos, toda elegante, e que era
o retrato de sua irm mais velha, ouvia, rindo s gargalhadas, as
historietas de Henrique Osorio que a tinha no collo, e que,
prodigalisando-lhe as caricias, esperava assim reconquistar as boas
graas de Leonor, que ficra um pouco ferida pela scena da vespera, em
que lhe parecra vr um resentimento que mostrava que Isaura no fra de
todo esquecida.

--Meus meninos, disse o doutor Macedo desenrolando o seu manuscripto, 
s c para ns este conto. A mana, o Henrique e os outros que riam ou
durmam, se quizerem. Ns c  que nos vamos entreter. Este conto  s
para ns, e intitula-se...

Lucio Valencia, que estava collocado defronte de uma janella aberta,
interrompeu com um espirro o discurso de Macedo.

--_Dominus tecum_, concluiu o doutor.

--Obrigado, disse Lucio.

--No  obrigado,  o titulo do conto. Mas vejam o que  ser-se
litterato. Espirramos, diz-nos alguem _Dominus tecum_;  o que basta,
saiu um conto!

Todos desataram a rir, e o doutor, com a sua voz admiravel, com a rara
sciencia de recitao que possuia, comeou a lr, no meio de profunda
atteno das duas creanas, o seu _Dominus tecum_.




DOMINUS TECUM...

(CONTO PARA CREANAS)


I


Agora que a noite comea a desenrolar o seu manto azul, onde essas fadas
luminosas, que se chamam estrellas, danam em torno da sua branca
rainha, que percorre o firmamento no seu argenteo carro, umas solitarias
e pensativas, como a scismadora Venus, outras formando immensa e jovial
chora como as brancas estrellinhas da via lactea; agora que principia a
ouvir-se ao longe o grave som das Trindades, perfume de harmonia que
parece exhalar-se das urnas gigantes dos campanarios, vinde, meus
meninos, vinde agrupar-vos em torno de mim, e ouvir as historias
maravilhosas que eu tenho para vos contar.

Arredae da fronte os loiros anneis dos vossos cabellos, doirados fios
que enreda, teimosa, a brisa folgaz, como que para vos desafiar para
novos brinquedos, e fitae-me bem com esses olhos azues, transparentes
como o lago limpido, puros como o co ridente, que vos quero povoar os
sonhos de imagens luminosas d'esse mundo louo de fadas e duendes!

 sonhos infantis! Quem poder jmais saber quanto esvoaar de azas
brancas, quanto rescender de ignotos perfumes, quanto desabrochar de
lindas flres, quanto lampejar de suavissimos clares nos revela aquelle
innocente sorriso que volteia nos labios da creana adormecida!

Que deliciosos colloquios no haver entre essa almazinha gentil, que
aspira ao co, e os anjos, que se debruam meigamente do azulado
Empyreo, que a tomam nos braos, que a embalam e lhe sorriem!

E eis o motivo porque sempre despertaes chorando:  porque os anjos vos
poisam no bero, vos beijam na fronte; porque vdes as suas azas
candidas transporem n'um vo o espao, e cerrarem-se com fragor as
doiradas portas do Empyreo.

E s vos aplaca o choro o meigo sorrir das mes; porque, se ha anjos na
terra, onde se abrigariam elles se no fosse no brando seio maternal?

Onde encontrariam imagem mais perfeita do seu Paraizo?

Mas entre o co e a terra ha outro mundo de encantos, onde esvoaam as
fadas travessas, os maliciosos duendes, que so tambem amigos das
creancinhas e as vo poisar, s vezes, no purpureo regao das rosas, ou
nas rendas prateadas do immenso vo do luar.

De dia dormem escondidas no calice das flres, ou no seio dos lagos, ou
nas folhas das arvores; mas, quando soam Trindades, eil-as a esvoaar no
ambiente, e  o bater das suas azas, o chilrear das suas vozes, que
produzem esses ineffaveis murmurios que vos encantam e que vos fazem at
cair, sem saberdes por qu, n'uma doce melancolia.

So ellas quem ensinam aos rouxinoes esses maviosos gorgeios, esses
deliciosos trinados, que toda a natureza escuta embevecida n'um vago
extase.

So ellas quem accendem nos pyrilampos, esse phantastico fulgor que
vagueia nos prados, e matiza de oiro o fundo verdejante da relva.

So ellas quem desentranham do seio das flres as nuvens de perfumes,
que espalham depois, rindo, na atmosphera.

 o seu bafo a brisa voluptuosa e leve, que faz correr um vago
estremecimento pelas corollas gentis das rosas e dos lirios.

Por isso a noite  mais formosa do que o dia; porque o dia pertence aos
homens, e durante a noite imperam os espiritos subtis.

A natureza v passar com indifferena, e at com odio, o homem que se
diz seu rei, e cuja realeza  uma verdadeira tyrannia.

Porque o homem decepa as arvores frondosas; colhe as flres que viavam
alegres, e que vo finar-se em ramalhetes; acorda os echos doridos com o
estrondear das suas espingardas; e a toda a parte, onde estabelece o seu
dominio, leva comsigo a destruio e a morte.

Nunca viram, meus meninos, arder uma floresta?  horrivel! As arvores
contorcem-se na agonia, erguem ao co os ramos esbrazeados, soltam
gritos de desesperao. No  a vegetao inerte que se reduz ao nada, 
a vida que fenece em convulses.

E quem incendiou a floresta? Quem brandiu o facho assolador entre a
folhagem lustrosa? Foi o rei da natureza! Foi o monarcha da creao!

As fadas e os duendes no destroem assim esses mysteriosos sanctuarios,
onde se abrigam tantos amores, tantas vidas, to incessante trabalho de
renovao! Tem, pelo contrario, com elles mil desvelos; so ellas quem
descerram a pouco e pouco os verdes botes das rosas do matto; so ellas
que penetram nos troncos, e fazem girar a vivificante seiva em todos os
pontos da arvore caduca; so quem a ajudam depois a desabrolhar em
pimpolhos, em flres e em fructos.

Por isso, quando  noite danam e folgam nos ares, toda a natureza se
compraz em lhes adornar os festejos; as brisas volteiam com as suas
urnas cheias de aromas; os rouxinoes descantam as suas arias; a
orchestra immensa dos pinhaes, das carvalheiras e dos salgueiraes
entrega aos arcos invisiveis do vento as frementes cordas das suas
franas, ou deixam que mo ignota doideje vagamente nas teclas das suas
frondes! E tudo canta, ri e folga, porque so as fadas que danam, as
fadas areas, os travssos duendes.

E o homem entretanto, encerrado nas suas mesquinhas moradas, respira uma
atmosphera corrompida, sente o suor a borbulhar-lhe na fronte depois de
dar um giro na sala abafadia, e cerra cuidadosamente as janellas, para
que lhes no chegue nem um murmurio, nem um effluvio, nem um raio de
luz.

E a natureza aproveita a ausencia do rei da creao, e canta, e folga, e
ri, porque so as fadas que danam, as fadas risonhas, os duendes
maliciosos.


II


Em toda a parte ha fadas, meus meninos; mas, como podem suppr, no tem
o mesmo genio, a mesma indole nos differentes sitios. N'uns pontos
persegue-as o infortunio, n'outros sorri-lhes a ventura.

Na nossa terra abenoada, em que temos o co de veludo, aguas de
crystal, sol de oiro vivo; onde nos ares limpidos parecem brotar por
encanto musicas suavissimas; onde viam flres com profuso; onde as
brumas so vo ligeiro que touca as cumiadas dos montes, e no glido
manto que envolve as planicies, folgam as fadas de viver.  este o paiz
dos seus sonhos, este e a Hespanha, e a Italia e a Grecia, onde viveram
por tanto tempo as nymphas, as naiades e as dryades, que eram as fadas
dos pagos.

Livres no ar, alimentando-se de perfumes que nunca lhes faltam,
abastecendo-se nas madre-silvas e nas magnolias, aquentando-se nos
ninhos das avesitas, viajando n'um raio da lua, no tendo mais em que
cuidar seno em pentear os seus lindos cabellos, em mirar-se e em
banhar-se nas aguas transparentes, apenas uma vez por anno, na bemdita
noite de S. Joo, tem de ser oraculos das donzellinhas, que lhes vem
perguntar qual o porvir dos seus amores.

Donosa occupao! Sair do asylo da folhagem e entrar na alma ingenua da
donzella,  apenas mudar de ninho, e no sei qual ser mais suave, mais
macio, mais delicioso e mais immaculado.

Estava com passarinhos, com passarinhos vae estar! Pois o que so os
amores? E se escutavam deliciosos -----File:
195.png---\rita_marreiros\ArturPires\ichigochi\Manela\luisa\----gorgeios,
finas trovas, podiam nunca ser to mimosos esses cantares como o poema
seductor, cujas estrophes resoam n'um corao de vinte annos?

Mas ai! nem sempre  assim. Nos frios paizes do norte, na nevoenta
Inglaterra, na verde mas tristonha Irlanda, no encontram as fadas e os
duendes as douras d'estes ares, os esplendores d'estes cos, a
suavidade d'estas brisas. Mal que chega o inverno, gelam-se as aguas,
morrem de frio os passarinhos implumes nos pobres ninhos devastados pela
procella, a neve mata as flres, embacia-se o claro da lua, desmaia a
luz e affrouxa o almo calor do sol, no ha perfumes nem galas, e ai de
quem intentasse danar nos ares quando o graniso cae!

Coitados dos pobres duendes! Coitadas das gents fadas! Elles, que
adoram a liberdade, vem-se obrigados a refugiar-se nos quentes curraes,
na cinza do lar, e at na chamin! Ah! como os seus irmos dos paizes do
sul teriam d d'elles se os vissem com as azas brancas maculadas de
fuligem, a no ser que estejam expostos ao frio e  neve  porta de casa
pouco hospedeira, onde no lhes abram sequer uma fisga por onde possam
metter os corpinhos enregelados.

Mas os homens so crueis e egoistas, e no concedem um favor sem mirarem
a galardo; esto promptos a acolher os pobresinhos dos espiritos, com a
condio que estes os ho de servir. E aqui temos os nossos duendes e as
nossas fadas, fieis  sua palavra, a ordenhar as vaccas, a guardar as
ovelhas, a tratal-as nas doenas, a evitar-lhes o mau-olhado, a proteger
os donos da casa, emfim, a fazer o que dez criados no fariam.

Mas, meus meninos, os homens, no contentes com isso, traam muitas
vezes fazer-lhes mal, livrar-se d'elles, descumprir a sua palavra, e
isso tudo exacerba-os, e fal-os tambem, s vezes, maus e vingativos.

Ah! meus meninos, a miseria  a me terrivel do mal, tanto nos homens
como nos duendes. A miseria, e a escravido, e a ausencia da luz! Ah!
quando virdes um criminoso, no o anathematiseis, mas vde primeiro em
que atmosphera viveu, quaes foram as primeiras idas que teve, qual o
estado da sua intelligencia. E vereis sempre a miseria, o embrutecimento
e as trevas.

Por isso, quando frdes homens, dedicae-vos  grande obra da regenerao
dos vossos similhantes, ao seu esclarecimento e  sua educao moral.

E assim tereis cumprido a vossa misso na terra, assim tereis cumprido o
grande preceito da nossa religio a caridade, preceito que encerra em
si todos os outros, raio de luz que, em se espraiando pelo mundo, basta
para dissipar as sombras mais cerradas.

Mas voltemos aos nossos duendes, de que j nos iamos afastando tanto.


III


Oiam pois, meus meninos, esta historia, em que vereis como os duendes
se transformam com a miseria e com o mau exemplo dos homens.

Aqui tem eterna juventude, l chegam a envelhecer e tem uma velhice
repugnante; aqui no pensam seno nas suas fadas, l ousam querer raptar
as filhas dos homens.

Ora pois, havia na Irlanda um camponez chamado Patricio, que pedira um
favor a um duende, offerecendo-se a recompensal-o; mas, apenas se viu
servido, fiado no caracter bom d'esses genios benevolos, no pensou mais
em similhante galardo.

O duende, que j era velho e rabugento, e moido de trabalho, enfadou-se
com esta falta de palavra, e condemnou o camponez a servil-o sete annos
e um dia.

Sentena dada por duende irritado inscreve-se no livro do destino, e l
no  possivel arrancarem-se as folhas, como se fez em Portugal, nem
queimar a casa onde o livro est, como se fez em Frana.

O pobre Patricio, que no quizera dar uma pequena recompensa, viu-se
obrigado a servir seu amo sete annos, sem ao menos ter a esperana que
teve Jacob, que se viu mettido em eguaes danas, como os meus amiguinhos
sabem, mas a quem fra promettida em premio a formosa Rachel.

E, ainda assim, Jacob no tinha seno que pastorear os rebanhos de
Labo, o que, por fim de contas, no  uma occupao desagradavel.

Mas o pobre Patricio, esse estava em peiores circumstancias. Alm dos
trabalhos habituaes, fazia tambem de escudeiro de seu amo, e tinha de o
acompanhar nas suas excurses nocturnas, excurses que eram sempre
feitas a cavallo.

Mas a cavallo em qu? Imaginam que iam montados em guapos corceis, como
esses em que os seus paps montam, ou em pacatos burrinhos, como esses
em que os meus meninos vo tambem dar os seus passeios?

Pois no; as coudelarias do nosso duende tinham outra casta de
cavalgaduras; eram immensas porque abrangiam toda a natureza, e porque,
a fallarmos verdade, os cavallos no occupavam muito espao. Chegavam,
por exemplo, ao meio de um campo, viam duas feveras de palha, o duende
pegava n'uma, dava outra a Patricio, e dizia-lhe: Monta.

Montar era facil de dizer, mas de fazer? Parece-me, realmente, que o
mais perito mestre de equitao se havia de vr seriamente embaraado.

Patricio arrancava os cabellos, amaldioava a sua avareza, que o levra
quelle misero estado; mas como arrancando os cabellos ficava calvo, e
no transformava a palhinha nem em burro nem em corcel, no tinha
remedio seno montar, e l ia elle por esses ares fra atraz de seu amo,
que cavalgava to ufano como se montasse no celebre Bucefalo de
Alexandre, em que os meus meninos talvez j ouvissem fallar.

De que elle tinha medo principalmente era que os seus visinhos o vissem
n'aquella figura, mas d'isso no havia perigo; o duende, sendo invisivel
para olhos profanos, tornava-o invisivel tambem a elle.

Outras vezes no eram feveras de palha, mas juncos e cannas os corceis
escolhidos; o bom do Patricio quiz vr se conseguia que seu amo
acceitasse dois paus de vassoura, que sempre seriam, emfim, cavalgaduras
mais commodas; mas, apenas elle abriu a bocca, o duende respondeu-lhe
com tanta dignidade que isso era bom para as bruxas, que o pobre
irlandez no ousou insistir, e tratou de vr se aprendia as regras da
picaria aeria, e de escolher a posio mais commoda que podesse na tal
fevera de palha que o transportava pelos ares.

Ora um dia, ou antes uma noite, o duende chamou Patricio e disse-lhe com
modo benevolo:

--Meu amigo, determinei casar. Estou a fazer mil annos, e parece-me que
 tempo de tomar estado e familia. Escolhi para minha noiva a formosa
Jenny, e vamos esta noite buscal-a.

Patricio bem desejaria responder que os olhos azues, as tranas loiras,
a rosea bocca e as faces nevadas da formosa Jenny no deviam ser para um
velhote como elle, e que um noivo de mil annos, a querer tomar estado,
devia escolher uma centenaria, e no uma rapariga na flr dos seus vinte
annos, e que, alm d'isso, raso de todas a mais forte, Jenny casra
n'esse mesmo dia, e n'esse instante devia-se estar celebrando a boda em
casa do noivo. Mas Patricio bem saba que o duende no gostava de
reflexes, e portanto, sem tugir nem mugir, montou a cavallo n'uma folha
de couve, que era o corcel de gala, e seguiu seu amo pelos ares fra.


IV


Tudo era festa e riso em casa de Jenny. Brindes sem conta soavam a cada
instante, as violas desprendiam os seus alegres epithalamios, e a meza,
servida  farta, ostentava-se com a alvissima toalha no meio da casa.

A noiva era realmente galante a mais no poder ser. Nos olhos to azues
e to meigos parecia que se refugira a cr do co, expellida do
firmamento pelas nuvens, e com a cr do co a doura dos anjos.

Os cabellos tinham o colorido das espigas de trigo; na bocca pequenina
esvoaava um sorriso de amor, como borboleta em rosa. As faces eram to
brancas, to brancas, que desmaiaria junto d'ellas a neve das montanhas
de Erin; mas n'esse momento incendia-as o prazer e tingiam-se de
reflexos roseos, como a nivea toalha dos pincaros, quando o sol a
illumina ao descair no occaso.

O noivo era um rapaz esbelto e varonilmente formoso. O olhar ardente com
que, para assim dizermos, enlaava Jenny, mostrava o immenso amor que
lhe tinha; a meiguice dos raios de luz, que emanavam dos olhos da gentil
irlandeza, revelava que a voz d'esse amor encontrra um echo no corao
da formosa que o duende cubiava para noiva.

Os convivas agrupavam-se em torno da meza, e no logar de honra, campeava
o gordo padre prior, que fazia frente a um magnifico prato de cabea de
porco, flanqueada de feijes, que lhe levava os olhos, como a formosa
physionomia de Jenny enlevava o enamorado esposo.

O duende e o seu criado entraram sem ninguem dar por elles, e foram
sentar-se commodamente n'uma das traves do tecto. Os cavallos haviam
ficado no telhado fra do alcance das outras cavalgaduras, que seriam
muito capazes de as devorar, sem respeitarem por frma alguma a
confraternidade que as pobres folhas de couve allegariam.

Empoleirado alli assim, Patricio estava talvez um tanto incommodado,
principalmente porque lhe chegava o cheiro dos bons manjares que ufanos
campeavam em cima da meza, e o seu estomago segredava-lhe que seria
muito melhor fartal-o a elle do que fartar os olhos com as saborosas
iguarias.

Mas o bom irlandez bem sabia que o seu duende nunca lhe consentiria
mostrar-se, e, portanto, consolava-se pensando que talvez a ceia das
bodas do seu amo fosse ainda melhor do que essa que o estava namorando.

Depois relanceou os olhos para a noiva, e em seguida para o seu
companheiro da trave, e pensou que era realmente uma barbaridade ligar
assim to donosa primavera a to encarquilhado inverno.

N'isto a noiva espirrou.

Um espirro no  coisa que envergonhe ninguem, mas o espirro de Jenny
fez tanta bulha, que a pobre menina corou muito, sentindo que todas as
vistas se haviam voltado para ella.

Excepto, ainda assim, as do padre prior; o anafado sacerdote empunhava o
garfo e a faca, e com os olhos cravados na cabea de porco, a nada mais
dava atteno.

Era natural, meus meninos, que dissessem  formosa Jenny o consagrado
_Dominus tecum_; ninguem, effectivamente, queria faltar a esse dever;
mas a cortezia ordenava que se deixasse o padre prior tomar a
iniciativa, e, por conseguinte, todos esperaram.

O padre prior tomava n'esse instante a iniciativa, mas era de se deitar
 cabea de porco; cravou o garfo destramente, vibrou com certeza rara a
faca a um bom tassalho, e transportou-o do prato geral para o seu prato
particular.

Terminada essa difficil operao, o padre prior poisou as armas
triumphantes ao lado do prato, travou gravemente da colhr, e, em tres
ou quatro viagens, fez mudar de gasalhado, e erigiu, em enorme acervo,
uma respeitavel quantidade de feijes.

Ninguem ousou advertil-o do seu esquecimento, e, depois d'esse pequeno
incidente, a festa continuou com o mesmo estrondo e enthusiasmo.

A bulha dos queixos do padre prior superava o tumultuoso acompanhamento.

Mas o duende  que dava pulos de contente na trave, e dizia a Patricio:

--Se ella d mais dois espirros e ninguem lhe diz _Dominus tecum_, 
minha; foi isso o que Satanaz me prometteu.

O pobre Patricio enfiou; decididamente, o nosso irlandez tinha boa alma:
se no fosse a tal avareza...

Emfim, ninguem pde ser perfeito.

D'ahi a instantes Jenny espirrou de novo, mas a pobre menina ficra to
envergonhada da primeira vez, que o segundo espirro comprimiu-o por tal
frma, que ninguem o ouviu, nem mesmo o seu noivo, que se via obrigado
n'esse instante a escutar uma enorme dissertao de seu sogro sobre o
cultivo da batata.

O padre prior comia.

Por conseguinte, ainda d'essa vez passou o espirro sem o competente
_Dominus tecum_.

O duende pulava, dava cabriolas, fazia bulha tal, em fim, que por mais
de uma vez um ou outro conviva olhou para o tecto, mas, no vendo coisa
alguma, julgou que seriam ratos e continuou a divertir-se.

Patricio scismava; era realmente uma dr d'alma vr to gentil menina
cair em poder d'aquelle espirito malicioso; pensava que talvez a podesse
salvar, mas lembrava-se das iras de seu amo, que podiam cair sobre elle,
e abanava a cabea deixando-se ficar mudo e qudo.

Finalmente, soou o terceiro espirro da menina, ainda mais comprimido que
os dois primeiros.

Mas ao mesmo tempo retumbou no tecto um formidavel _Dominus tecum_, que
fez tintinar os vidros e tremer os convidados.

E logo um corpo humano veiu, aos reboles pelo espao, baquear em cima
da meza, entornando o prato do padre prior, que soltou um grito de
desespero, e apanhou na batina o naco de cabea de porco, antes que um
mastim faminto, que andava rondando os ps das cadeiras, dsse com to
boa fatia.

Era Patricio que, vencendo as suas indecises, reunira todas as suas
foras e coragem, e salvra d'essa frma a formosa Jenny.

Ao mesmo tempo ouviu-se uma voz que dizia:

--Despeo-te do meu servio, mas ahi tens o ordenado.

No era mau, effectivamente; o irlandez esteve tres mezes em lenoes de
vinho, e ficou toda a vida com uma dr nas costellas.

Mas os dois noivos, a quem elle contra o que estivera para lhes
succeder, foram-lhe eternamente gratos, ajudaram-n'o muito na sua vida,
e, quando envelheceu, levaram-n'o para casa, onde teve sempre uma boa
cadeira, onde se sentava a apanhar a sua restea de sol, e onde
entretinha os filhos de seus hospedes, contando-lhe as suas viagens
arias, e a historia dos tres espiritos.


V


Cerrou-se a noite de todo, meus meninos, e o sereno esplendor da lua
branqueia-vos as rosadas faces; desperta a natureza quando adormece o
homem; as flres entreabrem os seus thuribulos; a fonte desdobra o
transparente crystal das suas aguas, e as naiades chorosas entoam os
seus lamentos.

J o somno comea a fazer-vos pender a fronte; brincastes, correstes
durante o dia  luz do sol, chega a hora do repouso, depois, quando
frdes crescidos, gostareis de ficar, como eu fico, a contemplar o
estrellado docel do firmamento, e a perguntar s vozes mysteriosas da
natureza qual  o segredo que faz palpitar tantos mundos na abobada
estrellada; gostareis de vr os campos onde o luar se espraia, as
infindas maravilhas da creao! mas oh! nunca vereis panoramas como os
que vos sorriem agora nos meigos sonhos da infancia.

Ide, pois; esperam-vos os anjos escondidos detraz das cortinas alvas do
vosso leitosinho, e, se algum espirito areo se vos entre-mostrar
tambem, no tenhaes medo, porque os habitantes d'estes ares luminosos
so fadas meigas e risonhas, e no duendes malignos.

       *       *       *       *       *

No dia seguinte quelle em que o doutor Macedo contra, com grande
gaudio das creanas, a lenda do _Dominus tecum_, uma carruagem parava 
porta do visconde da Fragosa, e apeiava-se d'ella uma senhora edosa de
nobre aspecto e veneranda physionomia, que pedia para fallar ao visconde
e  viscondessa da Fragosa.

Era a me de Henrique Osorio, que vinha pedir para seu filho a mo de
Leonor.

Fez algum rebolio em casa dos viscondes este subito pedido feito para
pessoa que sempre vivera em intimas relaes com Leonor, e que nunca at
ahi mostrra desejos de a requestar.

Fallando-se n'isso no grupo dos hospedes, o doutor Macedo disse:

-- para que saibam que, quando se semeia sempre se colhe alguma coisa,
ainda que no seja aquillo que se previu. Das nossas lendas da
meia-noite sau este casamento, o que prova mais uma vez que o casamento
e a mortalha no co se talha.

--Tanto mais que para Henrique Osorio o casamento e a mortalha devem
estar intimamente ligados... O homem que ama espectros... O auctor de
Julieta!

N'este momento vieram dizer ao conselheiro Madureira que a sua carruagem
o esperava. Despediram-se elle e a filha dos viscondes da Fragosa,
Isaura deu um beijo frio em Leonor, e cumprimentou seccamente Henrique
Osorio.

--Espero tornal-o a vr no Espinho, disse ella com requintes de
amabilidade a Lucio Valena.

--Ah! de certo, minha senhora, respondeu o escriptor.

Quando partiram, Henrique approximou-se de Lucio e disse-lhe:

--Hontem iamo-nos irritando por frivolidades sem nome. Sabe comtudo,
Lucio, que sou seu amigo, e que no tenho no que vou dizer-lhe o minimo
pensamento reservado. No se deixe prender nos laos d'aquella formosa
mulher, que  uma _coquette_ sem intelligencia e sem alma.

--Meu amigo, tornou Lucio, rindo, eu estou-a vendo hoje pelo prisma que
voc me legou. Hei de dizer mal d'elle talvez d'aqui a algum tempo.
Agora no ha remedio; tenho-o encaixado nos olhos.

Henrique encolheu os hombros.

--Pois meus amigos, disse o doutor Macedo, que vira Leonor entrar a
dirigir-se para o seu noivo, tem a _lenda da meia-noite_ uma concluso
inesperada; mas isso foi bom para que tivesse alguma.

--Effectivamente, disse Lucio Valena, o nosso fim, confessamol-o, no
se conseguiu. As pessoas nervosas, quando estiverem ssinhas 
meia-noite n'um quarto de lugubre aspecto, ho de continuar a tremer de
espectros. Affrontal-os em boa companhia no torna aguerrido ninguem.

--Eu no posso dizer coisa alguma; na _lenda da meia-noite_ encontrei
eu, disse Henrique, a ventura da minha vida.

--E ainda que outra coisa no se alcanasse, logrou-se passarem-se
algumas noites agradavelmente.

--Assim seja! concluiu o doutor Macedo.

Possam dizer o mesmo os leitores d'este despretencioso livro.

FIM




Colleco ANTONIO MARIA PEREIRA


VULGARISAO DOS MELHORES LIVROS
DAS
LITTERATURAS PORTUGUEZA E ESTRANGEIRAS


Romances, Contos, Viagens, Historia, etc., etc.


Volumes publicados


1--Tristezas  beira-mar, por Pinheiro Chagas.

2--Contos ao luar, por Julio Cesar Machado.

3--Carmen, trad. de M. Level.

4--A Feira de Paris, por Iriel.

5--O direito dos filhos, por George Ohnet.

6--John Bull e a sua ilha, trad. de P. Chagas.

7--Esgotado.

8--A lenda da meia noite, por M. Pinheiro Chagas.

9--A joia do vice-rei, por P. Chagas.

10--Vinte annos de vida litteraria, por A. Pimentel.

11--Honra d'artista, trad. de P. Chagas.

12--Esgotado.

13 e 14--A aventura d'um polaco, trad. de Maria A. Vaz de Carvalho.

15--Os contos do Tio Joaquim, por R. Paganino.

16--Esgotado.

17--Noites de Cintra, por Alberto Pimentel.

18 e 19--Esgotado.

20 e 21--A irm da caridade, por Emilio Castellar, trad. de L. Q.
Chaves.

22--Migalhas de historia portugueza, por P. Chagas.

23--Esgotado.

24--Contos, por Affonso Botelho.

25--Esgotado.

26--Esgotado.

27--O naufragio de Vicente Sodr, por Pinheiro Chagas.

28--Vida airada, por Alfredo Mesquita.

29--O bacharel Ramires, por Candido de Figueiredo.

30 e 31--Esgotado.

32--As netas do Padre Eterno, por A. Pimentel.

33--Contos, por Pedro Ivo.

34--O correio de Lyo, por Pierre Zaccone.

35--Vida de Lisboa, por Alberto Pimentel.

36--Historias de frades, por Lino d'Assumpo.

37--Obras primas, por Chateaubriand.

38--O exilado, por Mauricia C. de Figueiredo.

39--Poema da Mocidade, por Pinheiro Chagas.

40 e 41--A vida em Lisboa, por Julio Cesar Machado.

42 e 43--Espelho de portuguses, por Alberto Pimentel.

44--A fada d'Auteuil, trad. de Pinheiro Chagas.

45--A volta do Chiado, por E. de Barros Lobo.

46--Sca e Mca, por Lino d'Assumpo.

47--Ninho de guincho, por Alberto Pimentel.

48--Vasco, por A. Lobo d'Avila.

49--Leituras ao sero, por A. X. Rodrigues Cordeiro.

50--Luz coada por ferros, por D. Anna A. Placido.

51--Esgotado.

52--Relampagos, por Armando Ribeiro.

53--Historias rusticas, por Virgilio Varzea.

54--Figuras humanas, por Alberto Pimentel.

55--Dolorosa, por Francisco Acebal, trad. de Cael.

56--Memorias de um fura-vidas, por A. de Mesquita.

57--Dramas da crte, por Alberto de Castro.

58--Os mosqueteiros d'Africa, por Mendes Leal.

59--A divorciada, por Jos Augusto Vieira.

60--Phototypias do Minho, por J. Augusto Vieira.

61--Insulares, por Moniz de Bettencourt.

62 e 63--Historia da civilisao na Europa, trad. do Marquez de Sousa
Holstein.

64--Triplice alliana, de Raul de Azevedo.

65--Retalhos de verdade, por Cael.

66--A pasta d'um jornalista, pelo Visconde de S. Boaventura.

67--Os argonautas, por Virgilio Varzea.

68--Fitas de animatographo, por Alberto Pimentel.

69 e 70--Poesias do Abbade de Jazente, annotadas por Julio de Castilho.

71--Aspectos e sensaes, de Raul d'Azevedo.

72--Contos e narrativas, por P. W. de Brito Aranha.

73--Quadros e letras, historias e romancetes, por Sanches de Frias.

74--Individualidades, por Henrique das Neves.

75--Alfacinhas, por Alfredo de Mesquita.

76--Patria amada, pelo Visconde de S. Boaventura.

77--Historias e romanctes, por Sanches de Frias.

78--Esbocetos individuaes, por Henrique das Neves.

79--Recordaes da mocidade, por Adolpho Loureiro.

80--Sorrisos, novellas e chronicas, por A. Campos.

81--Lucta de sentimentos, por Maria O'Neill.

82--Do Rocio ao Chiado, por P. de Vasconcellos.

83--A dana do destino, por Luthgarda de Caires.

84--Um drama de ciume, por Maria O'Neill.

85 e 86--Resumo da origem de todos os cultos, por C. F. Dupus.

87--Vencido, romance por F. A. M. de Faria e Maia.

88--Elogio da loucura, critica de costumes, por Erasmo.




OUTRAS OBRAS


*Azevedo (Domingos de)*


Diccionario (Grande) contemporaneo francez-portuguez e v. v. 2.^a
edio, muito correcta e extremamente augmentada.

Grammatica da lingua franceza.

Grammatica Nacional, para aprender portuguez sem mestre.

Lies praticas de conversao franceza.

Ollendorff aperfeioado para aprender francez sem mestre, (2 vol.).


*Carvalho (D. Maria Amalia Vaz de)*


Ao correr do tempo.

Arte de viver na sociedade.

Aventura de um polaco, (2 volumes).

Cerebros e coraes.

Chronicas de Valentina.

Coisas d'agora.

Contos e phantasias.

Em Portugal e no estrangeiro.

Figuras de hoje e de hontem.

Heroismo do clero.

Impresses de historia.

No meu cantinho.

Nossas filhas.

Pelo mundo fra.

Raphael, trad. de Lamartine, (ed. de luxo).


*Pinto (Silva)*

(Colleco d'algibeira)


A queimar cartuchos.

A torto e a direito.

Ao correr do pello.

Entre ns.

Frente a frente.

Moral de Joo Braz.

Mundo (O) furta-cres.

Na Procella.

Na travessia.

N'este valle de lagrimas.

No colyseu.

No mar morto.

Para o fim.

Philosophia de Joo Braz.

Por este mundo.

Riso amarello.

Rompendo o fogo.

Velha historia.


*Queiroz (Dr. Teixeira de)*


Amores... amores...

Arvoredos.

Cantadeira (A).

Caridade (A) em Lisboa (2 vols.).

Cartas d'amor.

D. Agostinho.

Morte de D. Agostinho.

Noivos (Os) (2 vol.).

Nossa (A) gente.

Sallustio Nogueira (2 vol.).

Amor Divino.

Famoso Galro.

Ao sol e  chuva.

Grande (A) Chimera.




Notas:

[1] No  da auctora a ida inicial d'esta lenda. Encontrou-a de certo
n'um magnifico livro do conde de Rsie, intitulado _Historia e tratado
das sciencias occultas_.

O livro em que fallo  um optimo archivo de todas as tradies europas.
Ha alli thesouros de poesia! Traduzo litteralmente o periodo, que me
suggeriu a ida d'este conto.  o seguinte:

Nas costas do Baltico estava outr'ora situada uma egreja, que alguns
impios profanaram um dia, e que com elles se sepultou no mar. Quando
est socegada a noite, ouvem-se ainda esses desgraados cantar soluando
os psalmos da penitencia; e vem-se brilhar atravez das ondas
tranquillas os cyrios que accendem no altar, junto do qual esto
condemnados a chorar at ao fim do mundo.

E nada mais.

Como vem, estava tudo por fazer. Mas a ida era extremamente poetica e
prestava-se a um grande desenvolvimento. Pena foi que a no deparassem
escriptores como o auctor das _Lendas e Narrativas_, ou como esse poeta
da prosa portugueza, que soube dar to esplendido colorido  _Lenda do
castello de Santa-Olaia_. Emfim o conto ahi est, bom ou mau; e com esta
nota fica em repouso a minha consciencia litteraria.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:


  +---------+--------------------+--------------------+
  |         |     Original       |     Correco      |
  +---------+--------------------+--------------------+
  |#pg.   8| principalmenie     | principalmente     |
  |#pg.  25| espirto            | espirito           |
  |#pg.  35| exagaram           | exageram           |
  |#pg.  47| vermolhos          | vermelhos          |
  |#pg.  61| escodendo          | escondendo         |
  |#pg.  62| dos lagrimas       | das lagrimas       |
  |#pg.  96| uma visto de olhos | uma vista de olhos |
  |#pg. 105| janalla            | janella            |
  |#pg. 114| parececia          | pareceria          |
  |#pg. 129| mudo               | mundo              |
  |#pg. 131| irritando-s       | irritando-se       |
  |#pg. 136| desdonhoso         | desdenhoso         |
  |#pg. 140| quandos            | quando             |
  |#pg. 141| dascuidoso         | descuidoso         |
  |#pg. 153| e pensamento       | o pensamento       |
  |#pg. 154| collocanme-me      | collocando-me      |
  |#pg. 167| prevenco          | preveno          |
  |#pg. 169| diffrentes         | differentes        |
  |#pg. 181| bellezaa           | belleza            |
  |#pg. 184| mobiiia            | mobilia            |
  |#pg. 187| associaco         | associao         |
  |#pg. 188|  rir              | a rir              |
  |#pg. 190| intulula-se        | intitula-se        |
  |#pg. 191| attenco           | atteno           |
  |#pg. 197| Iaglaterra         | Inglaterra         |
  |#pg. 203| continou           | continuou          |
  +---------+--------------------+--------------------+


A indicao da primeira seco da lenda "_Memorias d'uma bolsa verde_"
foi adicionada, uma vez que existia referncia a uma segunda seco.

Todos os _n_ e _u_ trocados, encontrados no texto, foram rectificados.

Os hfens "supostamente" em falta no foram adicionados.





End of the Project Gutenberg EBook of A Lenda da Meia-Noite, by 
Manuel Joaquim Pinheiro Chagas

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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

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ways including checks, online payments and credit card donations.
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with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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